Lançamento do Livro: 7 a última chance

Por André Soares

Como as nações, igualmente, de forma Individual, as pessoas resilientes, ou seja, aquelas que apresentam as características de resiliência, que resistem mais às adversidades, sobrevivem, mesmo expondo sequelas físicas, psíquicas ou emocionais pela vida afora. As chances de sobrevivência variam em cada caso. Biologicamente, somos desiguais e, culturalmente, diferentes, e uns enfrentam melhor os desafios da natureza e do meio, outros não.

Humano, muito humano. Sidnei, o incrível personagem de “Última chance”, sempre se achou um zé-ninguém, e nisso carrega em si um pouco de cada um de nós, em sua indigência, insegurança (a crônica crise de identidade), egolatria e ceticismo. O personalismo suicida. Nei não acreditava em nada. Nem em si, nem nos outros. Nunca teve confiança. Achava-se um nada na vida. O último dos derradeiros.

O personagem sofria do “complexo de vira-lata”, a genial definição de Nelson Rodrigues, nada mais brasileiro. A nação complexa, rica, diversa e de instituições ultrapassadas, cada vez mais transforma em vítimas milhões de pessoas, (sub)cidadãos vulneráveis que habitam a periferia das cidades. Os pobres brasileiros são números na estatística oficial. “Não é à toa que a indústria do medo oferece os negócios mais lucrativos do mundo atual: a venda de armas e o tráfico de drogas. As armas, produtos do medo de morrer; e as drogas, produtos do medo de viver”.

Em nossa sociedade carreirista, consumista e hedonista, anônima, Nei, personagem do prazer e da loucura, sempre em busca da adrenalina, começou a vida entre os office-boys do Centro de São Paulo. Tinha emprego (ir)regular e endereço conhecido. Inicialmente, morou 25 anos em Ermelino e, mais tarde, na Rua Terra Brasileira, em A. E. Carvalho. Era um homem-bomba que não conseguiu explodir.

Nos loucos anos 1980, como dançarino de breaking da galera de hip-hop que se exibia na estação São Bento do metrô, lançou-se no submundo da cidade. Depois, foi passista da Portela, no Rio, e em São Paulo fundou o Colorado do Brás, que praticamente nasceu na sala de sua casa. Nei destacou-se junto à moçada do delírio da Zona Leste. Se os anos 1970 foram os da “carroça que perdeu o condutor”, na visão do exotérico roqueiro Raul Seixas, os 1980 – a narrativa do livro se concentra nesta época – foram os anos da ilusão do brilho. O espírito alucinógeno inspirou o nome de uma banda de música famosa, “Brilho” (de Cláudio Zoli), e um dos hits da época cantava: “[..] a noite vai ser boa, de tudo vai rolar […]”, cuja letra fazia clara alusão ao pó do sonho. Falta-nos um balanço sincero do período, porque, cá nos trópicos, do céu ao inferno foi um passo: quantos jovens já morreram pelo nariz? Nei, cocainômano e avião do tráfico na Zona Leste, mergulhou neste poço escuro, perdeu amigos, sofreu sete overdoses e sobrevoou o umbral da vida. Esteve por um fio. Acabou salvo, milagrosamente, pelo escritor, no corredor da morte de um hospital.

A fauna humana exuberante que formava a galera do breaking e do hip-hop foi comparada mais ou menos como à dos “Loucos e Furiosos”, porém loucos de álcool e pó, o incrível pessoal que organizava memoráveis sessões de dança em que os mortais, giratórios, saltos e capoeira entre os jovens das Grandes Galerias, na Rua 24 de Maio, o reduto afrodescendente do velho Centro velho de São Paulo, a maioria pretos e pardos pobres da periferia da metrópole. A Jamaica cabocla. A globalização tornou as ruas paulistanas semelhantes às de Bombaim, Karachi ou Kingston, no visual, as roupas (bermuda e chinelo); bonés com o protetor virado para trás, embora sirvam para a proteção do sol; os tênis made in China importados, e as comidas rápidas, assemelham-se aqui e no exterior, na panaceia visual que o cinema sabe tão bem captar.

Os dançarinos do hip-hop, perseguidos pela polícia, acusam o governo do estado da decretação da marginalidade do movimento que ”só tinha vagabundo”. Elitista, o poder abafa as manifestações culturais periféricas, liberando avenidas centrais para manifestações de minorias endinheiradas. A Polícia Militar de São Paulo – PMSP mata mais que a polícia americana. Preferencialmente, jovens (15-24 anos), pretos e pardos, moradores na periferia da metrópole, a parcela da população vulnerável e alvo de extermínio. Em 1988, quando grupos de justiceiros implantaram o terror na periferia de São Paulo, inclusive em Ermelino, fuzilando jovens, Sidnei Paixão Antunes escreveu: “[…] onde estão as águas dos rios que correm para o mar / rios poluídos pela desigualdade onde sofre a pobre sociedade […]”.

 O nome define a arte. O breaking – dança do gueto e de áreas de negros em Nova Iorque – tem movimentos desconectados, é isolado e exibicionista, e dispensa companhia. Quebrando significa a pulverização do corpo e da mente. A arte desempenha um importante papel na narco-society, mas não forma um mundo à parte. Nei, o dançarino, sentiu o preconceito contra um jovem negro e obeso que se iniciava na atividade. Entre os próprios negros.

A galera alucinada chegou a subir e descer a serra de Santos, rumo às praias do litoral, duas vezes em uma mesma noite, cinco jovens bêbados e drogados – arriscando suas vidas e a de seus semelhantes – a bordo de um Passat 1976, cheirando e bebendo loucamente pela rodovia dos Imigrantes, pelo puro prazer da loucura e da aventura. O carro foi “cheirado”. Numa “seca”, mantiveram a euforia e passaram cheirando alguns meses, pó a crédito, financiado, na “boca”. Jonathan vendeu por nove mil reais o Passat ao traficante, em troca de pó. Mais tarde, este mesmo traficante salvou sua vida. High. Nos anos 1980, os executivos de Wall Street recebiam cocaína como presente ou parte dos rendimentos. Era de bom tom e sinal de sucesso profissional. Em Nova Iorque, as estrelas do cinema curtiam as noitadas na Boate 54 regadas a pó e sexo livre.

No show business brasileiro, os músicos da banda RPM, de Paulo Ricardo, comemoravam a conquista dos discos de ouro cheirando sobre eles. Artistas e cantores famosos tiveram suas vidas devassadas e confessaram o uso indiscriminado da droga. As redações e emissoras de rádio e televisão, o meio literário e intelectual mergulharam no baile de máscaras de fim de século. No meio jornalístico, Rui Mesquita lamentava que as drogas iriam acabar com seu jornal. Na Folha de S. Paulo, o entreposto da droga funcionava no primeiro andar, a poucos degraus da redação, no quarto. Na redação de uma das revistas de tênis mais chiques de São Paulo, o pó era servido aos jornalistas por garçons de luvas, no chá das cinco da tarde. No meio musical, Zé Ramalho viajava com 200 g de pó para o nordeste. Lobão era usuário contumaz e dizia isso publicamente.

A relação é infinita, apenas no plano nacional. Celebridades e traficantes nacionais e estrangeiros passaram a merecer espaço excepcional nos meios de comunicação, o que só demonstra sua importância no mercado. O pó do sonho passou a mover as engrenagens da sociedade decadente e depressiva, a narco-society. Algumas mortes de cantoras e cantores famosos – Elis Regina, Cássia Eller e Chorão – foram claramente causadas por overdoses. Tim Maia, igualmente. Antes deles, Nelson Gonçalves quase embarcou pelas narinas. Orlando Silva teve sérios problemas com álcool e morfina. No Rio, um dos grandes times de futebol fechava o bar para que a turma “do caratê” cheirasse à vontade. Como jornalistas, artistas e intelectuais faziam nos banheiros do Antonio´s. O Clube do Samba, de João Nogueira, e as escolas de samba do Rio e de São Paulo sempre foram conhecidos redutos de cocainômanos. Tudo limpo e quase legal. O tráfico é implacável e faz fortuna com clientes VIP. O Brasil é um dos maiores consumidores de cocaína do mundo.

Na Zona Leste de São Paulo, uma região maior que o Uruguai e reduto da classe média, as tragédias começaram a suceder entre os jovens. As mortes de Tiago e Marquinhos, afogados no mar de Boiçucanga, fortemente drogados, foi o hard break no black power do hip-hop. A adrenalina da vida a mil gerou depressão. Céu e inferno. A bipolaridade da vida louca. A montanha-russa, vertiginosa, que estimulava a busca frenética por paraísos artificiais. A alteridade psíquica e emocional foi incapaz de consolá-los, diante do infortúnio. Afinal, ninguém se droga para morrer, e o pó do sonho dá excesso de coragem e confiança, esta a maior armadilha.

A tragédia com os amigos de infância chocou o grupo (a morte, que inconveniente!, intrusa na brincadeira juvenil) e vários deles pararam de cheirar por uns tempos, cautelosos, maneiros. Cida, amiguinha muito louca, em pânico, chegou a fundar a Clínica para Álcool e Drogas A Criativa. Nei, não. No seu caso específico e peculiar, o efeito trágico acarretou o aumento da dosagem diária de pó. Na verdade, o ego adolescente ansiava por afago. Sentia-se “o rei, o tal”, levando o “pó da alegria” para as festas, que chegavam a durar até quatro dias. Bebida, droga e orgia. O pó do sonho democratizou o vício na narco-society, envolvendo milionários a favelados. Nei desfrutou o status, era motivo da alegria na noite do prazer, portador do euforizante que também o “pai da psicanálise”, Sigmund Freud, inalava e receitava para que sua noiva ganhasse “faces rosadas”.

A Zona Sul carioca é abastecida pelos morros. O noticiário está farto de casos de garotas bem nascidas que buscam sexo e droga nas “bocas”. Há filas de carros 0 km em “bocas” de pó e crack de Heliópolis. Modernamente, nas hostes literárias, a cocainomania levou à mudança da expressão “pó de perlimpimpim” nos livros infantis de Monteiro Lobato, dos anos 1940, para que ela não seja confundida com a apologia ao vício. Lobato também ganhou a pecha de racista por causa da Tia Nastácia. As circunstâncias transfiguram a linguagem e personagens históricos. A era da ostentação muda o nome das coisas como se isso alterasse sua natureza.

A narco-society envolve a vida no papel de celofane da ambiguidade. Nei usava em bons volumes e por isso era paparicado, não pelos atributos de sua pessoa, e sim pela mercadoria ansiosamente aguardada por muitos e que o bam-bam-bam distribuía aos amigos, que, aliás, queriam-no amigo enquanto fosse portador de tal mercadoria. A branca. Desta forma, artificialmente, justificava sua fama entre a moçada que idolatrava Public Enemy, a grande banda americana de hip-hop. Afundado em dúvidas existenciais, o jovem refletiu sobre o caráter dúbio, de estranhos valores, de pessoas apegadas às posses, títulos e honrarias, à fama e ao sucesso a qualquer preço, súditos do mercado. E tão carentes de valores humanos.

“Última chance” é um livro útil, em vários sentidos. O leigo (do bem) pode lê-lo para mergulhar – conhecer e prevenir – na sordidez do vício. O adicto (o mal) ganha uma referência literária real, caso queira mudar, fazer da fraqueza força e viver de cara limpa. Nei personifica o homem-bomba desativado. O livro, para o bom leitor, pode mesmo vir a ser a chave da mudança, no espírito da autoajuda, para sair do fundo do poço. Sobreviver. O “tiro” às vezes atinge o próprio atirador. Isto requer férrea força de vontade e abandono do meio tóxico. Depende mais de atitude pessoal que de apoio geral, pois, infelizmente, a narco-society doentia não contribui na recuperação do adicto. Estimula cada vez mais o vício, legal e ilegal. Então, como ver a cria do lar bebedor e tabagista? O meio do qual seu pai, seu Antunes, craque da várzea e alcóolatra inveterado, jogador de nome no futebol amador no JD Belém Futebol Clube, ponta-esquerda de estilo, que vivia lubrificado por geladas e “branquinhas”, as bebidas que mandava o filho ir buscar no bar do clube. Aliás, talvez seu Antunes nem soubesse como era conhecido e querido por quase todos no bairro, como Nei soube depois que o velho veio a falecer.

O ressurgimento pessoal é doloroso, como o chamado “peru frio”, o tratamento de choque do cocainômano. Viver é perigoso. A vida cobra e revida cada ação. Aos indivíduos submetidos a situações-limite, de extrema violência, como guerra ou campo de concentração, só resta a morte, a loucura ou a delinquência, ensina o psiquiatra inglês D. W. Winnicott.

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