Síndrome do transtorno desenvolvimentista
Por: Carlos Bocuhy
O recuo de Marina Silva sinaliza para a sociedade brasileira o que percebemos há anos: a impossibilidade atual de se construir a agenda ambiental brasileira com reais compromissos com os princípios de sustentabilidade. Isso se deve a uma estreita e desnecessária ligação com premissas do atual modelo econômico internacional, no qual o Brasil se torna cada vez mais um importante ator que atua mal.
Persegue um modelo obsoleto de desenvolvimento, contextualizado na super exploração de bens ambientais, atendendo aos princípios e dinâmica do capital. Submete-se a um modelo feroz que drena bens naturais, desrespeita funções vitais dos ecossistemas e estabelece política para a suicida aceleração do crescimento econômico. Este modelo não é atual. Compatibiliza- se com arcaicas aspirações de Estado Nacional e soberania, ao considerar fundamental prevalência – e a equivalência a outras “potências”. É uma regra de jogo atroz, onde prevalece aquele que desconsidera seus limites físicos, assemelhado ao “doping” esportivo. A China é um exemplo cabal dessa realidade suicida, mas é tomada como bom exemplo para o governo atual. As boas práticas ambientais na China são insuficientes para compor um saldo minimamente positivo.
De outro lado, há consciência. Mais lúcida, pró-sustentabilidade e constitucional, esta aponta para soluções racionais, ao revelar a necessidade de um modelo de comportamento estatal lastreado na ética para a sustentabilidade, que ignore fronteiras político-administrativas. O respeito aos processos vitais posiciona a questão ecossistêmica como elemento central nos processos decisórios, para ações e políticas locais e internacionais.
O Brasil é importantíssimo como agente influente nas políticas ecossistêmicas voltadas à América Latina e Caribe, região que emana reflexos políticos significativos ao cenário internacional. A importância estratégica do Brasil está reconhecida no aporte de capitais e investimentos, que migram para regiões mais promissoras ao processo especulativo do capital. É óbvio que esta predileção está atrelada ao enorme potencial de utilização dos bens naturais.
Marina Silva se retira no momento mais crucial deste embate. Sua saída sinaliza, para a sociedade brasileira, que os mais tímidos esforços pró-sustentabilidade tornaram-se insustentáveis dentro dos escalões e planos do atual governo. Essa sinalização demanda uma série de ações e estratégias urgentes para o fortalecimento dos elementos de controle social pró-sustentabilidade . Isso demanda articulação da sociedade e produção de conhecimento, implementando o direito à informação, com a elaboração de documentos que possam pautar no cenário nacional uma discussão que possibilite correção de rumos – e na pior das hipóteses, permita ao menos uma urgente leitura política da antropofagia planetária que se consolida na Terra Brasilis.
O recuo de Marina Silva desnuda nosso momento político, denotando um grande risco ambiental: a incapacidade de reação da sociedade brasileira diante da rota planetária insustentável, implementada por agentes suicidas dentre os quais o Brasil se torna cada vez mais cúmplice e partícipe.

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