Influenza – H1N1

A fase mais perigosa da gripe  

O infectologista e pesquisador Vicente Amato Neto temeu pelo relaxamento da Vigilância Sanitária no mundo inteiro até a declaração oficial de pandemia pela OMS.   

Por Otacílio do Carmo 

Uma das principais autoridades científicas na área de doenças infecto-contagiosas do Brasil, o médico Vicente Amato Neto, acredita que a gripe influenza A não será tão danosa quanto as três maiores pandemias, que mataram mais de 50 milhões de pessoas. Mas o vírus H1N1 (da mesma linhagem das grandes epidemias) continua vivo e segue sua sina agressiva de infectar e fazer vítimas mundo afora.

O alarde após surgimento da gripe suína no México chegou a perder impacto e espaço na imprensa mundial. Mas o vírus influenza A (H1N1) mantém sua trajetória de surpreender populações, espalhando-se rapidamente no hemisfério norte e deixando rastro de mortes. Um dos principais infectologistas e pesquisadores de doenças tropicais do Brasil, Vicente Amato Neto chegou a temer pelo relaxamento da Vigilância Sanitária no mundo inteiro. E com isso, o risco de aumentar a vulnerabilidade das vítimas. O cenário, no entanto, tende a reverter-se após a declaração oficial de pandemia global pela OMS em 11 de junho. 

“Ao baixar a guarda, as pessoas se tornam menos precavidas e é aí que mora o perigo. O fator surpresa de um vírus que ninguém, ainda, conhece direito pode ser desastroso”, alerta o médico e pesquisador-chefe do laboratório de Parasitologia do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. 

ATENÇÃO – A Organização Mundial de Saúde (OMS) emite sucessivos boletins, informando o avanço da doença nos mais distantes países, inclusive da Ásia, na esperança de que o mundo mantenha prevenção contra a disseminação da gripe. Pesquisadores internacionais relatam que a ameaça da influenza A se mantém.

Segundo esses estudos, o vírus é transmitido mais facilmente do que o da gripe sazonal (comum), que mata 250 mil pessoas todo ano no planeta. Conforme o relato de cientistas, o H1N1 é potencialmente tão letal como o da gripe espanhola de 1918, que dizimou 50 milhões de pessoas (quase 40% da população na época).

Também o vírus da gripe asiática de 1957 apresentava características semelhantes ao da gripe de agora e fez 2 milhões de vítimas. A terceira pandemia do século 20, em 1968, teve seu epicentro em Hong Kong, arrastando 1 milhão de pessoas para a morte. Mas por que essas pandemias foram tão desastrosas?

“As condições higiênico-sanitárias precárias, hábitos alimentares, costumes, falta de identificação da doença e de medicamentos eficientes, enfim, uma série de fatores contribuíram para a propagação das doenças infecto-contagiosas com grande número de óbitos”, explica o professor emérito de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

PREVISÃO – Apesar do grande avanço da Medicina nas últimas décadas, o Banco Mundial concluiu, no ano passado, que se uma pandemia do tipo das de 1918, 1957 e 1968 ocorresse atualmente, poderia matar mais de 14 milhões de pessoas e consumir 2% da economia mundial.

No caso da atual gripe suína, Amato Neto não acredita que números tão trágicos possam ocorrer. Por uma razão simples: “Hoje, o tema ainda é comentado diariamente na imprensa internacional, o que é muito bom. As pessoas ficam mais bem informadas e muitas medidas de precaução são tomadas”.

Com relação a medidas que o Ministério da Saúde tomou na tentativa de controlar os eventuais casos de aparecimento e desenvolvimento da gripe A no Brasil, Amato Neto não tem reparos. “Acho que o monitoramento das fronteiras e de portos, além de terminais rodoviários e aéreos mais treinamento específico dos profissionais de saúde para tratar de casos suspeitos são procedimentos corretos”. 

CONTRADIÇÃO – E o que é correto? A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem alertado que a carne de porcos infectados pelo vírus da gripe não deve ser consumida por humanos. Já a FAO (agência da Organização das Nações Unidas para alimentação e agricultura) tem posição contrária, dizendo que a carne suína pode ser consumida, desde que cozida.

Amato Neto, também presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, resolve o tira-teima: “A FAO está certa. O cozimento da carne torna o vírus inativo. O resto é tema de caráter econômico ou político. O caso, por exemplo, de a OMS mudar o nome da gripe suína para influenza A é puramente por questão política, o que a meu ver não é correto. Já o fato de o Egito abater quase todo o rebanho suíno do país para tentar afastar a ameaça da doença é, além de desinformação, uma decisão emocional e até religiosa”.

Informações desencontradas, gestores de governo com políticas equivocadas e saúde pública abandonada só reforçam o motivo por haver uma das frases do líder ativista pelos direitos civis Martin Luther King afixada numa das portas do Laboratório de Parasitologia do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo: “Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas ainda não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos”.

 

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