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Comunicação Científica na Web e na América Latina: Entrevista com Isidro Aguillo

Por: SIBiUSP

Reconhecido como autoridade internacional nas questões relacionadas à bibliometria, cientometria e webometria, Isidro Aguillo concedeu entrevista (por e-mail) à equipe do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP (SIBiUSP), onde compartilhou alguns de seus pontos de vista sobre a visibilidade acadêmica e científica na web, impacto da ciência e o futuro da comunicação científica. Antes, saiba um pouco mais sobre esse importante pesquisador, suas atividades e projetos.

Nascido Isidro Francisco Aguillo Caño em La Rioja, Espanha em 1963, licenciou-se em Biologia com especialização em Zoologia, é mestre em Informação e Documentação, diplomado em Estudios Avanzados (DEA), detentor de dois títulos Doctor Honoris Causa. É membro regular de comissões científicas de conferências e revistas científicas, autor de numerosas publicações sobre os processos de comunicação científica e indicadores web de desenvolvimento da ciência e da tecnologia, quase que diariamente compartilha suas opiniões no Twitter.

Editor do Rankings Web de Universidades – Webometrics, responsável pelo Laboratorio de Cibermetria (Grupo Scimago) do Instituto de Bienes y Políticas Públicas (IPP – CSIC), dedica-se também a projetos como o OpenAIRE – de repositórios da Comissão Européia, ACUMEN – portfolio de indicadores científicos para indivíduos do VII Programa Marco de Inovação e Desenvolvimento da União Européia (UE); QEAVIS (Seção eHumanidades); Redes de Colaboración (Visibilidade Web) e PRACTIS 2008 (Tecnometría de CC SS e HH) do Plano Nacional de Inovação e Desenvolvimento da Red de Excelencia MA2VICMR da Comunidade de Madrid, Espanha. Ornitólogo aficionado, já fez várias viagens de observação de aves, da Floresta Amazônica aos desertos da Namíbia, entre outros destinos. Sua lista inclui mais de 2.000 espécies. Em 2012, foi um dos palestrantes convidados pelo SIBiUSP para o Simpósio Internacional sobre Rankings Universitários e Impacto Acadêmico na Era do Acesso Aberto, em São Paulo, Brasil, que reuniu especialistas internacionais e possibilitou a discussão em torno do impacto gerado pela produção científica e os indicadores de qualidade institucionais.

Confira a entrevista:

SIBiUSP: Você é pesquisador do Cybermetrics Lab, ligado à Agencia Estatal Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC). Conte-nos um pouco sobre este laboratório e seu papel na estrutura de Ciência e Tecnologia (C&T) da Espanha.

Isidro Aguillo: O Cybermetrics Lab é um grupo de pesquisa pertencente ao CSIC, o mais importante organismo de pesquisa pública da Espanha e um dos maiores da Europa. Nossa principal missão é estudar a comunicação científica na Web, publicando artigos e relatórios sobre esse tema em nível local e global, mas com um forte interesse na América Latina [LATAM]. Também acolhemos doutorandos e visitantes de pós-doutorado, e estamos envolvidos em projetos da União Europeia (UE).

SIBiUSP: O Cybermetrics Lab desenvolveu e mantém ferramentas de avaliação, como o Webometrics Ranking, o Ranking Web de Repositórios e, mais recentemente, a lista de Autores com h> 100 segundo seu perfil no Google Scholar Citations1 .De que maneira essas ferramentas são distintas de outras disponíveis?

Isidro Aguillo: A diferença mais óbvia é que estamos usando indicadores da web, sozinhos ou combinados com dados bibliométricos. Mas há também uma agenda “política”, pois decidimos cobrir todos os países em nossa análise, não apenas os desenvolvidos. Nossas listas de instituições possuem mais de 40.000 entradas, enquanto o número de indivíduos classificados é provavelmente perto de 200.000, com uma cobertura completa dos países latino-americanos [LATAM].

SIBiUSP: O Google Scholar é uma fonte de dados confiável?

Isidro Aguillo: Verificando a literatura disponível sobre este banco de dados, a maioria dos estudiosos concorda que é tão confiável como WoS ou Scopus, mas com uma cobertura que é várias vezes maior e considerando que é de livre acesso, eu acho que deveria ser a opção preferida para os países latino-americanos. Claro, existem problemas, como os indicadores de revistas científicas do Google Scholar Metrics que, na minha opinião, são demasiado tendenciosos para serem úteis.

SIBiUSP: Qual é a real importância dos rankings universitários?

Isidro Aguillo: Para nós, tem sido uma ferramenta poderosa para promover iniciativas de acesso aberto, que foi (e ainda é) o objetivo original dos Rankings Web. Outros editores de rankings têm outras agendas com fortes vieses políticos e comerciais e há até charlatões sem qualquer conhecimento real sobre o ensino superior e sobre as universidades. Mas no final há uma grande sobreposição entre os melhores desempenhos dos principais rankings, por isso há poucas dúvidas sobre quais são as melhores universidades de acordo com determinado modelo – as chamadas universidades intensivas em pesquisa. No entanto, as instituições que seguem outros modelos, como as universidades nacionais, que são tão importantes na América Latina, não são adequadamente reconhecidas nos rankings ARWU [Academic Ranking of World Universities], THE [Times Higher Education World University Rankings] ou o QS [Quacquarelli Symmonds World University Rankings].

SIBiUSP: Muitos pesquisadores consideram as Ciências Humanas periféricas no campo das ciências. Isso se deve às diferentes dinâmicas de produção de conhecimento, que dificultam a mensuração pelos padrões atuais de avaliação científica. Neste sentido, que alternativas teríamos para demonstrar o potencial desta área e quais os indicadores que poderiam ser utilizados?

Isidro Aguillo: Discordo fortemente dessa afirmação. Como mostra o Google Scholar, as contribuições das Humanidades não são apenas relevantes, mas têm um impacto independente dos canais de publicação. A bibliometria fácil realizada por estudiosos com a base de dados WoS é realmente errada em muitas disciplinas devido aos grandes vieses e lacunas das bases de dados “tradicionais”.

SIBiUSP: Tendo em conta que os atuais modelos de avaliação científica tendem a enfatizar as citações em vez dos resultados reais, uma alternativa a esta questão seria medir o impacto das pesquisas científicas na sociedade. Desta forma, como poderíamos medir o impacto social?

Isidro Aguillo: Em primeiro lugar, acho que as citações ainda têm um papel importante nos processos de avaliação e não devem ser descartadas. No entanto, elas devem ser utilizadas em combinação com métodos qualitativos como o Manifesto de Leidenrecomenda. Os indicadores altmetrics2 podem ser úteis também, mas eu acho que os atuais indicadores disponíveis estão realmente longe de medir verdadeiro impacto social. Os bibliotecários passaram por alto de outra disciplina de métricas que deve ser explorada em profundidade para tal propósito: Econometria. Como método, não apenas como forma de incorporar fontes de dados econômicos.

SIBiUSP: Em sua recente apresentação, você destacou a importância dos perfis de autores, instituições e grupos de pesquisa, que representam uma mudança de paradigma na ciência e na comunicação científica.

Isidro Aguillo: Devemos abandonar as métricas baseadas em revistas que não são úteis e são muito enganosas para os processos de avaliação, um grave erro comum na América Latina. O perfil é o futuro e a marca digital do pesquisador se tornará cada vez mais importante, por isso novas estratégias de comunicação devem ser desenvolvidas, especialmente aquelas que envolvem redes sociais.

SIBiUSP: Neste cenário, como fica a revisão por pares, elemento fundamental da validação da qualidade da pesquisa? E o que acontece com o papel do marketing? Poderá desvirtuar a avaliação da qualidade da ciência?

Isidro Aguillo: Tenho sérias dúvidas sobre o papel da revista tradicional como a principal unidade de comunicação científica. O esforço deve ser no sentido de fortalecer os artigos individuais, e a revisão por pares aberta é uma boa opção para identificar e filtrar a qualidade. Existem vários modelos que podem ser aplicados, mas minhas preferências vão para um híbrido de revisão por pares pré e pós-aberta.

Desde o passado o prestígio tem sido um motor para a mobilidade acadêmica, e é um fator chave para explicar o sucesso das instituições anglo-saxônicas. Até muito recentemente este recurso intangível era construído de uma forma muito opaca, mas agora a marca digital de cada pesquisador oferece uma maneira mais acessível e transparente para construí-lo, embora a confiabilidade dos métodos de marketing possa ser um problema.

SIBiUSP: Tendo em conta este pano de fundo, qual seria o futuro da publicação científica? Estaremos publicando em revistas como fazemos hoje?

Isidro Aguillo:  Acho que o grande problema da ciência latino-americana é a inflação de revistas científicas. Redalyc, Scielo, Latindex e PKP [Public Knowledge Project] devem repensar seriamente suas políticas, pois promovem um enorme aumento de periódicos medíocres. Também na América Latina não há diretórios de assunto ou megajournals que deveriam ter um papel na transição para um cenário sem revistas. Também me preocupa o foco atual dos repositórios latino-americanos em teses e dissertações e artigos em revistas locais. Outra questão que necessita de mais debate é a preferência dos repositórios / coletores de conteúdo nacionais relativamente aos repositórios institucionais. Para minha surpresa um grande número de repositórios institucionais na América Latina coletam principalmente teses e dissertações (Doutorado e Mestrado). Parece que muitas universidades pensam que apenas teses são de acesso aberto ou talvez publiquem poucos artigos em revistas não-locais.

SIBiUSP: Como você vê o crescimento das recentes métricas alternativas na avaliação da pesquisa e dos pesquisadores?

Isidro Aguillo: Há muitos artigos na América Latina descrevendo muito acriticamente o movimento altmetrics2. Há muita ênfase nas métricas de uso que podem ser muito enganosas sem fixação de padrões, e os indicadores fornecidos por serviços como ResearchGate, Academia ou Mendeley de forma alguma substituem a análise de citação (provavelmente tais indicadores sejam um subconjunto da análise de citação); e o indicador composto oferecido pela [empresa] Altmetric.com é uma caixa preta, e ninguém sabe exatamente o que o Twittermetrics está realmente medindo.

SIBiUSP: Na sua opinião, qual é a importância da Ciência Aberta? Ela é realmente viável ou será “destruída” pelos interesses comerciais? Como vê as ameaças ao acesso aberto?

Isidro Aguillo: Cada um dos componentes da Ciência Aberta (incluindo até mesmo a Ciência do Cidadão – Citizen Science) já está sendo alvo de interesses comerciais. Os bibliotecários estão contribuindo com a aquisição ou suporte de ferramentas comerciais e serviços com condições desvantajosas (nada de novo nisso, uma vez que as condições de assinaturas digitais já são bastante abusivas). Em minha opinião, para evitar problemas, a Ciência Aberta deve ser fortemente apoiada por governos envolvendo um vigoroso financiamento público de infraestruturas e ferramentas.

SIBiUSP: Qual é o papel das bibliotecas e bibliotecários no atual cenário de mudança da avaliação científica?

Isidro Aguillo: Na Europa, os bibliotecários acadêmicos já constituem o maior grupo bibliométrico existente, mas ainda há muitos problemas – muitos deles não conhecem o Manifesto de Leiden, por exemplo. Na América Latina temos iniciativas equivocadas como a bibliografia do Redalyc, outras com viabilidade futura incerta como o acordo Scielo-WoS, e em geral a maioria de seus bibliotecários ainda não estão assumindo um papel bibliométrico. Se posso dar um conselho, sugiro-lhes o modelo CRIS [Current Research Information System], evitando produtos comerciais como PURE e analisando serviços como o FUTUR (da Universidade Politécnica da Catalunha).

Notas:

  1. h = índice h, mede a produtividade e o impacto individual de cientistas através do número de publicações e suas citações. Saiba mais em: https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndice_
  1. Indicadores altmetrics = medidas de indicadores alternativos (em português: altmetria) baseadas no uso e nas menções nas mídias sociais. Saiba mais em: https://bsf.org.br/2014/07/15/altmetrics-redes-sociais-como-metricas-alternativas-para-medir-o-impacto-cientifico/

 

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FAPESP e NSF lançam nova chamada para pesquisas em biodiversidade

Por: Agencia FAPESP

Instituições financiarão projetos de cooperação por meio dos programas BIOTA-FAPESP e Dimensions of Biodiversity-NSF (foto: Eduardo Cesar)

A FAPESP e a National Science Foundation (NSF), dos Estados Unidos, lançam uma nova chamada de propostas de pesquisa e convidam pesquisadores a submeter projetos de cooperação científica por meio de seus programas BIOTA e Dimensions of Biodiversity.

A seleção de propostas para 2017 está baseada em uma chamada mais ampla, publicada anualmente pelo programa Dimensions of Biodiversity, voltada à participação de cientistas de instituições nos Estados Unidos em oportunidades financiadas pela NSF ou lançada em parceria com outras agências de fomento, como a FAPESP.

Nesta chamada, as propostas devem integrar as três dimensões da biodiversidade – Genética, Filogenética e Funcional – com a proposta de compreender as interações entre elas e seus resultados. Abordagens inovadoras são encorajadas de modo a acelerar a caracterização e a compreensão dessas três dimensões e sua relativa importância.

As propostas podem ser submetidas à FAPESP por pesquisadores associados a instituições de ensino superior e de pesquisa no Estado de São Paulo.

Serão apoiadas propostas nas modalidades Auxilio à Pesquisa – Projeto Temático e Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.

A duração do projeto de pesquisa deve ser de cinco anos, com possibilidade de se prolongar por mais 12 meses, em condições excepcionais.

A chamada envolve uma etapa de análise de pré-propostas que devem ser enviadas para a FAPESP até o dia 2 de dezembro de 2016. Os pesquisadores responsáveis pelas pré-propostas enquadradas serão convidados para a submissão de propostas completas que devem ser enviadas para a FAPESP até 21 de fevereiro de 2017.

A chamada de propostas está disponível (em inglês) em:

 www.fapesp.br/biota/dimensions-NSF2017

As chamadas de propostas anteriores lançadas por BIOTA-FAPESP e Dimensions of Biodiversity-NSF, com seus respectivos resultados, estão em www.fapesp.br/6516

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Livro infantil: “CLARA E AS ÁGUAS INVISÍVEIS”

Por:  Luciana Cordeiro de Souza

“Clara e as águas invisíveis” vai ensinar as crianças e os adultos sobre o mundo das águas subterrâneas.

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Dia 21/09 as 16:30 acontecerá o lançamento do livro infantil de educação  ambiental para as águas, “Clara e as águas invisíveis”, 3º volume da  coleção “Clara:uma gotinha d’água”, no Expo D Pedro (Shopping D Pedro) em Campinas/SP durante o  XIX Congresso Brasileiro de Águas Subterrâneas /Fenágua 2016

O livro é de autoria da autoria da Professora de Direito Ambiental Luciana Cordeiro de Souza da UNICAMP, na história  uma gota d’água se transforma em menina para se tornar a melhor amiga de um grupo de crianças: Mariana, Júnior e Guilherme. Estas crianças nomeadas “Guardiões da Água”, levam aos seus amigos a mensagem do cuidado e da proteção das águas como agentes multiplicadores do aprendizado adquirido nas histórias anteriores (“Clara: uma gotinha d’água” e “Clara e a reciclagem”).

Nesta história quatro novos amigos se juntam a Turma, são Dedé, Lelê, Belinha e Tiago que, de forma proativa abordam um tema pouco debatido, as águas subterrâneas – principalmente para o público infantil – que desde tempos imemoriais são exploradas pela humanidade com a perfuração de poços.

Em “Clara e as águas invisíveis” são abordados   onde se encontram as águas subterrâneas, os principais aquíferos do Brasil, o cuidado com o solo e que todos precisam se unir para protegê-las. E como nas outras histórias, os diálogos são simples, claros e educativos. Há uma relação harmoniosa entre os personagens que participam deste processo educativo ambiental, demonstrando o entendimento e fomentando a preocupação com o meio ambiente.

Durante o Congresso que ocorre neste mês de 20 a 23, está programada a exposição: “Venha Conhecer o Fundo do Poço – De Onde Vem a Água que Você Bebe” e de forma lúdica será realizado o jogo  POKEPOÇO.

O livro foi patrocinado pela A Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS) e pela empresa  “Jundsondas Perfuração de Poços”.

Mais informações sobre o congresso em: http://www.abas.org/xixcabas/

 

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Encontro entre Ministério Público Federal e Ministério do Meio Ambiente

Por Ministério Público Federal

A coordenadora da Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, subprocuradora geral da República Sandra Cureau, participou de reunião nessa terça-feira, 31 de maio, ao novo ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho.

O tema licenciamento ambiental foi destaque na agenda das autoridades

Sandra Cureau saudou o ministro, a quem desejou boa sorte no comando da pasta. “O ministro tem sido um grande parceiro do Ministério Público Federal; já enfrentamos muitas batalhas juntos e teremos outras a enfrentar”.mpf

Polêmicos e muito criticados, os projetos de lei em trâmite no Congresso Nacional, que visam flexibilizar ou derrubar o licenciamento ambiental, foram um dos tópicos da conversa. A Proposta de Emenda Constitucional nº 65/2012, alvo de mobilização do MPF contra a aprovação, também foi repudiada pelo ministro, que já a havia combatido enquanto estava na Câmara dos Deputados. “Essa PEC nos tiraria de um cenário com a legislação avançada e nos levaria de volta a uma legislação medieval”, afirmou na ocasião.

Atividade agrossilvipastoril – Ainda no tema licenciamento, o procurador da República na Bahia Pablo Barreto pediu apoio do ministro contra decreto do governo do Estado que isenta as atividades agrossilvipastoris (agrícolas, florestais e pecuárias) de submissão ao licenciamento ambiental.

A Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural recomendou ao Ministério do Meio Ambiente, em abril desse ano, que adote entendimento pela inconstitucionalidade de leis estaduais que dispensam toda e qualquer atividade agrossilvipastoril de licenciamento, conforme manifestação da Advocacia-Geral da União em Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 5132), ajuizada pela Procuradoria-Geral da República em abril de 2015.

“Esse é um grande problema enfrentado na Bahia, com grande risco de judicialização. Esse decreto vai totalmente contra a Constituição”, ressaltou o procurador Pablo Barreto.

O ministro sinalizou positivamente no sentido de que o MMA se posicionará pela exigência do licenciamento para essas e outras atividades, afirmando que acatará a recomendação da 4ª CCR.

O lugar do jornalismo no século XXI

Por Rosemary Bars Mendez – Labjor

Há uma crise no jornalismo? Não. Há uma crise na empresa jornalística e na maneira como ela conduz seus negócios, envolvendo aí o jornalismo como um produto, uma prática comercial que vende a informação em busca de audiência, num verdadeiro processo de manipulação para atrair a atenção do receptor. A atual conjuntura vivenciada pelo setor também está ligada à maneira conservadora de administração, incapaz de acompanhar as transformações sociais por meio das tecnologias que se renovam com intensa velocidade.

O empresário, por tradição familiar, aprendeu a manter o gerenciamento numa linha que se dividia entre jornalismo e publicidade, com lucros significativos para ampliar o seu patrimônio e seus investimentos. Para obter os ganhos considerados necessários, seu principal produto, o jornalismo, aparecia embalado na sua linha editorial, ajustado para atender os interesses do mercado econômico, dos anunciantes e de setores da política. A prática sempre lhe garantiu o retorno esperado, porque a receita cumprida à risca nunca desandou o bolo na participação dos lucros. Nesse processo, a redação sempre foi comandada para atender essas premissas editoriais, contaminada pelos ares emanados das instâncias superiores e respirados por profissionais envolvidos nessa burocracia empresarial que domina as redações.

Mas os tempos mudaram. Os empresários da área não se atentaram aos sinais dados pela tecnologia e se viram, nos anos 1980 e 1990, envoltos em questões que não sabiam como resolver. Tudo começou nos anos 1960, com as pesquisas realizadas nos institutos norte-americanos com objetivos de se obter uma comunicação em rede, inicialmente voltada à segurança nacional, durante o momento histórico da Guerra Fria. Os passos científicos daquela década representaram os primeiros avanços que transformariam o mundo com futuras inovações. A televisão alterava o comportamento das famílias, os jornais modificavam seus textos de opinativos para informativos e o rádio era o acompanhante fiel, principalmente, das donas-de-casa.

Em sete anos, entre 1990 e 1997, a internet era uma realidade nos centros de pesquisas, nas universidades, nas empresas e começava, mesmo que por alto custo, a integrar o cotidiano doméstico. Um cenário muito diferente da revolução de Gutenberg, que no século XV, inventou a prensa e deu vida aos jornais impressos. Mas para torná-lo comum aos cidadãos, foram necessários cerca de 400 anos.

Com a internet e as transformações tecnológicas a partir dela, o sujeito passivo, que lia o jornal em casa ou ficava horas sentado em frente à televisão, mudou sua conduta. Os jornalistas passaram rapidamente da condição de mediar o teor da informação a ser transmitida que dominavam, a competir e conviver com alternativas comunicacionais criadas pelo mundo da web, que possibilitam ao receptor ter ações ativas na transmissão da informação, de contraposições, de opiniões, com comentários e compartilhamentos, reduzindo o domínio empresarial sobre o conteúdo veiculado pela empresa jornalística.

O resultado foi imediato, com a queda das assinaturas dos meios tradicionais (jornais e revistas) e a redução do volume de publicidade como consequência; houve redução no índice de audiência da televisão, pela diversidade de canais disponibilizados pelo mundo digital, muitos gratuitos para o internauta, que tem em mãos um celular ou um tablet com capacidades múltiplas de armazenamento de dados, para obter informações a qualquer hora, sobre qualquer lugar ou fato, sem ter que estar inerte, apenas vendo e ouvindo ou virando páginas e páginas impressas.

O mundo digital mudou o comportamento social, hoje mais dinâmico. O internauta seleciona os canais, os endereços ou as pessoas que segue. Ele escolhe, seleciona informações ligadas ao seu interesse e se manifesta contrário aos jornais que consideram manipular a opinião pública. Essa diversidade de opções dadas pela tecnologia tirou os empresários da mídia da zona de conforto que se encontravam até final do século XX.

O relatório Digital e Mobile de 2015, divulgado pela agência de marketing social We Are Social, mostra que o Brasil é o terceiro país do mundo que passa mais tempo na internet. Entre os 204 milhões de brasileiros, 54% são usuários ativos da internet, que permanecem em média 10 horas por dia conectados, sendo sete horas nas redes sociais, contra cinco horas diárias assistindo televisão.

A era digital permitiu que em 2014 fossem registrados mais de um bilhão de websites, contra os três mil que existiam em 1994. Um salto representativo em apenas 20 anos, o que afetou o cérebro das empresas jornalísticas, por elas não refletirem sobre os possíveis impactos advindos dos processos tecnológicos e da inclusão digital, por quebrar as fronteiras geográficas pela desterritorialização, reduzindo as distâncias entre os povos. Hoje, podemos navegar pelo mundo pesquisando e conhecendo os fatos cotidianos, ler notícias de vários países pelo celular. O único impedimento é cultural, ou seja, dominar a língua estrangeira.

As transformações vivenciadas pela sociedade integram a própria evolução do homem e seu modo de vida, muito bem explicadas pela história, pela sociologia e áreas afins. O certo é que o mundo do século XXI ainda está em constantes modificações pelas inovações sempre anunciadas pela área tecnológica; as empresas jornalísticas buscam uma saída para reinventar-se como negócio. Haverá o momento em que as demissões de profissionais gabaritados terão que ser encerradas e as empresas deverão repensar a estrutura da redação e o modelo de negócio que gerenciam, a fim de recuperar a qualidade jornalística e a credibilidade no trabalho apresentado ao público.

Somente em 2015, foram demitidos 1.400 jornalistas das redações tradicionais, o que representa um impacto na qualidade do conteúdo editorial, com a justificativa de que a economia está em baixa e isso teria afetado a receita das empresas pela redução do número de leitores ou na queda da publicidade. Na realidade, hoje há inúmeras possibilidades para se obter uma informação, além de qualquer um poder emitir opinião, participar da construção do conteúdo a ser difundido. A web permite ao usuário acompanhar o noticiário em vários sites e comparar o que está sendo veiculado pela mídia.

A resposta para esse cenário é a prática do jornalismo em sua essência. É possível afirmar que, historicamente, o jornalismo nunca entrou em crise e continua a ter seus princípios e fundamentos éticos íntegros. Para isso, é necessária uma bússola que oriente a separação da empresa jornalística da função do jornalista, pois são questões distintas, nem sempre perceptíveis pelo público. É possível fazer bom jornalismo independente da linha editorial de uma empresa de comunicação, garantir idoneidade no jornalismo opinativo em blogs, como fazem Paulo Henrique Amorim, Leonardo Sakamoto, Luís Nassif, Fernando Rodrigues, Josias de Souza, Jânio de Freitas, entre tantos outros profissionais não tão renomados no mercado editorial, que não pendem suas posições diante das estruturas empresariais e políticas. Opinião com capacidade de análise e reflexão sobre os fatos cotidianos sem interferência interna da burocracia de uma redação, com profissionais que buscam espaço na web de maneira independente, com seguidores que participam, interagem e compartilham suas ideias.

O jornalismo sempre foi e será a maneira de se obter informações sobre o cotidiano e, assim, garantir conhecimento sobre um fato até então desconhecido, como a transmissão do vírus da gripe H1N1 ou o nascimento de bebês com microcefalia por causa de infecções causadas pelo zika vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo transmissor da dengue e da febre chikungunya. Dessa forma, o jornalismo, desde a sua origem, representa uma forma de se ter uma informação que agrega conhecimento sobre fatos que envolvem a sociedade. É por isso que sempre trabalha com temas atuais, porque são estes que trazem a novidade sobre os acontecimentos diários, sobre descobertas científicas, procedimentos jurídicos ou políticos, sobre a economia e manifestações sociais. Ligado aos interesses da coletividade, o jornalismo observa os fatos mais impactantes para o cidadão, que podem repercutir em sua vida, como a alta dos preços da cesta básica ou da energia elétrica, mas também está atento aos assuntos internacionais, como guerras, conflitos, eleições ou os processos econômicos de outros países, em função da globalização. Assim, as notícias alimentam os veículos de informação, as redes sociais, os blogs jornalísticos pelo valor que o fato tem para a sociedade, pelo impacto, relevância ou por sua representatividade para a humanidade.

A expectativa para o jornalismo neste século também está ligada à mudança do método de produção da notícia, com ações mais colaborativas dos internautas, auxiliando na construção do conteúdo a ser veiculando. Vivencia-se uma nova cultura, a multimidiática, que se integra às ações jornalísticas ao criar espaços para difusão da informação em todas as plataformas, reunidas num portal. Um jornal tradicional hoje está na web e utiliza vídeo, texto, foto e processos de compartilhamento do material publicado; tem espaço no Facebook, tem jornalistas blogueiros, está no Twitter.

O jornalismo é o mesmo: tem metodologia de apuração, de verificação da procedência da informação, avaliação da fonte, processos para checagem dos dados coletados para respeitar os princípios da veracidade, sem contar o comportamento ético que garante ao profissional a credibilidade para o trabalho que desenvolve. Hoje, o repórter tem mobilidade para produzir a informação de qualquer lugar a qualquer hora, postando a informação em tempo real, atualizando-a sempre que houver um fato novo, e o usuário conectado a receberá instantaneamente. Os meios tradicionais, como o rádio, a televisão e o impresso continuarão com seus espaços no mundo editorial, mas todos estarão vinculados ao mundo da web para sobreviverem como empresa e conseguirem atender a diversos perfis de pessoas.

A interatividade permitida aos usuários aproxima o internauta do jornalista, que tem a visibilidade de seus posts e seguidores de suas publicações em blogs, Facebook ou Twitter como referência de sua credibilidade profissional. O monitoramento das visitas realizadas pelos internautas, ao clicarem no link de uma notícia ou curtirem e compartilharem uma foto, garante a audiência necessária para se conseguir a publicidade que sustenta a redação de um portal. Esse movimento, a migração da publicidade dos meios tradicionais para a internet, já é visível. Em 2015, o investimento na publicidade digital teve um crescimento de 15% em relação a 2014, o que representou um volume de R$ 9,5 bilhões, segundo pesquisa divulgada pela Interactive Advertising Bureau (IAB) Brasil. Isso explica porque as empresas jornalísticas estão buscando caminhos multimidiáticos para a divulgação de suas notícias.

Os espaços da internet estão abertos para as produções jornalísticas de qualidade. Há vários sites que se construíram independentes dos braços de empresas tradicionais e conseguem financiamentos de fundações ou do próprio público, que patrocina projetos considerados relevantes pelo sistema crowdfunding, também conhecido como “vaquinha virtual”. Esse trabalho é a alternativa que referencia a capacidade empreendedora de jornalistas com autonomia para atuar no mercado, e a tendência é a sua ampliação, já que o mercado tradicional está cada vez mais enxuto.

Essa é uma nova cultura jornalística, que nasceu no mundo digital e vivencia a realidade virtual. Um exemplo dessa prática é a Pública – Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo (http://apublica.org/), pioneira no Brasil, que aposta no jornalismo sem fins lucrativos; atua com reportagens voltadas para questões que afetam a vida do brasileiro (política, economia, direitos humanos), chamadas de “produção de fôlego”, para sair do agendamento convencional da cobertura diária, com acesso livre para o internauta. A proposta é também investir em jovens jornalistas, por acreditarem na atuação do repórter na sociedade. O financiamento vem da Fundação Ford, Oak Foundatión, Porticus e Open Society Foundations, além do crowdfunding.

Assim como a agência Pública, há alternativas na web criadas por jornalistas que deixaram as redações tradicionais e investem em sites que denominam como independentes e colaborativos. Alguns deles são direcionados para públicos específicos, como o Amazônia Real (http://amazoniareal.com.br/), voltado para questões ambientais, indígenas e reforma agrária; ou o Risca Faca (http://riscafaca.com.br), que apesar do nome ser um pouco estranho, tem por objetivo contar histórias de personagens que consideram interessantes e fugir da cobertura que acompanha as redes sociais. Aos Fatos (http://aosfatos.org/) é produzido por profissionais experientes que construíram a primeira plataforma multimídia brasileira voltada à verificação do discurso público, ou seja, checar se o político está falando a verdade e quais são os interesses envolvidos em sua fala. Por isso, não aceitam financiamento de qualquer origem estatal. Outra referência é O Brio (http://brio.media/), com reportagens que contam histórias de vida de personagens que dialogam com a realidade brasileira e mundial, num contraponto às notícias rápidas do jornalismo diário.

A criação da internet e as dezenas de possibilidades de se produzir uma notícia ou reportagem multimídia no mundo da web mudou o sistema dominado pelas empresas jornalísticas e, aos poucos, elas vão percebendo que há concorrência no espaço virtual com produções de qualidade. As empresas tradicionais podem dominar os grupos de comunicação, num verdadeiro monopólio da informação, mas há novos horizontes para o jornalista, porque há terreno fértil no mundo digital a ser explorado pelo jornalismo ético, com técnicas de apuração refinadas e com boas histórias para serem contadas.

Com as tecnologias, além de potencializar o ritmo e a quantidade de informações disponibilizadas ao público, o jornalismo tem outro horizonte à sua frente, a segmentação. Há uma expansão de títulos que podem ser produzidos para públicos específicos, especializados em determinados temas, como agronegócio, que teve uma participação de 23% no PIB do país em 2015 contra os 21,4% em 2014. É um mercado em expansão, que busca informações jornalísticas sobre a área, como negócios, economia, investimentos ou mesmo sobre a situação do produtor rural brasileiro.

Com a multiplicidade de mídias, permitida pela tecnologia, e com a possibilidade de se produzir revistas ou jornais segmentados, as perspectivas para o jornalismo nas próximas décadas é de pleno desenvolvimento. A receita para um bom jornalismo, Cláudio Abramo já publicou nos anos 1970: “O jornalista deve ter uma formação cultural sólida e tem que saber muito bem algumas coisas. Ele deve saber história, saber como funciona seu país, a máquina do país, as relações na sociedade”, ingredientes essenciais indicados para o velho e para o futuro jornalismo.

A parcialidade da imparcialidade?

Por Cecilia Café-Mendes – Labjor

A prática de se relatar um fato, tal qual ele ocorreu, está relacionada à ideia de imparcialidade jornalística. Caso haja dois ou mais lados na mesma questão, devemos buscar fontes para embasar o maior número possível de interpretações. Assim, garantimos isonomia entre as partes envolvidas na descrição do evento e permitimos ao leitor ou espectador a construção de suas próprias conclusões. O princípio da imparcialidade está na base das teorias sobre o jornalismo. Mas pelo que se tem discutido e visto ultimamente na atual crise brasileira, ela é de fato praticada? Será que o viés dos noticiários tem interferido na qualidade da informação veiculada?

Nesse contexto, é importante refletir sobre algumas questões fundamentais. O conceito de verdade é parcial. Nossos sentidos e nosso psicológico nos induzem a uma visão particular de como é o mundo. Naturalmente, nós possuímos uma série de preconceitos construídos social e culturalmente, o que torna difícil para o ser humano avaliar de forma objetiva o mundo que o cerca. Como pontua Ben Goldacre em seu livro Ciência picareta (Ed. Civilização Brasileira, RJ, 2013), somos capazes de extrair informação de tudo, desde enxergar formas em nuvens a acreditar que existem “temporadas de sorte” para jogos.

Muitas vezes vemos padrões onde eles não existem, e não percebemos os que de fato estão lá. Querendo ou não, todos nós temos o nosso viés ao interpretar os fatos que chegam até nós e, assim, com base na nossa memória e nas nossas experiências, passamos essas informações adiante. E, mais do que isso, tendemos a supervalorizar e também a buscar informações que confirmem qualquer hipótese que estamos interessados em defender. Vale citar aqui Charles Darwin, que em seu artigo “A biographical sketch of an infant”, de julho de 1877, descreve exatamente essa tendência cognitiva: “Eu segui uma regra de ouro: sempre que uma nova observação ou pensamento surgia, se fosse oposta a meus resultados gerais, eu fazia uma anotação dela, sem falha e de imediato, pois eu tinha descoberto, pela experiência, que esses fatos e pensamentos têm uma tendência muito maior para fugir à memória do que os fatos favoráveis”.

De maneira adversa a esse raciocínio, desde os primórdios, a qualidade do jornalismo é baseada na sua suposta isenção, ou seja, a notícia como espelho do fato. Embora essa imparcialidade já tenha sido amplamente questionada, os procedimentos jornalísticos ainda se justificam pela busca da “verdade”. Diversas linhas editoriais de mídia impressa ou eletrônica sustentam o seu compromisso com a isenção na veiculação das informações. E para reafirmar a imparcialidade, reservou-se uma seção para veicular a opinião do veículo, o editorial. Ou seja, o conceito de objetividade jornalística cerca a audiência e vende a imagem de que tudo que não for declaradamente opinião do veículo é reprodução fidedigna de fatos e, assim, as notícias supostamente manteriam seu caráter de confiáveis.

Entretanto, tanto o jornalismo quanto as ciências, de uma forma geral, falham na sua isenção, quando não possuem a prerrogativa da independência. Podemos citar exemplos de “pesquisas” que comprovam a eficácia de determinados cosméticos, patrocinadas pela indústria da beleza, ou estudos com equações matemáticas que “demonstram” que a dilatação da pupila provocada pela cerveja torna a mulher mais atraente após consumir alguns copos da bebida, como o que foi patrocinado pela Bausch & Lomb (fabricante de produtos óticos) e produzido por um professor da Universidade Manchester. Ou seja, essa ciência produzida tem como finalidade o embasamento de um anúncio publicitário por empresas.

Da mesma forma, o que se observa com o jornalismo é uma interdependência das mídias com os interesses políticos, religiosos e econômicos. É clara a interferência por meio de subsídios, empréstimos bancários e publicidade. Como pontua o professor Murilo Cesar Soares, do curso de comunicação social da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), “a imparcialidade é um valor importante para as empresas jornalísticas, pois significa para o leitor que o meio de comunicação tem credibilidade. No entanto, há casos históricos que revelam que, em situações envolvendo interesses muito fortes, de natureza política ou econômica, os meios podem burlar esse princípio, de forma aberta ou sutil. O caso mais conhecido e estudado no Brasil foi o do apoio das Organizações Globo à candidatura de Fernando Collor à presidência em 1989”.

Se formos atrás de um histórico da imprensa, e isso vale para qualquer país, vemos que o jornalismo pende para um lado ou para outro dependendo da situação política/econômica do país. No Brasil, basta verificar os jornais da época da ditadura até os dias atuais. Como exemplifica o professor Wilson da Costa Bueno, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), “é fácil perceber essa falta de isenção a todo momento, como o do debate sobre o impeachment da presidente Dilma que ocorre agora. Os veículos, assim como as fontes que os subsidiam, não se respaldam necessariamente em fatos, mas em intenções”. Bueno complementa que “não há mal em termos uma diversidade de mídias não independentes; o que é penoso é termos mídias comprometidas que não assumem essa condição e monopólios da comunicação que contribuem para sufocar o debate”.

Esse comprometimento da mídia se torna mais flagrante com o surgimento, dentro do jornalismo tradicional, do chamado “branded content”, ou jornalismo patrocinado. Isso significa incorporar propagandas às reportagens. Ou seja, falar sobre os benefícios do cacau e convidar alguém de uma grande empresa de chocolates para enumerar as suas vantagens, e assim por diante. Segundo Álvaro Pereira Júnior, em matéria publicada em 2013 no Observatório da Imprensa, a rede BBC e o New York Times já apresentam traços desse jornalismo patrocinado. Bueno afirma que “o branded content faz o jogo das grandes corporações e contamina o fluxo informativo. Como jornalista tradicional, vejo com enorme desconfiança a aproximação gradativa entre os setores de redação e o comercial nos meios de comunicação, com uma influência crescente do segundo sobre o primeiro”.

Dentro do jornalismo tradicional, o editorial é o responsável por explicitar a posição do veículo diante de determinado assunto. Entretanto, percebemos que esse viés, em princípio, direcionado ao editorial, hoje se espalha pelo corpo de notícias e reportagens da mídia. Segundo Soares, da Unesp, “o viés jornalístico pode se disseminar pelo noticiário sob a forma de enquadramento noticioso, que é a maneira pela qual alguns fatos são destacados, outros atenuados ou omitidos, de modo a conferir à narrativa uma ‘inclinação’ sutil, que passa despercebida pelo leitor. O editorial continua sendo o espaço do jornal dedicado a expressar explicitamente a posição do veículo sobre questões políticas, administrativas e sociais. Mas os enquadramentos das reportagens é que ‘dão o tom’ dos diversos assuntos”. Bueno, da Umesp, vaí além: “o viés jornalístico está centrado no editorial, nas reportagens, na escolha dos articulistas e mesmo na publicação das cartas ou e-mails dos leitores. Não há isenção jornalística, apesar do discurso em contrário”.

Diante dessas incertezas que permeiam a aparente imparcialidade jornalística, há uma horda de pessoas que criticam e incitam o boicote aos meios de comunicação como forma de solucionar ou pelo menos demonstrar a sua insatisfação com essa provável falta de transparência das notícias. Entretanto, talvez a nossa forma mais eficaz de combater o problema seja paciência, seja não aceitar o que nos passam como verdade absoluta. É preciso ser crítico e buscar diferentes fontes de algum assunto que nos interessa no momento, ao invés de formar nossas opiniões baseados na opinião de apenas uma fonte ou de reproduzir informação sem minimamente investigar sua origem. Bueno reflete que “embora não se possa assumir que a audiência funcione como uma página em branco, deve-se registrar que, cada vez mais, ela dispõe de alternativas para receber e interpretar as informações. Além disso, há setores qualificados da audiência que têm também seus compromissos e leituras do mundo e contempla os veículos a partir de seus filtros, reagindo à tentativa deliberada da imprensa de ditar sozinha as regras”.

Já dizia Millor Fernandes que “se você não tem dúvidas, está mal informado”. Mario Sérgio Cortella, em seu livro Não se desespere!, complementa: “gente que não tem dúvidas não inova, não avança e não cria; só repete e redunda”. Como esclarece Soares, da Unesp, “é preciso um maior debate sobre questões públicas controvertidas, nas escolas, nos sindicatos etc., de modo que as audiências amadureçam suas opiniões e refinem sua percepção dos acontecimentos. É necessário que esse debate não tenha ortodoxias nem posições fechadas prévias, o que não é o caso que se vê no Brasil atualmente”.

Independente do viés do jornalismo, e de tudo que lemos, devemos buscar a nossa independência de pensamento e afiar a nossa crítica. Só assim agiremos menos por debates baseados em fé e em torcida e mais em ideias e princípios.

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Concurso Biota: Empreendedorismo para alunos de Pós graduação de Instituições Paulistas

Por Marcelo Meletti- Agência FAPESP

Estímulo a jovens criativos e empreendedores

logo_biota_10O Programa BIOTA/FAPESP – O Instituto Virtual da Biodiversidade CONVIDA alunos de Pós-Graduação, de qualquer instituição paulista de ensino e/ou pesquisa em Ciência e Tecnologia, a apresentarem propostas de MODELO DE NEGÓCIOS EM BIODIVERSIDADE baseados em pesquisa dentro da grande área temática que abrange a caracterização biológica e química, conservação, restauração e uso sustentável da biodiversidade brasileira.

No mundo global, altamente complexo e competitivo, o empreendedorismo e a inovação passam a ser ferramentas essenciais na busca pela competitividade das organizações em formação ou já materializadas, sobretudo nos setores em que a tecnologia é o meio determinante como prerrogativa competitiva.

Empreendedorismo, tradução livre da palavra “entrepreneurship”, é a denominação dada a transformação de conhecimentos em produtos ou serviços, na geração do próprio conhecimento ou na inovação em áreas estratégicas de mercado e produção, no caso do presente concurso, a biodiversidade brasileira, um potencial enorme de oportunidades de negócios. Há muitas definições para o conceito de empreendedor, principalmente, porque são propostas por pesquisadores de diferentes campos do conhecimento, que utilizam os princípios de suas próprias áreas de interesse para construir um negócio privi legiando a criatividade e a intuição como instrumentos de inovação.

Identificar indivíduos inovadores por meio de modelos de negócios inovadores sobre serviços e ativos da biodiversidade brasileira é uma forma de identificar jovens talentos a contribuírem com o desenvolvimento econômico e social do país.

Um modelo de negócios consiste na lógica através da qual uma organização cria, entrega e captura valor. O Business Model Canvas é uma ferramenta simples para a estruturação inicial de uma ideia ou de um projeto. Ele é formado por nove blocos, que servem como um guia para a formulação da estratégia de uma empresa. Esta ferramenta permite que se estruturem os principais itens da empresa a ser criada, com um baixo custo inicial e agilidade. O mais importante princípio do Canvas é a validação. Validar um modelo de negócios significa buscar evidências claras de que há clientes dispostos a pagar pelo produto oferecido.

O modelo de negócios deve apresentar o Canvas em seu formato original e informações aprofundadas sobre cada bloco que o compõe. O concurso será dividido em 3 fases eliminatórias, abaixo listadas, e dois níveis: I) equipes formadas exclusivamente por mestrandos; II) equipes formadas por mestrandos e doutorandos ou exclusivamente por doutorandos.

1ª fase – os projetos serão avaliados pela Coordenação do Programa BIOTA quanto ao enquadramento nas regras do concurso, sem avaliação de mérito;

2ª fase – os projetos serão revisados por assessores ad hoc quanto ao mérito;

3ª fase – os 10 primeiros projetos classificados em cada nível terão 10 minutos para uma apresentação pública da proposta (Pitch), defendendo-a para uma banca composta por 1 membro da Coordenação do Programa BIOTA e quatro especialistas nas áreas de empreendedorismo, incubadoras, aceleradoras e investidores. Esta banca definirá a colocação de cada proposta, e os dois primeiros colocados, em cada nível, serão premiados, conforme detalhado abaixo.

As equipes cujos projetos passarem para a 2ª fase participarão, obrigatoriamente, um evento de “mentoria” e treinamento de “pitch” organizado pela Coordenação do Programa BIOTA em parceria com as Agências de Inovação das 3 Universidades Paulistas.

O objetivo desta iniciativa do Programa BIOTA/FAPESP é fomentar o empreendedorismo, e promover o desenvolvimento de negócios que utilizem de forma sustentável a biodiversidade brasileira. O concurso visa também desenvolver a capacidade de comunicação através de um discurso de venda de ideias (Pitch) geradas por um modelo de negócios baseado nos resultados de pesquisa(s) ou de uma invenção criativa, pois a fase final do concurso será pública, com uma apresentação de 10 min para um júri de especialistas que escolherão os dois primeiros colocados, um em cada nível.

Serão aceitas inscrições individuais ou de equipes com, no máximo, 5 componentes. No caso de equipes reunindo mestrandos e doutorandos, para fins deste concurso, a inscrição será enquadrada como de Doutorado.

Inscrições até 22 de abril de 2016

Mais detalhes e instruções para inscrição estão disponíveis em:

http://www.biota.org.br/wp-content/uploads/2016/04/Concurso-EMPREENDEDORISMO-BIOTA-2016.pdf

Vídeo

Dia Mundial do Rádio 2016: um aliado contra desastres e emergências

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Por UNESCO-Brasil

Para marcar data, celebrada neste sábado, UNESCO no Brasil faz parceria com a UFRN e a NBR: programação trata de prevenção e combate ao vírus zika.
No dia 13 de fevereiro é comemorado o Dia Mundial do Rádio. Neste ano, o tema proposto pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) é o papel desse meio de comunicação em situações de emergência e desastres.
“O rádio é um dos nossos mais fortes aliados para enfrentar desastres naturais e emergências humanitárias. Ele nos permite prevenir perigos e mobilizar salvamentos. Ele ajuda a disseminar informações vitais para proteger a vida humana e para apoiar a reconstrução. Ele recria conexões entre comunidades, restaura o contacto entre pais e filhos, e entre famílias separadas por crises”, diz a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, em vídeo especial para o Dia Mundial do Rádio de 2016.
Para celebrar a data, a UNESCO no Brasil se aliou a outras duas instituições: a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e a TV do Governo Federal, a NBR. Tendo o vírus zika como um exemplo de situação de emergência que afeta nosso país, a rádio universitária da UFRN desenvolveu cinco spots que irão mobilizar, alertar e educar os ouvintes sobre o combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus zika e de doenças como dengue, chikungunya e febre amarela urbana. Os spots serão veiculados na rádio universitária e nos canais de comunicação da UNESCO no Brasil.

Já a NBR fará uma série de entrevistas e exibirá matérias na sexta-feira, 12/02/2016, com historiadores, radialistas e representantes da defesa civil, da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) e da UNESCO sobre a importância da data e o tema deste ano. As entrevistas serão exibidas e transmitidas na TV NBR, nas rádios e nas redes sociais da EBC e também disponibilizadas na radiosat para que emissoras de todo o país possam reproduzir o conteúdo. Já no dia 13/02, haverá uma campanha de mobilização nacional sobre o vírus zika.

Em todo o mundo, o Dia Mundial do Rádio será celebrado por meio de parcerias com emissoras de rádio internacionais que farão transmissões ao vivo por meio do hotsite http://www.worldradioday.org, disponível nas seis línguas oficiais da ONU: inglês, espanhol, francês, árabe, chinês e russo. O site foi criado especialmente para a data e reúne informações sobre o Dia Mundial do Rádio e as comemorações em todo o mundo neste ano, além de notícias, artigos, vídeos e áudios com mensagens de formadores de opinião, celebridades e Embaixadores da Boa Vontade da UNESCO. Todos os materiais podem ser utilizados livremente por veículos de comunicação.

Sobre o Dia Mundial do Rádio

A Conferência Geral da UNESCO de 2012 aprovou o dia 13 de fevereiro como o Dia Mundial do Rádio. A data é dedicada a celebrar o rádio como um meio para melhorar a cooperação internacional entre as emissoras e incentivar as grandes redes e as rádios comunitárias a promover o acesso à informação, à liberdade de expressão e à igualdade de gênero.

O rádio continua a evoluir na era digital, sendo a mídia que atinge o maior público em todo o mundo. Ele é uma ferramenta de comunicação poderosa com custo médio baixo. O rádio é especificamente adequado para alcançar comunidades remotas e pessoas vulneráveis e, ao mesmo tempo, oferece uma plataforma para intervir no debate público, independentemente do nível educacional das pessoas. Além disso, tem um papel forte e específico na comunicação de emergência e no socorro em desastres.

Sendo este último o tema para a celebração da data em 2016, as mensagens-chave que a UNESCO deseja passar são:

1. A liberdade de expressão e a segurança dos jornalistas devem ser “à prova de desastres”.
2. O rádio empodera os sobreviventes e as pessoas vulneráveis, cujo direito à privacidade deve ser respeitado.
3. O rádio tem impacto social e fornece acesso a informações. O direito à informação da população deve ser protegido.
4. O rádio salva vidas.
5. A acessibilidade imediata às radiofrequências é essencial para salvar vidas. Essas frequências devem ser protegidas em situações de emergência.

Veja:

Registro da produção científica na USP: uma história que completa 30 anos

Por: Elisabeth Dudziak

Registro e preservação da memória da Produção Intelectual da USP – 1985 a 2015

Desenvolver estratégias para registro, preservação e acesso à produção intelectual da Universidade tem sido uma atividade contínua desde 1985, sob a coordenação do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP – SIBiUSP, criado em 1981.

O registro da produção intelectual da Universidade iniciou-se com a publicação da Resolução 2858 de 1º de fevereiro de 1985 [1], que estabeleceu as diretrizes e procedimentos para promover e assegurar a coleta da produção intelectual gerada nas Unidades da USP e a posterior transferência da informação à Coordenação do SIBiUSP.

Com a finalidade de preservar a memória da Universidade, àquela data já previa a obrigatoriedade de depósito de, pelo menos, um exemplar dos produtos gerados a partir das atividades de pesquisa pelos docentes e pesquisadores de nível superior da USP. Era obrigatório armazenar uma cópia impressa de cada documento cadastrado. Esse acervo ainda está preservado e acessível nas bibliotecas das Unidades, Institutos e Museus da Universidade.

Desde então, as bibliotecas da USP têm realizado a coleta, armazenamento, organização e registro de artigos de periódicos, livros e capítulos de livros, monografias e ensaios, trabalhos completos e resumos publicados em anais de eventos, traduções, folhetos e similares, edições revisadas, composições musicais e outras produções artísticas, além de mapas, cartas, publicações seriadas e relatórios técnicos.Todos esses registros constituem a Base 04 – Produção Intelectual – que está disponível por meio do Banco de Dados Bibliográficos da USP – o Banco Dedalus [2].

Em 1990, a Resolução Nº 3716, de 03 de Agosto [3] trouxe para o Conselho Supervisor do SIBiUSP a incumbência de normalizar a coleta da produção intelectual da Universidade e em 1995, a Resolução Nº 4221, de 17 de novembro [4] atualizou as diretrizes e procedimentos para promover e assegurar o controle bibliográfico da produção intelectual gerada nas Unidades USP e pelos Programas Conjuntos de Pós-Graduação, bem como a sua disseminação para a comunidade. Tal ação continua até os dias atuais. O Gráfico 1 apresenta a evolução do número de itens cadastrados na Base 04 do Dedalus, no período de 2010 a 2014, e dados parciais de 2015.

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Para se ter uma ideia da importância do trabalho de registro da produção científica da Universidade, a seguir apresentamos gráfico comparativo entre o número de registros cadastrados no Banco Dedalus e na Base de Dados Web of Science (Thomson Reuters) – Gráfico 2.

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Em relação à produção acadêmica da Universidade, o registro das teses e dissertações da Universidade, bem como a guarda e acesso ao documento original impresso são assegurados pelas bibliotecas da USP. Pelo menos um exemplar impresso de cada tese e dissertação defendida na USP está disponível nas bibliotecas. O Gráfico 3 exibe a evolução do cadastramento (Base 03 do Banco Dedalus) de teses e dissertações defendidas na USP no período de 2010 a 2014, e dados parciais de 2015.

usp 3

A implantação da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações – BDTD [5], em agosto de 2002, permitiu o registro, controle e acesso aberto à produção acadêmica da instituição em meio digital.

Iniciado em 2009, o projeto piloto para a construção do Repositório Institucional da USP foi implementado por uma equipe de professores e bibliotecários, em parceria com bibliotecas de três Unidades  – EACH, ECA e FMVZ  – e recursos provenientes da FINEP. Em 22 de outubro de 2012 passou a ser oficialmente reconhecido como repositório institucional da USP, a partir da Resolução 6.444 [6], contando, à época, com conteúdo indexado e acessível de cerca de 8.000 artigos científicos. Passou então a denominar-se Biblioteca Digital da Produção Intelectual da USP – BDPI[7]. Em 2013, foram acrescentadas novas funcionalidades e tipologias documentais, possibilitando o acesso aberto em meio digital a milhares de documentos na íntegra produzidos por autores USP. O trabalho de “povoamento” do repositório da USP continua, mantido pelas equipes bibliotecárias das Unidades, Institutos e Museus da Universidade, sob coordenação do Departamento Técnico.

Mais de trinta anos decorridos, o registro da produção intelectual (produção científica, acadêmica, artística e técnica) da Universidade de São Paulo constitui-se como trabalho pioneiro que resgata, preserva e torna acessível a outras gerações de pesquisadores e ao público em geral os resultados das atividades de pesquisa da USP.

[1]http://www.leginf.usp.br/?resolucao=resolucao-no-2858-de-1-de-fevereiro-de-1985
[2] http://www.dedalus.usp.br
[4] http://www.sibi.usp.br/Portaria-Resolucao/res_4221.htm
[5] http://www.teses.usp.br
[6] http://www.producao.usp.br/static/pages/RESOLUCAO6444.pdf
[7] http://www.producao.usp.br

Vida Extraterrestre – Poderia ser Semelhante à Terrestre?

Por Marcelo Szpilman

A recente descoberta (pela Nasa) do planeta Kepler-452b, com fascinantes características que o tornaria habitável, suscitou, mais uma vez, a recorrente pergunta: poderia ele abrigar vida semelhante à terrestre?

As razões para tamanha especulação giram em torno do conceito de que o planeta fica numa “zona habitável”, região de seu sistema solar cuja radiação permite que exista atmosfera estável e água líquida na superfície. O que não seria novidade, já que a ciência estima haver na Via Láctea cerca de 10 bilhões de planetas com zonas habitáveis parecidas com a da Terra. Não haveria surpresa também se fosse descoberta vida em algum desses planetas

No entanto, a “vida” que se pressupõe existir em outros planetas não deve ser nada diferente de bactérias ou outros organismos celulares simples. Especulações sobre vida “inteligente”, ou até seres semelhantes a nós, devem permanecer na esfera da fantasia

Em cada um desses planetas em potencial, as chances de se repetirem (na mesma sequência física e temporal) todas as incontáveis variáveis, ocorrências, transformações e acasos naturais que alteraram as condições geológicas, ambientais e biológicas no nosso planeta e, por conseguinte, direcionaram a evolução da vida e das espécies como a conhecemos hoje, tendem praticamente ao impossível. E não faltam exemplos para explicar o porquê, sem falar nas condições especialíssimas que possibilitaram o surgimento das primeiras bactérias e algas microscópicas no mar, 3,5 bilhões de anos atrás.

Se hoje todos os animais têm cinco falanges (dedos) na extremidade dos membros, o motivo é elementar: há 650 milhões de anos havia seres macroscópicos terrestres com cinco, seis e sete falanges. Então, passados 400 milhões de anos de evolução, um cataclismo de enormes proporções extinguiu cerca de 80% de todas as espécies do nosso Planeta. Felizmente, um desses seres de cinco falanges conseguiu sobreviver e se tornou o ancestral que deu origem à diversificação evolutiva de todos os animais que vivem ou viveram na face da Terra. Não fosse esse simples acaso, nós poderíamos muito bem ter seis ou sete dedos.

Não fosse também a grande extinção em massa dos dinossauros, há 65 milhões de anos, não haveria condições para o fabuloso desenvolvimento dos mamíferos, já que os mesmos permaneceriam sendo seres pequenos, esquivos e noturnos para não serem comidos. E se não fossem as mudanças geológicas que criaram as cadeias de montanhas no Rift Valley, na África, continuaríamos sendo primitivos primatas hominídeos arborícolas. Explico. Essa barreira natural passou a reter os ventos e nuvens e modificaram o clima no leste da África há oito milhões de anos. Enquanto o lado oeste não sofreu grandes mudanças climáticas e suas florestas tropicais permaneceram abrigando os ancestrais dos gorilas e chimpanzés, o lado leste caracterizou-se por um aumento gradativo de aridez nas áreas habitadas pelos hominídeos (ancestrais do homem), causando a criação de um novo habitat que variava desde as savanas florestadas até as áreas muito áridas, quase desérticas. A ocupação e sobrevivência nesse novo habitat forçaram as mudanças evolutivas de comportamento e estrutura física __ locomoção bípede, utilização de ferramentas, aumento do cérebro (caça de grandes animais) e reconstrução do crânio (articulação da palavra) __ que nos levaram até o gênero Homo.

Assim, ainda que o tema “vida extraterrestre” gere muita imaginação criativa e filmes de Hollywood, seria bem mais salutar se nos preocupássemos efetivamente em conservar e proteger a Natureza extraordinária e única que tem possibilitado tamanha diversidade de vida no nosso planeta.

Pense bem: os grandes seres já estão por aqui há pelo menos 650 milhões de anos e se esse tempo correspondesse à uma hora, nós, Homo sapiens, que vagamos por essas bandas há somente 200 mil anos, faríamos parte da vida terrestre apenas no último segundo dessa hora. Olhando por esse ângulo, o Planeta Terra, que tem quase cinco bilhões de anos, não está nem um pouco preocupado se nós nos extinguirmos depois de acabar com a vida que hoje há nele, pois ela certamente retornará. Poderá levar alguns milhões de anos, mas a vida voltará e se desenvolverá com outras variáveis e outros seres vivos diferentes. Mas nós, seres humanos, não estaremos mais aqui para ver.

Cerrado, Além da Névoa

Ganhador de Melhor Filmecapa com premio

Cinecipó – Festival de Cinema Socioambiental da Serra do Cipó 2013

Por Tatiana Clauzet

O filme “CERRADO, Além da Névoa” leva o espectador a um dos mais belos e menos conhecidos ecossistemas do mundo, localizado no centro do Brasil.

Como uma pintura impressionista, exaltando a cor e luz desse lugar, o filme transcorre como um mito de criação passando pelos elementos criadores como a água, a terra, o ar e o fogo, e as impressionantes criaturas que habitam essas planícies.

O filme apresenta um novo gênero de documentário, onde a poderosa beleza natural e o mistério do lugar aliados a visão artística e a pulsante trilha sonora original constroem e ditam o roteiro.

O Parque Nacional das Emas é lar de alguns dos mais incríveis animais do mundo, como o Tatu canastra, Tamanduá Bandeira e o Lobo Guará, além de fenômenos naturais que só ocorrem nesta especifica parte do Brasil, como a bioluminescência e as milhares de aranhas comunitárias.

“CERRADO, além da Névoa” é uma incrível explosão de vida, cores e mistério, uma reverência a natureza como sendo uma eterna e mais bela obra de arte já criada.

Um Filme de

Christian Spencer, Marc Egger, Gibby Zobel

Edited by

CERRADO, Além da Névoa and Gibby Zobel

Original Music

Christian Spencer