Angra 3

Por: Marcelo Medeiros

Guilherme Leonardi, diretor de campanhas sobre clima e energia do Greenpeace Brasil, relata os riscos do emprego da energia nuclear no país. Para ele, a usina não é segura e tampouco necessária.

O diretor de campanhas sobre clima e energia do Greenpeace Brasil, Guilherme Leonardi, está preocupado. Há muito o governo cogitava a hipótese de retomar a construção de usinas nucleares, mas foi só no fim de junho que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou a liberação das obras de Angra 3. Como o próprio nome diz, será a terceira usina da cidade do litoral sul fluminense. “Angra 3, ao invés de trazer benefícios, trará diversos problemas”, afirma Leonardi. Nesta entrevista, feita por email, o ambientalista revela as fontes de sua preocupação e rebate os argumentos favoráveis à energia nuclear. Segundo ele, além de caras, as usinas são desnecessárias e arriscadas tanto para o meio ambiente quanto para as pessoas – do entorno de Angra e todo o país.Leonardi diz que a indústria nuclear mundial esconde acidentes e os minimiza quando necessário, o que daria a falsa impressão de segurança dessa fonte de energia. Para ele, o Brasil ganharia muito mais apostando na eficiência energética e no aproveitamento de fontes renováveis, como a eólica.

Rets – O governo declarou que vai construir Angra 3. Qual é o risco de mais uma usina nuclear no país?

Guilherme Leonardi – Angra 3, ao invés de trazer benefícios, trará diversos problemas. Angra 3 não garante o suprimento de energia para o país, o que seria sua função. Se tudo fosse como planejado, a usina entraria em operação apenas em 2014, tarde demais. Se fossem investidos em energia eólica, os mais de R$ 7 bilhões [que é a previsão de investimento na usina] produziriam o dobro de energia em no máximo um terço do tempo e gerariam 32 vezes mais empregos. O Programa de Conservação de Energia Elétrica (Procel) do governo federal investiu R$ 850 milhões e economizou 5.124 MW. Isto significa que, investindo em eficiência energética, com apenas 12% do custo de Angra 3 foi disponibilizado o equivalente a quatro vezes o potencial de Angra 3.

O lixo radioativo é um problema ainda sem solução e tratado de forma provisória pelo governo federal. A possibilidade de acidentes é inerente a todos os reatores atômicos no mundo. No ano passado um problema em uma usina na Suécia quase provocou um acidente de altíssima gravidade, levando à suspensão da operação em quatro das 10 usinas suecas. Neste ano, um incêndio na usina alemã de Krummel causou sérios danos à segurança do reator, apesar de a indústria nuclear haver afirmado inicialmente que não havia problemas. A usina japonesa de Kashiwazaki-Kariwa sofreu várias liberações de radioatividade após um terremoto, e novamente o setor nuclear tentou omitir o vazamento.

Além de tudo isso, o Programa Nuclear Brasileiro surgiu durante a ditadura militar e sempre deixou clara a íntima relação entre o uso da energia nuclear para fins energéticos e para fins militares. O domínio do ciclo do urânio vem sendo desenvolvido pelo governo federal e possibilita o uso do urânio tanto para produzir eletricidade como para fabricação de uma bomba nuclear como a de Hiroshima.

Rets – O fato de esta ser a terceira usina no mesmo local, e dando a decisão como tomada, é uma escolha acertada? A localização influencia o fator segurança?

Guilherme Leonardi – A Constituição Federal estabelece que é necessária a aprovação de uma lei federal determinando a localização da usina. A rota para fuga de Angra dos Reis em caso de emergência é a rodovia Rio-Santos, onde ocorrem, com grande freqüência, deslizamentos de terra interrompendo o fluxo de veículos. Além disso, não há rotas alternativas. Não bastassem os riscos inerentes, a segurança nuclear no Brasil é muito problemática e apresenta diversos problemas, conforme mostrou o relatório sobre o tema lançado pela Câmara dos Deputados em março de 2006. Apenas como exemplo, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) tem a dupla e contraditória função de garantir a segurança nuclear e fomentar o avanço da energia atômica, o que é inclusive vetado pela Convenção Internacional de Segurança Nuclear. Não há fiscais de segurança nuclear no país nem leis que definam crimes e penas para irregularidades que sejam verificadas. Uma usina nuclear é um risco desnecessário para Angra ou qualquer outro lugar do país e do mundo.

Rets – Alguns ambientalistas, inclusive ex-membros do Greenpeace, defendem a energia nuclear por ela ser menos poluente. Esse argumento é válido?

Guilherme Leonardi – O Greenpeace e todos os nossos mais de três milhões de colaboradores, voluntários e funcionários mantêm sua posição histórica contrária à energia nuclear, assim como as demais organizações ambientalistas e energéticas. O Grupo de Trabalho de Energia do Fórum Brasileiro de Ongs e Movimentos Sociais (FBOMS) e as entidades que o compõem também reiteradamente manifestam sua oposição à energia nuclear e ao Programa Nuclear Brasileiro. Assim, não há qualquer mudança de posição do Greenpeace nem do movimento ambientalista sobre o tema. O argumento de que a energia nuclear é menos poluente se refere apenas a emissões de dióxido de carbono em comparação com outras fontes extremamente poluentes, em especial carvão e óleo. Contudo, para que a construção de reatores atômicos tivesse algum impacto positivo nas reduções de emissões dos gases do efeito estufa, seria necessária a construção de pelo menos mil reatores, o que é absolutamente impossível e inviável econômica e ambientalmente. Além disso, ainda que, embora o processo de fissão nuclear não gere dióxido de carbono, o ciclo do urânio emite esses gases. Importante lembrar que a energia nuclear é suja e gera lixo radioativo que permanece perigoso por centenas de milhares de anos. Até hoje não há solução para esse material. A matriz energética deve caminhar para fontes renováveis, como a eólica, solar e biomassa, que são limpas, seguras e capazes de suprir a nossa demanda.

Rets – Muito se fala da falta de segurança das usinas nucleares. Porém, recentemente, no Japão, um terremoto foi registrado na área de uma usina e não houve vazamentos. Isso comprova a segurança atual?

Guilherme Leonardi -Infelizmente isso não é verdade. A Tokyo Electric Power Company (Tepco) inicialmente negou que havia vazamentos de radioatividade. Depois, reconheceu que um pequeno vazamento havia contaminado a água. Em seguida, admitiu que a extensão do vazamento era muito maior do que o originalmente reportado e que a água estava com 50% mais radioatividade do que o informado. A Tepco depois informou que centenas de barris com lixo atômico haviam tombado e que dezenas deles apresentavam vazamentos. Por fim, a empresa admitiu que elementos radioativos como cobalto-60 e cromo-51 foram lançados na atmosfera. No total, a Tepco finalmente confirma que foram 15 incidentes relacionados à radioatividade e 52 que não estariam relacionados. Diante do fechamento da usina causado pelo acidente, o governo japonês foi obrigado a pedir às indústrias que economizassem energia, por conta da ameaça de falta de eletricidade nos horários de pico. Assim, esse péssimo episódio confirma que o risco de acidentes é real e demonstra que a indústria nuclear tenta esconder seus problemas, como já aconteceu diversas vezes.

Rets – O governo brasileiro não deixou claro, ainda, qual será o destino do lixo atômico produzido por Angra 3. O Greenpeace monitora esses dejetos?

Guilherme Leonardi – O governo brasileiro não deixou claro porque não há solução para esse material. Os rejeitos de Angra 1 e Angra 2 ainda estão armazenados em depósitos iniciais e não há depósito definitivo no país para esses materiais. Esse é um grande problema sem solução e essa será a herança ingrata e perigosa deixada para as futuras gerações caso o governo efetivamente construa Angra 3, o que esperamos que não ocorra.

Rets- Um argumento contrário à energia nuclear é seu preço. Porém, o Brasil possui grandes reservas de urânio. Isso pode baratear os custos de produção? Até que ponto?

Guilherme Leonardi – A indústria nuclear não sobrevive sem subsídios em lugar nenhum do mundo e é possível gerar mais energia em menos tempo a partir de fontes limpas. A mineração para obter o urânio é apenas uma parte do ciclo do combustível e traz diversos problemas. A população e as organizações de Caetité (BA), de onde é extraído o minério, relatam diversos vazamentos, problemas ambientais, problemas de saúde e incertezas quanto ao futuro. A mineração de urânio é mais um problema para o país.

Rets- Quais seriam as alternativas para a energia nuclear no país, levando em conta a necessidade de rápido crescimento da oferta de energia?

Guilherme Leonardi- O Greenpeace lançou em fevereiro desse ano o relatório Revolução Energética, que mostra como é possível atender à demanda crescente de energia e ao mesmo tempo substituir e abandonar as fontes sujas de energia migrando para outras limpas. Assim, em uma projeção feita até 2050 poderíamos abrir mão totalmente da energia nuclear, carvão e óleo, substituindo-as por energias limpas como eólica, solar e biomassa aliadas eficiência energética. Essa combinação não apenas supriria a demanda energética como ainda alcançaria uma economia de R$ 117 bilhões anuais em 2050. O Brasil não precisa de energia nuclear.

Rets – A resistência do Ministério do Meio Ambiente à obra foi forte?

Guilherme Leonardi-O Ministério do Meio Ambiente foi o único a votar contra Angra 3 no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), embasado nas questões ambientais. Outros Ministérios anteriormente se manifestaram contrários, mas mudaram sua posição.

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