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Por: Marina Colasanti *publicado em 2007

Agente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as  janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não abrir de tudo as cortinas.

E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.

E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado.

A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.

A comer sanduíche porque não da para almoçar.

A sair do trabalho porque já é de noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre guerra.

E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos.

E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números da longa duração.

A gente acostuma esperar o dia inteiro e ouvir ao telefone: hoje não posso ir…

A sorrir para as pessoas sem perceber um sorriso de volta, a ser ignorado quando tanto precisavaser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita.

E a lutar para ganhar dinheiro com que pagar e a pagar mais do que as coisas valem.

E a saber que cada vez pagará mais e a procurar mais trabalhos para ganhar mais dinheiro para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios.

A ligar a televisão e assistir comerciais.

A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser desligado, conduzido, desnorteado, lançado na rua  infindável dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarros.

A luz artificial de ligeiro tremor.

Ao choque que os olhos levam na luz natural.

As bactérias na água potável.

À lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher frutas no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali,  uma revolta acolá.

Se o cinema está cheio, a gente sente na primeira fila e torce um pouco o pescoço.

Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito  porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma a não ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma a evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta para poupar a vida que aos poucos se gasta, se gasta de tanto acostumar.

Se perde de si mesma. Eu sei que a gente se acostuma …MAS NÃO DEVIA ! ! !

Artista: Tatiana Clauzet

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Autor

ambientedomeio@outlook.com

O “Ambiente do Meio” foi criado em 2007 e a autora teve como objetivo inicial auxiliar jornalistas e leigos nas informações de qualidade sobre o Meio Ambiente resultante de preocupações com as poucas informações jornalísticas de qualidade sobre o tema atreladas a conhecimentos acadêmicos e evidências científicas.

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