Impacto da necessidade de aumento da produção agrícola na saúde humana

Por: Ana Marina Martins de Lima – Ambiente do Meio

O aumento da produção agrícola está relacionado diretamente à necessidade de consumo alimentar, isto cria uma competição internacional entre os produtores, mas os alimentos são distribuídos de forma irracional e alguns países são penalizados pelo uso indiscriminado de produtos químicos ocorrendo a exposição da população e danos ao meio ambiente.

A exposição do meio ambiente é um fator também de risco à saúde humana, visto que em algumas áreas ocorre o desmatamento e as modificações do meio trazem para cidade vetores de doenças como por exemplo “mosquitos” que se adaptam e resistem aos “inseticidas”, o desmatamento também propicia a contaminação de lagos e rios, os peixes e animais que necessitam do consumo da água também não são poupados; como este fazem parte da cadeia alimentar humana tornam-se “transportadores” de produtos químicos por eles ingeridos.

A exposição à agrotóxicos pode ocorrer das seguintes formas: ocupacional; ambiental e alimentar; um dos riscos é considerar que os produtos são seguros quando não há estudos que referem-se ao acumulo no meio ambiente ou mesmo no organismo humano no período de médio e longo prazo.

O Brasil lidera o ranking mundial de consumo de agrotóxico desde 2008 sendo considerado, portanto um importante nicho para o crescimento de empresas fabricantes deste insumo.

Do ponto de vista epidemiológico foram notificados por meio do SINAN no ano de 2012 nove mil casos de agravos a saúde, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que para cada caso confirmado, estima-se a presença de cinquenta subnotificados, na maioria dos casos são afetados indivíduos do sexo masculino na faixa etária de 20 a 34 anos.

Um dos impactos a saúde foi causado pela expansão de atividades ligadas ao agronegócio de acordo com o estudo epidemiológico apresentado pelos pesquisadores Marcelo José Monteiro Ferreira e Mário Martins Viana Júnior da Universidade Federal do Ceará realizado em três municípios situados no baixo Jaguaribe (Limoeiro do Norte, Russas e Quixeré) foi observado um aumento em internações com diagnósticos de neoplasias e houve uma taxa de mortalidade por câncer de 38% , demonstrando-se assim uma influência dos processos produtivos no aumento de adoecimento e morte; neste mesmo estudo foram contabilizados o uso de inseticidas, herbicidas e fungicidas compostos por 25 grupos químicos diferentes, dos quais 68,5% são classificados como extremamente tóxicos ou muito tóxicos.

Participaram do estudo clínico 545 trabalhadores rurais, onde 46,6% relacionaram algum problema de saúde aos agrotóxicos, e 43,3% referiram-se a sinais e sintomas compatíveis com intoxicações agudas em sua história pregressa; 30,7% de trabalhadores que, no momento do exame, apresentaram quadros semelhantes a intoxicações agudas por agrotóxicos.

Foram utilizados nove indicadores de função hepática e todos os pacientes apresentaram algum tipo de variação. A transaminase oxalacética elevou-se em 6,2%, a transaminase pirúvica, em 14% dos casos, e a fosfatase alcalina, em 6,2%. Ressalta-se que esses três indicadores são utilizados pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) para correlacionar lesões hepáticas crônicas à exposição por agrotóxicos.

Outro estudo, realizado em Limoeiro do Norte com trabalhadores rurais produtores de banana, concluiu que a exposição crônica aos agrotóxicos levou à ocorrência de alterações cromossômicas em células da medula óssea. De 35 amostras viáveis, 11 apresentaram importantes alterações cromossômicas, sendo elas: deleções dos cromossomos 5, 7 e 11; monossomia do TP53 e à amplificação do TP53. As anormalidades encontradas são semelhantes às alterações descritas em doenças clonais da medula óssea, como síndromes mielodisplásica e leucemias mielóide agudas.

Em outro estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria em conjunto com a Universidade Federal do Rio Grande (Cibelle Mello Viero, Silviamar Camponogara, Marta Regina Cezar-Vaz , Valdecir Zavarese da Costa e Carmem Lúcia Colomé Beck)  relacionado também a questão da saúde dos trabalhadores rurais e com foco na percepção de risco evidenciou-se um baixo uso de equipamentos de proteção individual e a necessidade de avanços no setor de saúde para mudar a realidade a que o trabalhador rural pois há altos índices de intoxicações .

A Dra Gladis Magnarelli da Universidade Nacional de Comahue ( Argentina) realizou um biomonitoramento  no qual foi estudada a exposição à agrotóxicos e as consequências para saúde das grávidas; os estudos indicaram que muitos agrotóxicos podem atuar de forma a inibir a produção de hormônios da tireoide, podem ocorrer abortos e alterações hematológicas (neoplasias) e existem evidencias epidemiológicas e laboratoriais que demonstram a presença de mutações genéticas e em áreas rurais foram encontrados caso de mutações durante a gravidez, os agentes tóxicos são passados através da placenta é portanto necessário um monitoramento das pacientes através de biomarcadores sorológicos e o estudo de novos marcadores para efetuar-se um melhor monitoramento da saúde em especial das grávidas que moram em locais de risco.

Segundo os pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso e Centro Universitário de Várzea Grande (Wanderlei Pignati; Noemi Pereira Oliveira e Ageo Mário Cândido da Silva) , A busca de dados de consumo de agrotóxicos agrícola nos municípios brasileiros, por Princípio Ativo (PA) por hectare plantado dos vários tipos de lavouras, tem se tornado um desafio para os pesquisadores e instituições governamentais que cuidam da vigilância em saúde e/ou do ambiente e  isto se deve a vários fatores, entre eles: a) as indústrias fornecem para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) os dados anuais de quantitativos de agrotóxicos produzidos, estoque e vendas por estado, sendo que o acesso a esses dados não são livres; b) o receituário agronômico, obrigatório no ato da compra pelo consumidor, nem sempre está disponível para a consulta e em quase todos os estados brasileiros este instrumento não está informatizado; c) somente os estados de Mato Grosso, Minas Gerais e Paraná possuem um sistema específico e informatizado de registro, de compra, estoque, revenda e local de uso dos agrotóxicos.

No estudo apresentado foram escolhidos os seguintes produtos de consumo: a soja, o milho, o algodão e a cana que que representaram 90% do total de lavouras do estado de Mato Grosso e 80% do Brasil da safra de 2012, segundo IBGE-SIDRA.

As classes de agrotóxicos segundo base de dados do INDEA classificados pela ação, os herbicidas, inseticidas e fungicidas representaram 95% do total de agrotóxicos consumidos, os quais estão distribuídos da seguinte maneira: herbicidas com 60%, inseticidas com 21% e fungicida com 14% e outros com consumo de 5%.

Verificou que as incidências de intoxicações agudas e de alguns cânceres e más-formações, apresentaram os maiores níveis significativos nas três regiões mais produtoras agrícolas na de Sinop, de Rondonópolis e de Tangará da Serra, os autores citaram um outro trabalho no qual foi evidenciado um aumento na ocorrência de doenças pulmonares em crianças menores de 05 anos em regiões expostas ao sistema de pulverização por produtos agrotóxicos.

Em um outro estudo realizado também realizado em Mato Grosso verificou-a relação da contaminação da água, seu consumo e a pode ter sido a consequência na saúde de crianças que com mal formação congênita na região foram detectados agrotóxicos em todas as águas analisadas e presença de resíduos de agrotóxicos em 88% das amostras biológicas dos professores da rede pública de educação, sendo que nos das escolas da zona rural estes níveis foram mais que o dobro do encontrado entre os das áreas urbanas.

Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (Fundação Oswaldo Cruz) evidenciou a presença de organofosforado em leite, a utilização indiscriminada de agrotóxicos em alimentos, na medicina veterinária, no tratamento de ectoparasitos, bem como a contaminação do meio ambiente, especificamente da água e dos pastos, têm provocado um aumento na quantidade de resíduos de contaminantes no leite; os organofosforados; desencadeiam um quadro neurotóxico agudo em seres humanos e a toxicidade resultante dessas substâncias pode se manifestar na exposição crônica a longo prazo com o aparecimento de efeitos neuropsicológicos ou neuropsiquiátricos podendo também resultar em uma antes do nascimento apresentaram uma redução do quociente de inteligência (QI) em crianças expostas ainda no período de gestação.

No Brasil destaque-se o Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva – NESC, da Universidade Federal do Paraná em conjunto com Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção ao Meio Ambiente do Ministério Público do Paraná e o Ministério Público do Trabalho no Paraná – PRT 9ª Região criaram o site do observatório do uso de agrotóxico e consequências para saúde humana no Paraná.( http://www.saude.ufpr.br/portal/observatorio/ )

Mas mesmo diante de evidências apresentadas em numerosos trabalhos acadêmicos de diversos países relacionado o uso dos produtos químicos utilizados na produção de alimentos, infelizmente não são realizados pelos governos trabalhos eficazes com objetivo de proteger a saúde do homem bem como não são monitorados de forma adequada os fabricantes destes químicos.

Portanto se faz necessária no âmbito da Saúde Pública a criação e ação de equipes multidisciplinares para atuarem de forma remediadora e preventiva quanto aos danos já ocasionados e os possíveis danos que serão evidenciados a longo prazo; para tanto os governos devem priorizar o desenvolvimento de tecnologias laboratoriais e o treinamento de profissionais médicos na matéria de toxicologia.

As questões aqui apresentadas evidentemente não serão solucionadas a curto prazo, mas é esperado que nossos governos unam os setores ambientais e saúde e realizem um trabalho junto aos comunicadores visando esclarecer a população quanto aos riscos da má utilização dos produtos químicos como os agrotóxicos e os “inseticidas” que são também utilizados hoje nas áreas urbanas.

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