Butantan uma perda real

por: Ana Marina Martins de Lima/Bióloga/Ambientedomeio

Pessoal, escrevo aqui também como Bióloga, realizei o curso de Iniciativa Cientifica no Instituto Butantan  uma experiência inesquecível.  Sei o quanto é difícil para o Pesquisador assim como o Artista perder a sua obra. Após esta triste noticia entrei em estado de choque e me pergunto: Será que os tomadores de decisão deste país ainda não perceberam que o Arcevo Biológico é de grande importância para a história do próprio homem, bem como para o estudo de novos medicamentos? É necessário rever a questão de segurança e conservação de nossas “amostras biológicas”.  Abaixo reproduzo o texto do Biólogo Hugo Fernandes Ferreira.

Fortaleza, 15 de maio de 2010. Escrevo revoltado, porque acho que assim descarrego. Hoje talvez tenha sido o dia mais lastimável na história da Zoologia brasileira nas últimas décadas. Hoje, dia 15 de maio de 2010, a Coleção Científica do Instituto Butantan, em São Paulo, foi completamente perdida. Até o momento, estima-se que mais de 75.000 espécimes tenham sido incinerados. Espécimes raros, por muitas vezes únicos; espécimes endêmicos; espécimes de animais já extintos ou ameaçados; espécies novas ainda não descritas; espécimes-tipo; material em permuta nacional e internacional, enfim. Centenas de graduandos, mestrandos, doutorandos, professores e pesquisadores não mais poderão consultar certos holótipos (indivíduos geralmente em perfeitas condições que representam oficialmente uma espécie), não poderão examinar a anatomia de certos espécimes, não poderão fazer certas revisões sistemáticas e taxonômicas, analisar conteúdo estomacal, descobrir novas espécies, realizar estudos biogeográficos, entre outras dezenas de importâncias de uma coleção como essa, referência em todo o globo. Muitos desses cientistas perderam meses, anos e décadas de pesquisas, algumas custeadas por grandes agências de financiamento. Muitos deles terão de adequar ou até mesmo se desfazer dessas pesquisas. Milhares de exemplares estavam aguardando o processo de tombo na coleção. Os pesquisadores que dependiam desses números para lançarem seus artigos ou iniciar suas análises perderam essa chance. A cada minuto eu consigo pensar em uma nova e trágica forma de perda para a Ciência. Acredito que nem os diretores do Instituto vislumbram nesse momento o tamanho do prejuízo. Perdemos parte da história científica do Brasil. Junto com a história, o país perde parte de sua dignidade. Estou nesse momento envergonhado de representar um país que deixou uma de suas coleções mais aclamadas e referenciadas, fruto de um trabalho de mais de cem anos, iniciado pelo Dr. Vital Brazil, ter se evaporado em algumas horas. Sim, deixou! O descaso das autoridades públicas, mesmo diante do apelo de diretores, curadores e coordenadores, para com a estrutura de nossas instalações acadêmicas é a motriz de toda essa tragédia. O que me deixa extremamente preocupado é que, em 2008, quando estagiei no Museu Biológico do Instituto Butantan e visitei sua Coleção, vi uma estrutura bem melhor do que a maioria das coleções que já visitei. No começo do ano passado, pouca gente soube, mas o Núcleo Regional de Ofiologia da Universidade Federal do Ceará, do qual ainda sou colaborador, também sofreu um incêndio, que por pouco não atingiu sua Coleção Herpetológica, uma das mais representativas do Nordeste. Essa coleção enfrenta problemas sérios de estrutura, como umidade e instalações elétricas inadequadas. Em situação pior está a Coleção de Herpetologia da Universidade Federal da Paraíba, onde mais de 10.000 animais tombados ou em processo de tombo sequer estão todos acondicionados em armários, pois não há espaço na minúscula sala, que ainda abriga o “laboratório” (que nada mais é do que três mesas e lupas em locais apertados e uma pia para processamento de material). A Coleção de Mastozoologia dessa mesma Universidade, que guarda a amostra de mamíferos mais representativa do Nordeste, também sofre com falta de espaço, carência de modernização e problemas de estrutura da sala. Quanto a essas coleções acima citadas, tenho condição pessoal de atestar que seus diretores e curadores há muitos anos requerem melhorias, mas sem sucesso de retorno decente. Vale ressaltar que os grupos de pesquisa que deles fazem parte, há muito colaboram de forma contundente para a Herpetologia brasileira. E pelo meu conhecimento, nenhuma coleção zoológica no país encontra-se sob uma estrutura ideal e muitas também enfrentam graves problemas, como as das Universidades Federais de Alagoas (UFAL), Rio Grande do Norte (UFRN), Pernambuco (UFPE), Museu Paraense Emílio Goeldi, entre outras. Será necessário passarmos novamente pela vergonha de perdermos uma dessas coleções? E se o próximo for o Museu de Zoologia da USP (MZSUP) ou o Museu Nacional do Rio de Janeiro (MNRJ), os dois maiores do país? Será que a Academia passa realmente os seus alunos os reais valores de uma Coleção? Será que se realmente passasse, não colocaríamos na sociedade formadores de opinião capazes de realizar uma pressão consistente sobre as autoridades para promover maior cuidado a esse patrimônio? Tomara que o que aconteceu hoje sirva como pressão midiática para cobrar energicamente de nossos reitores, governadores, ministros e presidente alguma movimentação. Tomara que pelo menos a maioria dos meus colegas biólogos e que parte da sociedade entenda que o que aconteceu hoje é uma tragédia muito maior do que uma notícia de 15 segundos no jornal. Perdemos um dos mais importantes acervos herpetológicos do mundo. Isso é irrecuperável, inafiançável. Espero que, enquanto cientistas, não percamos pelo menos o resto da decência que nos foi abalada.

 Hugo Fernandes Ferreira/Biólogo Programa de Pós Graduação em Ciências Biológicas (Zoologia) da Universidade Federal da Paraíba

Fonte: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/05/15/a-tragedia-do-instituto-butanta/

 

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