Notas e tendências recentes sobre o setor agroquímico no Brasil.

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Por: Gabriel da Silva Teixeira * Conselheiro da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA-Núcleo SP). Biólogo e Cientista Social, Mestre (UFRRJ) e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP)

Para considerar a demanda mundial por agrotóxicos, bem como seus efeitos para o comportamento do mercado brasileiro, é importante considerar ao menos quatro grandes movimentos com fortes impactos na comercialização deste tipo de produto:

a) Aumento da população mundial, sobretudo nos países em desenvolvimento, que leva a uma pressão e maior demanda por alimentos;

b) Elevação da renda populacional, devido a tendência de aumento do PIB global, com implicações no incremento da demanda por proteína. Tal movimento também acarreta uma elevação do consumo de produtos agrícolas demandados principalmente pelos produtores de proteínas (ex: agropecuária, suinocultura, avicultura, etc.);

c) Aumento da demanda por biocombustíveis, em parte decorrente da volatilidade atual dos preços do petróleo, de regramentos cada vez mais exigentes em países desenvolvimentos e em desenvolvimento e da pauta ambiental, cada vez mais presente no debate publico mundial;

 d) Por fim, a consolidação de acordos multilaterais que reforçam o caráter primário exportador de algumas economias periféricas, com destaque para o caso brasileiro, em que pese anúncios recentes de acordos multilaterais junto à União Europeia 2 e à desindustrialização da econômica brasileira seguida de uma especialização primário exportadora.

Diante destes vetores, dois movimentos principais são esperados para o incremento da produtividade na agricultura global: o aumento da área global plantada e o incremento da produtividade por hectare, onde se espera centralidade da utilização de insumos agrícolas, com destaques para os agrotóxicos.

 Espera-se a expansão da produção agrícola e pecuária para áreas até então não convencionais (como pastagens, áreas degradadas, fronteiras agrícolas e, sobretudo florestas) como também o aumento da produtividade por meio de tecnologias e técnicas de cultivo. Em ambos os casos, cria-se um aumento da demanda para o uso de agrotóxicos.

  O aumento da produtividade, por sua vez, dependerá de inovações e incremento tecnológico, como melhorias na irrigação, em sementes mais produtivas, fertilizantes e agroquímicos mais eficazes .

Como se sabe, máquinas, equipamentos, irrigação e fertilizantes tem pouco impacto na demanda por agrotóxicos, ao passo que a utilização de sementes modificadas (transgênicas) implica o aumento proporcional na utilização dessas substâncias. Um estudo financiado pelo BNDES em 2014 sobre a estrutura e dinâmica do setor agroquímico brasileiro apontou que  Culturas transgênicas tendem a aumentar a demanda por agroquímicos nos casos em que é desenvolvida na planta uma maior resistência ao defensivo. Com isso é possível aplicar um novo defensivo ou um defensivo em maior quantidade sem impactar o desenvolvimento da planta (BNDES, 2014: 9). A opinião de consultores do mercado de agroquímicos também parece ser cética naqueles casos que envolvem culturas modificadas geneticamente para apresentarem maior resistência à determinada praga. Nestas situações, mesmo que a demanda por agroquímicos tenda a diminuir num primeiro momento, especialistas tem ressaltado o caráter temporário de tal resistência, “uma vez que as pragas estão em constante evolução” (BNDES, 2014: 9).

Especialistas do setor de agroquímicos chegam a afirmar que “os transgênicos não representam uma ameaça ao mercado de defensivos agrícolas devido à complementaridade entre os produtos (defensivos e sementes geneticamente modificadas)” (BNDES, 2014: 9).

Portanto, a perspectiva é de aumento mundial da demanda por agroquímicos e paralelamente, pelo incremento tecnológico e inovação em produtos agrícolas complementares, como a relação sementes modificadas-agroquímicos. Balança comercial dos defensivos agrícolas no Brasil, algumas lacunas e significados.

 É sabido que o mercado de defensivos agrícolas brasileiro é fortemente suprimido em função das importações.

Em outras palavras, o mercado brasileiro, cada vez mais, depende das importações como o meio de abastecer seus agricultores. Se levada em conta a propriedade intelectual, os produtos podem ser segmentados em Patenteados ou Genéricos. Se consideradas as etapas mais importantes da cadeia produtiva, os produtos podem ser classificados como Técnicos ou Formulados (…). As etapas mais importantes da cadeia produtiva diferem principalmente no conhecimento tecnológico envolvido. A obtenção de produtos técnicos ocorre através de processos de síntese química, que são mais intensivos em conhecimento tecnológico e em capital. Já a obtenção de produtos formulados (formulação) ocorre, na grande maioria dos casos, sem a ocorrência de reações químicas e é menos intensiva em tecnológica e capital. 

Como pode ser observado (…), a importação de produtos formulados vem crescendo em ritmo mais acelerado que a importação de produtos técnicos, sinalizando também um enfraquecimento também da indústria de formulação local [do Brasil]. (BNDES, 2014: 15).

Em outras palavras, a síntese química fina, intensiva em tecnologia, segue sendo oligopolizada pelos principais players mundiais, ao passo que a formulação (adição de compostos secundários aos princípios ativos), que em parte era realizada no próprio país por indústrias locais, tende a se concentrar sob os auspícios de grandes grupos comerciais, alterando a conformação do mercado interno que, até recentemente, tinha participação relativamente expressiva das empresas nacionais.

Seria interessante acompanhar o movimento de fusão, aquisição e incorporação dos formuladores nacionais e ver de que modo a incorporação deste segmento se alinha com a estratégia globais de grandes players mundiais. 

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