Arco Mineiro: Apostando contra o ambiente

Trabalho investigativo realizado por Bram Ebus repórter infoamazonia relata como a exploração de minério e a busca por petróleo resultam nas baixas condições sociais da população. Foram focos do trabalho: a guerrilha; a incidência da malária; o crime organizado e impactos sobre o meio ambiente na Venezuela.

Os fortes ruídos dos geradores acompanham o duro trabalho dos mineiros ilegais a apenas um quilômetro da vila de El Callao. Coberto de lama, eles se alternam entre poços mineiros enquanto fazem uma varredura por ouro, cavam mais buracos ou usam as máquinas ruidosas no entorno dos poços de mineração para encher grandes sacos com quantidades de lama contendo ouro que irá depois será processada com mercúrio. Neste mesmo lugar havia uma floresta, mas muitas camadas de vegetação já foram removidas pela mineração.

Se há um motivo para não continuar com o Arco Minero é o meio-ambiente, de acordo com Edgar Yerena, um biólogo da Universidade Simón Bolívar, em Caracas. “É uma ideia muito ruim. É a pior ideia. Não há pior uso que você pode pensar, na minha opinião, para o Escudo das Guianas”.

Na Venezuela, o Escudo das Guianas se sobrepõe ao estado de Bolívar por inteiro e também inclui os estados do Amazonas e Delta Amacuro. A região é, de acordo com especialistas ambientais, de extrema importância para a geração de água e de conservação de espécies, mas deve ser evitado para a mineração. “Do ponto de vista ecológico  funciona como um sistema diferente do resto do país. É muito delicada porque os solos gerados são muito lixiviados e bastante molhados. Eles têm bem poucos nutrientes, é muito arenoso e a recuperação ambiental de qualquer impacto no Escudo das Guianas é muito lenta, senão irreversível”, explica Yerena.

As observações de Yerena são apoiadas por outro especialista ambiental venezuelano. “Os solos são muito finos e, quando removidos, será muito difícil de recuperar”, diz Juan Carlos Sánchez, co-ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2007 e um perito do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. O laureado também alerta que as florestas do Escudo das Guianas são habitat de espécies endêmicas que serão severamente impactadas. Existem 9.411 espécies de flora, das quais 2.136 são endêmicas.

Não há convivência possível entre mineração e florestas no Escudo das Guianas, diz Sánchez. “Todas as terras dedicadas à mineração, e em particular à mineração de superfície, serão terrenos nos quais as florestas serão sacrificadas porque a mineração requer a remoção de grandes quantidades de terra. Este sacrifício das florestas representa uma perda irreparável do capital natural.”

Estas terras exuberantes estão declaradas como parques nacionais, monumentos naturais, zonas protegidas, florestas e reservas florestais. O Parque Nacional Canaima foi até mesmo reconhecido como um Patrimônio Mundial da Unesco. Tudo isso parece não importar. Estas reservas florestais vão sofrer mais com as consequências imediatas de extração mineral no Arco Minero.

Além disso, o impacto sobre as fontes de água será severo. O estado de Bolívar basicamente funciona como uma fábrica de água para o país e possui a décima maior reserva de água no mundo. A bacia do rio Caroní, por exemplo, gera energia hidrelétrica a 65 por cento do território da Venezuela, que é gerada na represa Guri, a principal fonte de energia da Venezuela.

De acordo com Yerena, “a mineração prejudica a qualidade da água disponível. O tema do potencial hidrelétrico nas Guianas não só depende da quantidade de água, mas também na qualidade. Ele requer água com pouco sedimento”, explica ele ao se referir ao rio Caroní, que margeia a região de mineração e se torna cada vez mais sedimentado.

O impacto ambiental pode ser irreversível. Especialistas explicam que, a longo prazo, os danos ambientais podem superar as receitas do setor de mineração. Yerena acrescenta: “O Estado venezuelano tem uma história de não saber como administrar a mineração. Por que eles saberiam fazê-lo agora?”.

O desconhecimento também é um problema para os movimentos de justiça ambiental que têm pouco de pesquisa e dados disponíveis para argumentar. “É complicado porque, até agora, a defesa está baseada no conceito do projeto, e a maneira sobre a qual eles estão tentando implementar o projeto”, explica Yerena.

“Mas ainda não há uma avaliação ambiental estratégica. Não há e informações públicas deveriam ser fornecidas para que os setores acadêmico e ambiental pudessem revisar adequadamente. Até agora, só temos informações fracionadas, pontuais e não oficiais. Não existem mecanismos claros para a obtenção de informação oficial para as pessoas curiosas em saber o que está acontecendo com o projeto.”

“No meu entendimento, de acordo com as normas ambientais da Venezuela, isso não deveria ter acontecido. Isto é construído sobre uma base de ilegalidade na qual o estudo de avaliação ambiental sobre todo o projeto não foi conduzido”, diz Yerena.

Alexander Luzardo, o ex-senador que escreveu as normas ambientais para constituição atual da Venezuela, duvida que a mineração compense o dano em troca dos benefícios econômicos. Nunca houve qualquer prova certificada de que o país possui quantidades de ouro e coltan tão grande quanto afirma ter.

O professor diz que pode ser um mito, uma estratégia para o desenvolvimento de projetos, a fim de lavar o dinheiro. “A criação de empresas fantasmas, sem qualquer experiência, sem conhecimento, eles jogam o jogo de elevação e lavagem de dinheiro”, diz ele. “A mineração está ligada a negócios ilícitos e atividades ilegais financeiras ligadas à lavagem de dinheiro.” Segundo ele, estas empresas vão comprar e trocar os minerais de mineração ilegal ou tentar especular e vender seu projeto para quem der o maior lance.

O “show de boas notícias” do governo sobre depósitos minerais monstruosos é, de acordo com Luzardo, uma oferta enganosa para o país. “É para dar a eles a esperança de uma loteria”, ele ri. “É a loteria da mineração. Sempre apostando tudo. ‘Nós temos as maiores reservas do mundo’.” A distração da crise econômica e política ignora questões mais importantes em jogo. “Não é sobre o trabalho, nem sobre educação, organização ou a diversificação energética e tampouco sobre assumir os grandes desafios”, ironiza.

O nome Arco Minero também é incômodo para Luzardo. Ele argumenta que o termo é um reducionismo linguístico. “Você reduz tudo a Arco Minero”, explica ele. “Já com o nome se cede o território [à mineração]”. Argumenta que um Arco da Biodiversidade caberia melhor e faria mais justiça, em papel, às áreas ambientais protegidas.

Há esperança, no entanto, de acordo com Luzardo. O professor refere-se a uma decisão da Assembleia Nacional venezuelana que cancelou o decreto do Arco Minero no dia 14 de junho de 2016. “Você não pode legalizar um crime ambiental”, ele resmunga, mas a decisão da Assembleia não foi reconhecido pela Suprema Corte da Venezuela que deixou de lado a Assembleia Nacional e todas as suas decisões a partir do dia 11 de janeiro de 2017.

Enquanto isso, a crise política e econômica da Venezuela continua levando mais venezuelanos desesperados e desempregados à região mineira. Eles continuam a cavar nas lamas valiosas de El Callao e muitas outras áreas no sul do país. Por agora, a oposição política contra o Arco Minero é deixada sem armas legais. Desmatamento acelerado e uma fronteira de mineração em expansão são as consequências inegáveis ​​da crise no país, que parece longe de terminar.

Veja o trabalho completo em:  https://arcominero.infoamazonia.org/

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