Por Ambiente do Meio
O SITE ComeAnanás publicou:

“Aqui, uma provável base de sustentação do Nordeste”.
Foi este o título dado por O Globo a uma entrevista publicada no dia 17 de dezembro de 1975 na página 8 do jornal. A entrevista foi com o então secretário de Planejamento do estado de Alagoas, José de Melo Gomes. A referência – “aqui” – era à instalação da Salgema, hoje Braskem, em Maceió.
“Aqui começa a explosão industrial de Alagoas: a Salgema vai gerar 400 milhões de cruzeiros anuais para o Produto Interno Bruto alagoano”, dizia a legenda da foto ilustrativa, a foto da fábrica em construção.”
O Jornal História de Alagoas publicou:
“Salgema e o movimento contra a ampliação de 1985

As reações contra a instalação da Salgema Indústrias Químicas no Pontal da Barra começaram em meados dos anos 70, quando o governo autorizou o início das obras da empresa em Maceió.
Nos anos seguintes ao da implantação, os protestos retornavam sempre que ocorria algum acidente.
Dez anos após, em 1985, as mobilizações voltaram a ganhar corpo após o anúncio da intenção de ampliação da capacidade operacional da empresa e da instalação do Polo Cloroquímico em Marechal Deodoro.
As reações contra a instalação da Salgema Indústrias Químicas no Pontal da Barra começaram em meados dos anos 70, quando o governo autorizou o início das obras da empresa em Maceió.
Nos anos seguintes ao da implantação, os protestos retornavam sempre que ocorria algum acidente.
Dez anos após, em 1985, as mobilizações voltaram a ganhar corpo após o anúncio da intenção de ampliação da capacidade operacional da empresa e da instalação do Polo Cloroquímico em Marechal Deodoro.

Polo Cloroquímico
A ideia desse Polo surgiu ainda em 1975, paralelamente à montagem do complexo industrial no Pontal da Barra e logo após a Petroquisa ter adquirido participação acionária na Salgema.
Estudos à época indicaram que houve um erro na expectativa de exportação de cloro e que havia a necessidade de se ter uma estrutura nas proximidades com capacidade de utilizar a produção da Salgema, considerando que se teria dificuldade para o transporte e para a eliminação do ácido clorídrico, um dos subprodutos do processo.
A importância de se ter esse aglomerado de industrias nas proximidades foi apresentada durante um seminário realizado na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) entre 24 e 26 de novembro de 1975.
Deste evento participaram o governador Divaldo Suruagy; seu vice, Antônio Gomes de Barros; dom Adelmo Machado (arcebispo de Maceió), prefeito de Aracaju, João Alves; presidente do Banco de Alagoas, Lincoln Cavalcante; diretor da Petroquisa e presidente da Copene, Otto Vicente Perroni, além de secretários de Estado, estudantes, professores, técnicos, empresários e outros.

Entre os palestrantes estavam o ministro chefe da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, Hélio Beltrão, o deputado federal e assessor do presidente da República, Rômulo de Almeida, e o consultor da empresa CLAN, Paulo Bardy.
Foi a empresa Murrison Knudsen Internacional Engenharia S.A. que apresentou o estudo sobre a instalação do polo industrial, detalhando que existiam duas áreas com possibilidades de serem utilizadas para tal fim.
A denominada Área I era vizinha a planta industrial no Pontal da Barra. A segunda área, que foi a escolhida, ficava no tabuleiro de Marechal Deodoro.
Em 6 de dezembro de 1979, o Decreto nº 4.111 do governo estadual desapropriou 1.019ha no tabuleiro escolhido. Para garantir uma possível expansão, uma nova área de 1.970ha foi desapropriada pelo Decreto nº 5.019 de 9 de março de 1982.
No mês seguinte, o Polo foi oficializado pelo Decreto Federal nº 87.103, de 19 de abril de 1982. Concedeu-se também incentivos fiscais e financeiros aos projetos analisados como de relevante interesse nacional pelo Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI) do Ministério da Indústria e Comércio.
Guilherme Palmeira, governador do Estado em 1981, explicou à revista O Cruzeiro de 30 de dezembro daquele ano que queria evitar que Alagoas fosse um mero exportador de matéria-prima.

A revista comemorava: “E sua ideia já é vitoriosa. Com o impulso dado ao Complexo Químico, ele deixará a seu sucessor uma estrutura ricamente assentada e já asseguradas sete indústrias de transformação”.
Informando que a Salgema tinha passado para o controle da Norquisa, O Cruzeiro noticiava ainda que a empresa iria, entre outras ampliações, duplicar sua produção de cloro, passando de 220 mil toneladas para 440 mil toneladas/ano.
Em 1985, o Polo ainda não havia sido concretizado e, para viabilizá-lo, o que era a causa passou a ser efeito. A imprensa começou a divulgar que o empreendimento não avançava por exigir que houvesse a ampliação da capacidade produtiva da Salgema para manter o fornecimento de matéria prima para as empresas que se instalariam no tabuleiro de Marechal Deodoro.
Outro argumento apresentado era o de que essas implantações e ampliações ajudariam a dar vasão ao álcool produzido em Alagoas, que em 1985 superava os 500 milhões de litros por ano e somente 10% do produto era transformado em álcool carburante.
Para forçar o governo a agilizar a autorização da duplicação operacional da Salgema, teve início uma campanha pela imprensa com ameaças de transferência do Polo, e até a própria Salgema, para a Bahia ou Sergipe.
“Se nada acontecer em Alagoas, antes de 15 de novembro deste ano, já se considera como sujeita a forte debate a expansão da Cia. Química do Recôncavo (CQR), que faria vários produtos a partir do propeno e do eteno baiano (duas matérias-primas básicas da indústria petroquímica). A decisão ficará, mais uma vez, no lado político”, intimidava o Jornal do Brasil de 20 de maio de 1985.
Protestos
Os jornais, em março de 1985, já consideravam como fato consumado a ampliação: “A Salgema Indústria Químicas de Alagoas vai duplicar sua produção de cloro, dicloroetano, soda cáustica e hidrogênio, para atender à demanda do Polo Alcoolquímico do Estado, a ser inaugurado em meados do ano que vem. A produção de cloro passará para 440 mil toneladas/ano, dicloroetano para 300 mil toneladas, soda em torno de 450 mil toneladas e hidrogênio para 120 mil toneladas/ano”, divulgou o Jornal do Brasil de 31 de março de 1985.

Os jornais, em março de 1985, já consideravam como fato consumado a ampliação: “A Salgema Indústria Químicas de Alagoas vai duplicar sua produção de cloro, dicloroetano, soda cáustica e hidrogênio, para atender à demanda do Polo Alcoolquímico do Estado, a ser inaugurado em meados do ano que vem. A produção de cloro passará para 440 mil toneladas/ano, dicloroetano para 300 mil toneladas, soda em torno de 450 mil toneladas e hidrogênio para 120 mil toneladas/ano”, divulgou o Jornal do Brasil de 31 de março de 1985.
Entretanto, o pedido de autorização não teria a tramitação tranquila desejada pela empresa. Após ser protocolado no governo estadual, cresceu a mobilização dos moradores dos bairros adjacentes e de ambientalistas contra a permissão.
Preocupado com os possíveis arranhões políticos, o governador Divaldo Suruagy tratou rapidamente de coletivizar a decisão, criando uma comissão para analisar o pedido.
Divulgou que acataria a decisão tomada pelo coletivo, “seja ela qual for”. (Jornal do Brasil de 21 de abril de 1985). A comissão era formada por técnicos e representantes dos seguintes partidos: PDS, PFL, PTB, PDT e PCB. O PMDB não aceitou o convite, mas alguns dos seus parlamentares participaram das reuniões.
Foram os parlamentares do PMDB, com o apoio do Sindicato dos Jornalistas e da Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos, que adotaram as primeiras medidas concretas contra a duplicação e pleiteando a relocação da planta industrial. Um projeto de Lei com essa finalidade chegou a ser aprovado na Assembleia Legislativa, mas foi vetado pelo governador.
Ainda em abril de 1985, a Empresa Petroquímica Brasileira (EPB) passou a ser mais uma acionista com controle da Salgema.

Presidida pelo ex-ministro dos Transportes Eliseu Rezende, a EPB comprou parte dos outros três controladores, Copene (tinha 35.25%), Norquisa (34, 53%) e Petroquisa (30,22%), de um capital de Cr$ 101 bilhões 407 milhões.
O ex-presidente general Ernesto Geisel era quem dirigia a Norquisa e presidia o Conselho da Copene desde junho 1980. Havia deixado a presidência em 14 de março de 1979.
Eram estes os proprietários da Salgema que o Governo de Alagoas e a Comissão instalada temiam desagradar.
Como também não desejava contrariar a população, o governador anunciou, no dia 31 de maio de 1985, que realizaria em Maceió um plebiscito para saber se os moradores desejavam a duplicação da produção da Salgema. A consulta foi marcada para o dia 7 de julho.
Em 1985, a mobilização contra a duplicação ganhou o reforço expressivo do “Movimento pela Vida”, uma organização composta por cientistas, ecologistas e políticos. Foi essa entidade que no dia 20 de abril de 1985 decidiu liderar um ato público contra a Salgema no dia 7 de maio.
Participavam também o Programa de Meio-Ambiente da Universidade Federal de Alagoas, representado pelo professor José Geraldo Marques; o Instituto dos Arquitetos do Brasil; o Sindicato dos Jornalistas; a Sociedade Alagoana dos Direitos Humanos e os DCEs da Ufal e do Cesmac.
A passeata ocorreu somente no dia 17 de maio e contou com a presença de mil pessoas, segundo o Jornal do Brasil do dia seguinte.
Um relatório confidencial dos órgãos de segurança detalhou que a manifestação teve início às 16h e que as faixas e cartazes tinham os seguintes dizeres: “NÃO DEIXE DUPLICAR A SALGEMA”, “O FUTURO SERÁ CINZA SE O PRESENTE NÃO FOR VERDE”, e “NÃO DEIXE DUPLICAR SEU RISCO”.
Além de um carro de som, o relatório policial avaliou que cerca de 400 pessoas tomaram parte no evento, que foi coordenado pelas seguintes entidades: Sociedade Alagoana de Direitos Humanos, Instituto dos Arquitetos do Brasil – Secção Alagoas, Diretórios Centrais dos Estudantes do Cesmac e Ufal, União das Mulheres de Maceió, União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas, União da Juventude Socialista, Sindicato dos Bancários e Federação das Associações de Moradores de Alagoas.
O documento que relatou a manifestação anotou ainda a presença das seguintes pessoas: deputado estadual Ronaldo Lessa do “PMDB/AL e ligado ao PC do B”, deputado estadual Moacir Andrade do PMDB, deputada estadual “e membro do CR/MR-8/AL” Selma Bandeira, vereador Edberto Ticianeli do “PMDB e militante do PC do B”, vereadora Kátia Born do “PMDB e simpatizante do PC do B”, professor e ecologista José Geraldo Wanderley Marques, jornalista Anivaldo Miranda e o radialista Jorge Moraes.
Considerando o evento como esvaziado, o informante anotou que isso aconteceu porque horas antes o professor Evilásio Soriano, “coordenador do Polo Cloroquímico, da Salgema Indústrias Químicas S/A”, participou de um debate na televisão apresentando os argumentos positivos para a ampliação.

Na Câmara Municipal de Maceió, um grupo de vereadores do PMDB conseguiu fazer aprovar Projeto de Resolução, apresentado pelo vereador Edberto Ticianeli, criando Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar os riscos reais para Maceió que a ampliação da planta industrial do Pontal da Barra trazia. Várias audiências foram realizadas, mas os interessados na apuração eram minoria e os resultados foram inexpressivos.
No dia 3 de julho de 1985, o plebiscito do governador voltou às páginas dos jornais. Estava sendo esperado para o dia 1º de julho. O Jornal do Brasil informava que para votar o cidadão teria que ter o título de eleitor.
“A Salgema decidiu interromper as obras de terraplanagem, nas quais já tinha investido o equivalente a 10 milhões de dólares. A Bahia está interessada em desenvolver uma produção cloroquímica”, respondeu ameaçando o Jornal do Brasil.
Em meados de junho, surgiu a notícia que o plebiscito seria adiado para o dia 7 de julho. O adiamento era justificado pela necessidade de mais tempo para o Tribunal Regional Eleitoral organizá-lo.
O Jornal do Brasil de 26 de junho de 1985 apontou as razões para o jogo de empurra-empurra: “É que ninguém está querendo assumir o risco da decisão, diante do fator político”.
O mesmo periódico, em 17 de junho de 1985, analisou que tão cedo não ocorreria a consulta: “Sabe-se que já existem dúvidas sobre a realização do plebiscito, já que passou a ser vinculado às próximas eleições para prefeito. Com isso, pode prevalecer a tendência de ir empurrando para a frente sua realização, até novembro”.
E para não perder a oportunidade, ameaçou: “Alguns empresários que estão esperando a decisão para implantarem suas unidades continuam conversando com o pessoal da Bahia: uma alternativa já considerada como viável por alguns”.
O plebiscito recebeu atestado de óbito ainda no final do mês de junho. O Tribunal Regional Eleitoral não aceitou fazer a consulta e o governador, convenientemente, deixou a decisão para os eleitores nas eleições de novembro, quando se escolheria o prefeito da capital.
As ameaças continuaram e o tom delas subiu após a realização entre os dias 18 e 23 de agosto de 1985, em Maceió, do 13º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, cujo tema foi “O homem no meio ambiente: caminho para a mudança”.
O Congresso foi contundente na análise da situação e nos indicativos. Na Recomendação nº 1, considerou que o local era impróprio, não tinha alvará de licença e que já tinham ocorridos acidentes. Indicou que a empresa Salgema deveria transferida para outro local.
Na segunda Recomendação, desaconselhou a instalação do Polo Cloroquímico no tabuleiro de Marechal Deodoro, observando que os produtos seriam bombeados através de área ecológica vital, cortando canais e lagoas. Por último recomendou a elaboração de estudo de impacto ambiental antes de se adotar qualquer iniciativa.
Essa reportagem sobre o Congresso foi publicada no Jornal do Brasil de 26 de agosto de 1985. O título da matéria não deixava nenhuma dúvida sobre o que pretendia o jornal: “Polo cloroquímico de Alagoas deve mesmo mudar para Sergipe”.
A chantagem ficou mais clara no último parágrafo: “Um detalhe: dois dos acionistas da Salgema são a Petroquisa (subsidiária da Petrobras) e a Norquisa (dirigida pelo ex-presidente Geisel), que já mandaram representantes a Aracaju visitar as obras do porto que a Petrobras está apoiando a construção”.
No dia 9 de setembro de 1985, o Jornal do Brasil informou que a decisão do governo estadual sobre a duplicação sairia até o final do mês e deu o ultimato: “Soube-se, neste final de semana, que foi apresentado um ultimato ao Governo local — fala-se num prazo de 15 dias para a decisão — pelos empresários interessados na ampliação”.

Com as eleições municipais marcadas para 15 de novembro, Divaldo Suruagy conseguiu adiar a decisão até o início de dezembro, quando foi oficializada a vitória de Djalma Falcão (PMDB) sobre João Sampaio, da coligação PFL/PDS.
Como existia a possibilidade do prefeito oposicionista interferir no processo, o governo do Estado autorizou a duplicação.
Imediatamente a Salgema divulgou que investiria 150 milhões de dólares na expansão do parque industrial. Na mesma reportagem do Jornal do Brasil de 9 de dezembro de 1985, anunciou que faturaria naquele ano CR$ 450 bilhões com a venda de cloro, soda cáustica e dicloroetano (cloro+eteno). As vendas foram principalmente para a Venezuela e Estados Unidos.
Dias depois do anúncio da autorização, no início de 1986, o presidente da Salgema Indústrias Químicas S/A, Ronaldo Miragaya, sem deixar a empresa, voltou a assumir uma das diretorias da Petroquisa. Ele havia se afastado em maio de 1981 para se dedicar à ampliação da Salgema em Maceió.
Em 1985 o Sistema Petroquisa havia faturado Cr$ 28 trilhões. Uma ampliação expressiva, considerando que em 1984, um ano antes, o faturamento tinha sido de Cr$ 8 trilhões 139 milhões.
A partir de 1986, rarearam os protestos dos movimentos ecológicos e das ações contra a empresa e sua localização. A última grande crítica foi durante o primeiro desfile do Bloco Carnavalesco Meninos da Albânia, em 7 de fevereiro de 1986.”
Reportagem de 1985 da Tribuna de São Paulo indicou interesse da indústria Dow no aumento de produção da Salgema





Reportagem da Tribuna publicada em 2019 revelou que em 1985 já haviam problemas no bairro de Pinheiro
Reportagem de 1985 fez alerta sobre situação no Pinheiro
Material produzido pelos ainda estudantes de jornalismo Érico Abreu e Mário Lima cita possíveis consequências da extração de salmoura
Era 1985. Os então estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Érico Abreu e Mário Lima acompanhavam a repercussão de um acidente químico em Bhopal na Índia que matou mais de 3 mil pessoas. Preocupados com a possibilidade de um acidente semelhante ocorrer em Maceió com a recém-instalada Salgema, os estudantes produziram um material investigativo sobre as consequências da extração de salmoura na capital. Dentre as possibilidades, estava a de tremores no solo de áreas próximas.
A reportagem da Tribuna Independente conversou com o agora mestre em Comunicação e professor da Ufal, Érico Abreu. Ele considera o alerta feito trinta anos antes uma espécie de previsão.
“Entrevistamos jornalistas, pessoas envolvidas, fomos na Salgema e nos mostraram como funcionava, o que podia ocorrer de ruim e de bom devido a localização da indústria. Nessa época, uma das coisas que a gente descobriu e que foi mostrado para a gente era que para extrair o sal das cavernas subterrâneas, que boa parte ficava na área beirando a lagoa, Bebedouro, que passa por baixo do Pinheiro… Nós também estudamos sobre isso. Quando se tirava todo o sal delas, elas ficavam vazias e eles colocavam água para encher, mas que com o tempo poderia haver movimentação e abalos sísmicos decorrentes dessas cavernas. E quando eu vi essa história do Pinheiro eu lembrei de imediato, foi uma espécie de previsão”, garante o jornalista.
O chamado Desastre de Bhopal que ocorreu em dezembro de 1984 matou 3 mil pessoas além de expor 500 mil aos gases tóxicos. Na época, 40 toneladas de gases tóxicos vazaram da indústria química norte-americana Union Carbide que atualmente é propriedade da multinacional Dow Química. A principal causa do desastre foi negligência com a segurança e até hoje os moradores da região sofrem com as consequências.
“O acidente ocorreu com uma indústria química e muita gente morreu na época e nós tínhamos aqui uma indústria química que era na época Salgema recém-instalada na cidade de Maceió. Nós estranhamos porque a imprensa de Maceió não se referiu ao acidente de Bhopal e não questionou se isso poderia ocorrer aqui. Nós desconfiamos disso, de que algo tinha sido escondido. Fizemos um levantamento da publicidade que a Braskem fazia nos jornais impressos durante um mês, no mês anterior ao acidente e um mês depois. A gente descobriu que houve um investimento dez vezes maior no valor de publicidade colocado nos jornais. O que a gente pensou na época é que era uma forma de calar a boca da imprensa”, afirma Érico”
Em 3 de março do ano passado foi registrado um tremor no Pinheiro de intensidade 2,5 na escala Richter. No dia seguinte, Érico fez uma publicação em suas redes sociais relacionando as descobertas da década de 1980 com a situação. “A possibilidade de tremores de terra nas regiões próximas às cavernas deixadas pela extração do sal e o vazamento de substâncias tóxicas nos levaram a classificar a Salgema como uma bomba, que parece inofensiva até o momento em que explode”, disse à época.
A repercussão depois da publicação da reportagem foi tanta, que os estudantes receberam homenagens até da Câmara de Vereadores de Maceió. Mas o professor e jornalista admite não ter “propriedade” para julgar se as circunstâncias estão atualmente relacionadas.
“Eu não sei exatamente se isso é decorrência dessas cavernas. Não sou especialista nisso. Mas levantamos na época que isso poderia ser uma consequência no volume de sal nas crateras, que haveria uma acomodação”, aponta…”
Fatos de 2018 e 2019
Em 1983, uma reportagem do jornal Gazeta de Alagoas, publicada em 13 de março, novamente acendeu o alerta do SNI. O relatório de inteligência produzido à época pelos arapongas demonstra que a estrutura de espionagem do governo federal, chefiada pelo coronel Newton Cruz, sabia dos riscos de um “acidente grave” na região – justamente o que está prestes a ocorrer agora, em 2023
“Eles fizeram um estudo preventivo que apontou que não existe uma relação entre a exploração e a cratera. E que apontava para uma falha geológica, mas esse estudo não está completo. A CPRM também faz um estudo paralelo”, comenta Vitor Gantois.
Tomando conhecimento do fato ocorrido aqui em Alagoas, o coordenador se disse surpreso por ser um fenômeno que ocorre no meio da cidade.
“Nós temos uma situação muito parecida na Bahia, no município de Lapão, que além de uma falha geológica, ele tinha um conjunto muito grande subterrâneo que as pessoas procuraram poços e tiraram, mas isso não foi provocado por exploração de empresa. As pessoas que fizeram uso indevido de perfuração de poços e a cidade ficou meio oca por baixo. Aqui nesse município, no centro da Cidade não passa caminhão por que as casas estão rachando. É preciso ver o tipo de terreno, fazer estudos aí no caso de vocês”, pontua o técnico da Defesa Civil da Bahia.
Braskem vai realizar estudos sobre situação no Pinheiro
No processo inverso ao que o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) tem feito no bairro do Pinheiro, a Braskem deve iniciar em fevereiro estudos para analisar se as fissuras podem comprometer as atividades da empresa. A informação é do engenheiro de minas e consultor da Braskem, Paulo Cabral.
“Paralelamente a gente vai fazer uns estudos sísmicos, conhecer como estão as estruturas geológicas da superfície. O pessoal da Defesa Civil, Governo Federal vai fazer outro estudo. Nós vamos fazer esse estudo para verificar se essa falha geológica pode comprometer nossas atividades. A gente quer saber se isso traz consequências”, pontua o geólogo.
Segundo o especialista, um dos estudos consiste em emissão de ondas para as camadas mais baixas da superfície. A expectativa é de que seja iniciado em fevereiro e dure cerca de dois meses para ser concluído.
“Inclusive existiam algumas pessoas que achavam que esse estudo poderia prejudicar a situação na região, mas a empresa que vai fazer tem experiência em área urbana. É assim: vão dar umas pancadas, e vai para baixo, não para as laterais. É um caminhão que vem batendo e capta a onda, que vai lá para baixo e depois é captada pela superfície. As mais resistentes voltam mais rápido, as menos resistentes voltam depois. E aí vai se fazer perpendicular à falha. Vamos percorrer todas as linhas perpendiculares e algumas linhas horizontais. E lá embaixo, onde está a mineração vamos fazer também”, detalha Cabral.
“São pelo menos dois meses, mas a gente vai ter alguma coisa preliminar que mostre porque está havendo essa acomodação. A acomodação nós supomos o que seja. Isso tem um custo, mas nós vamos assumir. Nós temos um dever social, não é só produzir e empregar pessoas”.
Ele diz ainda que todos os poços ativos ou inativos serão avaliados pelos técnicos da empresa.
“Queremos saber o que é e o que pode nos afetar. De todo jeito vamos entregar isso aos técnicos do CPRM. Independente disso nós estamos com sondas naquela região para avaliar as crateras desativadas naquela região, naquele terreno onde as pessoas põe lixo, na continuação da rua da Convem. E também vamos fazer em todos os poços onde for possível fazer. O importante é a gente saber o que isso pode vir a nos afetar. Se houve movimentação do terreno na superfície, lá embaixo pode ser que tenha. Nós queremos saber se no próximo tremor, caso tenha, vai afetar.”
Engenheiro aponta nova hipótese para fissura
Hipóteses sobre a causa do fenômeno nas fissuras no bairro do Pinheiro que remonta há cerca de vinte anos têm sido ventiladas. Além da possibilidade de relação com a extração de sal-gema pela Braskem, a mais famosa das teorias, pesquisadores do CPRM afirmam que é possível que haja uma depressão no solo, ou uma área tectonicamente ativa.
O engenheiro de minas Paulo Cabral sugere uma nova hipótese para as rachaduras: A existência de uma lagoa aterrada antes da urbanização no bairro.
“Na linha da falha geológica, que passa no Divaldo Suruagy, ali é a parte mais crítica. Foi ali que a falha se movimentou. O tremor não sei se saiu dali, mas surgiu naquela região daquela falha. Então aquela parte do afundamento já é devido a infiltração de água, água de chuva e sumidouros. Fizemos uns estudos há um tempo atrás e ali era uma lagoa que foi aterrada, e depois de aterrada se fez a urbanização, fez-se as ruas, loteou-se terrenos. Mas isso faz muito tempo. De todo jeito, naquela parte, talvez, nessa falha já houve uma acomodação do terreno. Você observa que quando tem chuva corre pelas laterais e tendo essa fissura corre para os terrenos. Se isso está provocando o afundamento tem solução. É colocar uma rede de saneamento”, avalia.
Sobre a possibilidade de a Braskem ser a responsável pelas fissuras e toda a atividade geológica no Pinheiro, Paulo Cabral nega a relação.
“Quando se fala em caverna na cabeça de qualquer pessoa é uma coisa vazia. Um buraco normalmente é vazio, mas no caso das nossas atividades a caverna fica sempre cheia de líquido. Quando se faz o poço nós injetamos a água, a água remove o sal e leva ele em forma de salmoura, água mais sal. No lugar que saiu o sal a água ocupa o lugar. Se fosse uma coisa vazia, a gente injetava e não voltava. Se volta é porque está cheio e a água não é como um gás que pode vazar. Quando a gente desativa o poço ele fica fechado, a água é incompressiva. Apertou ela, não sai. Tudo que estamos dizendo são hipóteses. As atividades nossas estão transcorrendo normalmente. No terreno do CSA onde tem poços desativados está tudo normal, nada rachou. Dizer que tudo no Pinheiro é devido a extração, não é. Isso é devido a construções mal feitas”, esclarece.
O engenheiro questiona a atuação da Defesa Civil. “Eu acho que o pessoal demorou muito para dar informação, é uma sensação de abandono. Mas a Braskem tem feito os esforços dela”, pontua.
Especialistas do CPRM estão em Alagoas desde o início da semana e devem ficar até o dia 24 para realizar mais uma etapa de estudos. Durante a próxima semana, diversas reuniões estão agendadas para discutir os rumos da crise no bairro do Pinheiro que no dia 15 de fevereiro completa um ano.
Ainda nessa sexta-feira (11), o Palácio do Planalto publicou uma nota informando que o presidente da República determinou que o Governo Federal adote ações necessárias para agilizar a identificação do fenômeno….. “
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