Carta para o editor chefe da Bloomberg

Contribuição de Hugo Penteado

 

Biocombustíveis, energia nuclear, extração de petróleo nas reservas de vida selvagem do Alaska, na Amazônia e agora no Ártico: no modelo atual o problema nunca é nem será o excesso de demanda, o desperdício e a ineficiência e sim falta de produção, construção, investimentos… – com isso estamos contratando a nossa extinção.

 

 

Essa é uma carta em inglês que escrevi para o editor chefe da Bloomberg em Nova Iorque. Abaixo vai a tradução.


Dear Mr. Cox, There is no line in your article mentioning the biggest challenge that humankind is facing with the fossil fuel being continously burned in our tiny atmosphere.  It is really possible that some people can disbelieve global warming, but that is undeniable: fossil fuels and other materials were cumulated in the crust during billions of years and that was the reason why life was possible in this planet. When we extract materials from the crust, like oil, we are introducing materials that can not be naturally recycled and it is a definite pollution and threat.


Those that do not believe in global warming, will find hard to deny the bad air we breathe in the biggest cities of the world. These anti-natural processes are spreaded not only in energy area, but in all economic sectors, because we forgot that we are an animal species and totally nature dependent. We also forgot that the countries territories are finite and that ecological services, that are irreproducible, are more finite than the tangible space. Oil is a problem. Growing demand is a problem. Economic growth that is not delivering social benefits mainly in the advanced nations is also a problem. Economic theory is false and the scientists know this very well since 1920. Economists assumed that the economic system is neutral to Nature and that Nature (or the planet with all natural services) are inexhaustible and infinite for growing and bigger productions and populations. This is our sin.

 

The only way US became so rich without causing a planet collapse, was because it did alone. When all the countries are trying to catch up, we are going to face collapses or wars.  And, the only way US and other rich nations were able to keep their progress was importing natural resources and services through the global commerce. After reaching their local environmental collapses, the advanced nations started to export them to the poor countries, creating for the first time ever the risk of global collapse for the entire world. Without a change in our mindset and theories, we are lost. Anyway, I am very tired of seeing articles about new oil discoveries without even a word about what this means for humankind, that is, the risk of our own extinction.


It is the same to say that we are not happy in putting all forms of life in the biggest extinction process of the last 65 millions of years. We need to extend this extinction to us!  Just a counterview for you to think, forgive me the intromission. I have reasons to be worried, during the last 13 years of Fernando Henrique Cardoso and Luis Inacio Lula da Silva mandates, using official data, Amazon forest destrucion increased 3.000% and during this short period we got 34% of cumulated destruction since 1500. We are just copyying US (that destroyed 99% of its natural forests) and Europe (that destroyed 99.7% of its natural forests). We are just copying the same wrong economic model based in false economic theories, that is the reason why US is in a mess with the housing sector: economists do not look to inventories, only to flows. Why the hell they should think about inventories if the environment is assumed inexhaustible? In 1900 US had 1.000.000 houses, in 2000 190.000.000 houses, the territory is the same, because is finite. One day someone will receive a nobel prize just to remember that country territories are finite…  

 

Best wishes,

 Hugo from Brazil


Tradução:

Prezado Sr. Cox,


Não há nenhuma linha em seu artigo mencionando o maior desafio que a humanidade está enfrentando com a queima contínua de combustíveis fósseis na nossa fina atmosfera. É realmente possível que algumas pessoas não acreditem no aquecimento global, mas isso é inegável: combustíveis fósseis e outros materiais foram acumulados na crosta terrestre durante bilhões de anos e essa foi uma das razões pela qual a vida foi possível nesse planeta. Quando extraímos materiais da crosta, como o petróleo, introduzímos materiais que não podem ser naturalmente reciclados e isso é uma poluição definitiva e uma ameaça.


Aqueles que não acreditam no aquecimento global, acharão difícil negar o péssimo ar que nós respiramos nas grandes cidades. Esses processos anti-naturais estão presentes não só na área energética, mas em todos os setores econômicos, porque nós esquecemos que somos uma espécie animal totalmente dependente da natureza.  Nós também esquecemos que o território dos países é finito e que os serviços ecológicos, que são irreproduzíveis, são mais finitos ainda que o espaço tangível. Petróleo é um problema. Demanda crescente é um problema. Crescimento econômico que não está entregando benefícios sociais principalmente nos países desenvolvidos é também um problema. A teoria econômica é falsa e os cientistas sabem isso muito bem desde 1920. Os economistas assumiram que o sistema econômico é neutro para o meio ambiente e que a Natureza (ou o planeta com seus serviços naturais) são inesgotáveis e infinitos para atender crescentes e maiores produções e populações. Esse é nosso pecado.


A única forma pela qual Estados Unidos tornou-se tão rico sem causar um colapso planetário foi porque ele fez isso sozinho. Quando todos os países vierem atrás, nós iremos enfrentar colapos ou guerras. E, o único motivo pelo qual Estados Unidos e outros países ricos foram capazes de manter seu progresso foi importando recursos e serviços naturais através do comércio global. Quando eles atingiram seu próprio colapso local, eles começaram a exportá-lo para os países pobres, criando pela primeira vez na história o risco de colapso global. Sem um mudança no nosso modelo mental e teorias, nós estamos perdidos. De qualquer forma, eu estou muito cansado de ver artigos comemorando novas descobertas de petróleo, sem mesmo uma palavra sobre o que isso significa para a humanidade, que é o risco da nossa própria extinção.


É o mesmo que dizer que nós não estamos felizes em ter colocado todas as formas de vida na maior processo de extinção dos últimos 65 milhões d eanos. Nós precisamos estender essa extinção para nós. Isso é apenas uma visão contrária para você pensar, perdoe-me a intromissão. Eu tenho razões para estar preocupado, durante os últimos 13 anos dos governos do Fernando Henrique Cardoso e do Luís Inácio Lula da Silva, usando dados oficiais, a destruição da floresta Amazônica aumentou 3000% e durante esse curto período foi feito 34% da destruição total acumulada desde 1500. Nós só estamos copiando Estados Unidos (que destruiu 99% das suas florestas naturais) e a  Europa(que destruiu 99,7%). Nós só estamos copiando o mesmo modelo econômico errado, baseado em teorias econômicas falsas e essa é a razão porque Estados Unidos está nessa confusão com o setor imobiliário: economistas não olham para estoques, só para fluxos. Porque diabos eles deveriam olhar para os estoques, se o meio ambiente é assumido inesgotável? Em 1900 Estados Unidos tinham 1.000.000 de moradias, em 2000 190.000.000. O território é o mesmo, porque é finito. Um dia alguém irá receber o prêmio Nobel apenas por lembrar que o território dos países é finito.


Atenciosamente,


Hugo Penteado

 

2 comentários em “Carta para o editor chefe da Bloomberg

  1. Excelente artigo de Hugo Penteado. Parece que o mundo vive o “mito dos 10%” (crescer 10% ao ano!). Confundem, deliberadamente, crescimento (por si, limitado) e desenvolvimento (esse, ilimitado). O primeiro, é regulado pelo mercado, o segundo é regulado pela democracia e por uma nova visão de mundo, baseada na ética da sustentabilidade. Nos parâmetros propostos, não crescer é um bom negócio, podendo, inclusive, significar desenvolvimento.

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  2. Concordo com o Ary e adicionaria que embora já tenha desconfiado do termo “desenvolvimento” ou “desenvolvimento sustentável” como fazendo parte do mesmo mito do crescimento, eu entendo hoje que o desenvolvimento em relação a todos e a vida pode ser ilimitado sim, mas ele será também difícil de ser mensurado nas métricas convencionais. Muita coisa boa dentro desse desenvolvimento dificilmente poderá ser medida, mas poderá sim ser sentida e percebida pelo seu beneficiário maior, que é a vida e a nossa sociedade. Isso seria totalmente diferente dos erros atrozes dos nossos governos, das empresas e do modus operandi errado atual. Infelizmente, hoje vivemos o sistema da morte, morte de pessoas, morte do planeta, morte das espécies animais. Vivemos o sistema da morte em todos os sentidos, que é extremamente chocante que não tenhamos ainda nos dado conta disso.

    Abraço Hugo

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