PIB e Sustentabilidade
Nota coberta: Hugo Penteado
Esse é o tipo de análise fria e seca que é feita do lado da economia. Sem computar as perdas ambientais e planetárias, tratam o crescimento como se ele fosse realmente um milagre, feito sem vinculação alguma com o meio ambiente e essenciais serviços ecológicos, que além de servir à esse modelo suicida, são a base de sustentação da vida, sem a qual ninguém sobreviverá. As métricas também são frias e incrivelmente secas, como se bastasse mensurar a renda per capita ou o crescimento do PIB para varrer do mapa qualquer preocupação possível com a sociedade e o uso excessivo dos ecossistemas. É como se não houvesse efeito negativo, tudo é considerado extremamente benéfico para tudo e todos quando falamos do crescimento frio e seco que já provocou a maior extinção da vida desse planeta dos últimos 65 milhões de anos, proeza feita pelos seres humanos, suas economias e seu esbanjamento, em décadas. Mas os paleontólogos já avisam: é muita ingenuidade achar que essa extinção não irá se voltar contra os causadores. Esse é o mundo no qual não é possível que iniciativas isoladas de sustentabilidade, mesmo que verdadeiramente seguidas, produzam um sistema sustentável e mude a rota suicida na qual estamos. A soma das partes não dá o todo, por mais que todas as empresas se auto-declarem sustentáveis, isso jamais significará o atingir de tão almejada meta para a humanidade como um todo. Falta o reconhecimento da dependência, do limite e de não sermos capazes de revogar leis básicas da física e dominar as forças da natureza. Mudança de visão espetacular, pois não é isso que acreditamos.
Segue texto: Milagre só não basta PIB de dois dígitos não garantiu salto do Brasil para posição de destaque no mundo em 40 ano
Cássia Almeida – O Globo, 16-08-2009
Eram 93 milhões de brasileiros, a indústria ainda engatinhava e a inflação beirava os 20%. Esse era o retrato do Brasil de 1969. Em quatro décadas, os brasileiros viveram os efeitos de crises externas, do calote na dívida externa, da inflação que ultrapassou 2.000% e o salto da indústria. A grande expansão perdurou até fins dos anos 70 — no milagre brasileiro. A ele seguiu-se outro ciclo, de baixíssimo crescimento e inflação galopante. Aos poucos, o país começa a retomar o caminho do crescimento, porém ainda perde feio quando é comparado a outros países. Hoje, o Caderno de Economia do GLOBO, que começou a circular exatamente em 1969, inicia uma série de reportagens que contam essa trajetória. O exemplo mais flagrante é a Coreia do Sul. Há 40 anos, a renda per capita do brasileiro era praticamente o dobro da coreana. Em 2007, último dado disponível para comparação, a situação se inverteu com ampla margem em favor da Coreia. Nos anos recentes, a renda brasileira representa apenas 30% da coreana. O que levou o Brasil a ficar para trás? A resposta vem do professor da PUC, Luiz Roberto Cunha: investimento maciço em tecnologia e educação: — O investimento na educação ficou restrito a cursos de instituições privadas e mais baratos, como Direito e Administração. Pouco se investiu em engenharia e computação. Quando esse diferencial determinou a expansão dos países, o Estado brasileiro não tinha mais capacidade de investimento. Estrategista-chefe da Arsenal Investimentos, Mariam Dayoub acrescenta mais um motivo para o sucesso atual da Coreia: proximidade com o Japão, na época o motor do crescimento na Ásia, e abertura comercial, que permitiu a absorção de tecnologia: — Enquanto o fluxo de comércio representa hoje no Brasil apenas 25% do seu PIB, na Coreia, é de 70%. Além disso, a América Latina sofreu muito com as crises por conta do alto endividamento externo o que brecou a expansão do continente. Ainda sob o impacto do Ato Institucional Número 5, que aboliu direitos políticos dos brasileiros, o país começa em 1969 o seu maior período de expansão. “Mirem-se no Brasil” era a mensagem ouvida lá fora diante das taxas de crescimento do PIB que chegaram a 14% em 1973. Exatamente o ano em que a crise do petróleo começa a azedar o milagre brasileiro. O preço do barril pula de US$ 3 para US$ 10. Segundo o economista Eustáquio Reis, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o avanço foi sustentado por muito subsídio e investimentos públicos — foi a década das grandes obras de infraestrutura, como Ponte Rio-Niterói, Hidrelétrica de Itaipu e a Transamazônica, e de implantação de grandes estatais e ampliação do parque industrial. O Brasil continuou crescendo, num ritmo mais moderado, em torno de 7% ao ano, mesmo com a crise do petróleo. Dessa vez financiado pelos petrodólares. Na segunda crise do petróleo, quando o combustível subiu de US$ 10 para US$ 30, os juros americanos subiram e as fontes de recursos internacionais secaram. O Brasil passou a alternar momentos de expansão e recessão ou estagnação econômica, sofrendo efeitos de crises externas e tentando vencer o dragão da inflação. Foram as décadas de “pagar o pato”, como lembra o coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Roberto Olinto. Em tempos recentes, o Brasil venceu seus maiores males: dívida externa e inflação. Tem um parque industrial moderno. A desigualdade de renda, no entanto, ainda é o grande desafio a ser vencido.
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