×

Por: Organização Internacional do Trabalho

Nos últimos 10 meses, os mercados de trabalho da América Latina e do Caribe retrocederam pelo menos 10 anos e a crise está longe de acabar, disse o diretor regional da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Vinícius Pinheiro, ao apresentar a nova edição do relatório Panorama Laboral. O documento retrata o impacto sem precedentes da crise da COVID-19.

“Estamos chegando a 2021 com o emprego na terapia intensiva”. Vinícius Pinheiro, diretor regional da OIT

OIT: 30 milhões de pessoas estão desocupadas por falta de oportunidades na América Latina. Foto : Pedro Ventura / Agência Brasília

As considerações foram feitas durante a coletiva de imprensa organizada nesta quinta-feira (17) para apresentar os principais pontos do Panorama Laboral 2020 para a América Latina e o Caribe, relatório que começou a ser publicado em 1994. “Esta é a maior crise que este relatório já registrou em toda a sua existência”.

Diante desse cenário, os países da região enfrentam agora o desafio de “lançar as bases para um novo e melhor normal”, o que implicará na adoção de estratégias para gerar mais e melhores empregos à medida que a produção for reativada e a emergência sanitária diminuir.

“Agora é fundamental alcançar crescimento econômico com emprego. O emprego é crucial para reduzir a pobreza e enfrentar a ampliação das desigualdades que esta pandemia está deixando como consequência ”, acrescentou o diretor da OIT para a região.

O relatório Panorama Laboral 2020 registra um forte aumento da taxa de desocupação, que subiu 2,5 pontos percentuais em relação ao ano anterior, passando de 8,1% para 10,6%. Isso significaria que o número de pessoas que procuram emprego e não encontram aumentou em 5,4 milhões e chega a 30,1 milhões.

Mas o relatório da OIT alerta que, em um cenário de crise tão abrupta, a taxa de desocupação mostra apenas uma parte da história. Este ano houve uma transição inédita para a inatividade de pessoas que desistiram de procurar trabalho por falta de oportunidades. A taxa de participação caiu 5,4 pontos percentuais, para 57,2%, segundo dados disponíveis no final do terceiro trimestre de 2020.

Isso significa que cerca de 23 milhões de pessoas saíram temporariamente da força de trabalho e perderam seus empregos e sua renda. À medida que as economias se recuperarem, seu retorno aos mercados de trabalho criará uma pressão adicional sobre os indicadores de desocupação para o próximo ano.

Em 2021, a taxa de desocupação poderia subir novamente para 11,2%, disse a OIT, considerando a  influência de fatores como o crescimento econômico moderado em torno de 3,5%, que é insuficiente para recuperar o terreno perdido na crise, e a incerteza em torno da evolução da pandemia de COVID-19, incluindo temores com relação a surtos e à eficácia dos processos de vacinação.

O relatório acrescenta que, antes da crise da saúde, o que sustentava a participação e a ocupação regional era a incorporação das mulheres ao mercado de trabalho. Devido à pandemia, este processo está claramente enfrentando um retrocesso. A redução da taxa de participação foi proporcionalmente mais acentuada entre as mulheres (-10,4%) do que entre os homens (-7,4%). “A crise de saúde em 2020 teve um impacto ainda mais significativo no desempenho dos indicadores de emprego feminino”, destaca o documento.

No caso da população entre 15 e 24 anos, nos três primeiros trimestres de 2020, as taxas de participação e de ocupação juvenil caíram cerca de 5,5 pontos percentuais, até chegar a 42,7% e 33,0%, respectivamente. A taxa de desocupação juvenil aumentou 2,7 pontos percentuais, chegando a 23,2%, um nível inédito, e que implica que 1 em cada 4 jovens estava desempregado no terceiro trimestre de 2020.

Ao analisar os dados disponíveis sobre as categorias ocupacionais no terceiro trimestre, o relatório da OIT afirma que, em 2020, o emprego assalariado total e o trabalho autônomo caíram -6,8% e -8,9%, respectivamente. Observa-se também o impacto que a crise da saúde teve sobre outras categorias ocupacionais, como os empregadores (-9,8%) e o serviço doméstico (-19,4%).

A contração do emprego foi particularmente significativa em setores de serviços como hotelaria (-17,6%) e comércio (-12%). Por outro lado, observa-se também que a crise da saúde afetou fortemente o emprego na construção (-13,6%) e na indústria (-8,9%). A menor queda na ocupação foi observada na agricultura (-2,7%).

Lições da pandemia – Pinheiro ressaltou que, para o futuro, será importante considerar as lições aprendidas com esta pandemia. Em primeiro lugar, não há dilema entre preservar a saúde e a atividade econômica, porque sem saúde não há produção nem consumo. A segurança e a saúde no trabalho são agora uma questão chave para a retomada.

Em segundo lugar, o diálogo social é mais relevante do que nunca, porque permite reunir estratégias acordadas por governos, empregadores e trabalhadores para enfrentar a crise.

Ele também afirmou que será necessário lidar com “condições pré-existentes”. “A região foi duramente atingida por esta crise, ainda mais do que outras no mundo, e isso se deveu em grande parte a problemas estruturais que existiam e eram conhecidos por nós”, disse o dirigente. Como exemplos, ele citou a persistente falta de espaço fiscal, lacunas na cobertura da proteção social, alta desigualdade social e alta informalidade evidenciaram a precariedade de grandes setores de nossas sociedades.

O relatório Panorama Laboral 2020 tem um tema especial em que são analisadas várias repercussões da crise da COVID-19, incluindo as medidas tomadas pelos governos para proteger o emprego, a renda e o funcionamento das empresas em momentos de emergência. O relatório destaca que foi um esforço importante, embora “em alguns casos houvesse a sensação de que o auxílio estava atrasado ou que não era suficiente para cobrir as rendas perdidas”.

O aumento do trabalho em plataforma, especialmente os serviços de entrega, e o crescimento do teletrabalho, bem como os desafios enfrentados na sua regulamentação, no fechamento das brechas digitais, no treinamento e na sua atuação em condições formais, também são objetos de análise do relatório.

Os desafios em tempos de COVID-19 para a formação profissional, proteção social, fiscalização do trabalho e o apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas são analisados por especialistas da OIT.

O relatório termina com uma reflexão sobre as políticas que podem contribuir para a recuperação do emprego após a crise, incluindo a necessidade de repensar o modelo de inserção econômica internacional, do desenvolvimento tecnológico com sustentabilidade ambiental, da promoção do empreendedorismo e da formalização, e de contar com políticas de emprego que respondam às novas realidades.

“Diante da atual crise da COVID-19, é importante adequar e atualizar a Política Nacional de Emprego nos países que já a possuem, ou formular uma Política nos países que ainda não a possuem”, destaca o documento, ao fazer um chamado à ação para enfrentar a crise.

“O caminho para um novo e melhor normal não será fácil, nem será curto”, disse o diretor da OIT. “Esse é o legado de 2020, o ano em que vivemos com a COVID-19”, afirmou.

O relatório Panorama Laboral 2020 foi preparado por uma equipe de especialistas da OIT em vários países da região, coordenada por Fabio Bertranou, diretor do Escritório para o Cone Sul e composta, entre outros, por Juan Jacobo Velasco, Andrés Marinakis, Roxana Maurizio, Gerhard Reinecke, Bolívar Pino e Marcela Cabezas.

Deixe sua opinião

Autor

ambientedomeio@outlook.com

O “Ambiente do Meio” foi criado em 2007 e a autora teve como objetivo inicial auxiliar jornalistas e leigos nas informações de qualidade sobre o Meio Ambiente resultante de preocupações com as poucas informações jornalísticas de qualidade sobre o tema atreladas a conhecimentos acadêmicos e evidências científicas.

Posts relacionados

Entidade defende estratégia industrial climática de longo prazo para garantir competitividade e reindustrialização verde

Um estudo inédito da Fiesp aponta que o setor industrial brasileiro tem viabilidade técnica para cumprir o orçamento de carbono proposto pelo governo...

Leia tudo

Agrotóxicos: especialistas debatem políticas públicas e vigilância em saúde nos dias 16 e 17 de julho

Nos dias 16 e 17 de julho de 2026, a Faculdade de Saúde Pública da USP sediará o workshop internacional Agrotóxicos e Vigilância em...

Leia tudo

CARTA PAULISTA PELA RECONSTRUÇÃO DA GOVERNANÇA AMBIENTAL

APRESENTAÇÃO O Estado de São Paulo foi protagonista na construção da política ambiental brasileira. Ao longo de décadas consolidou instituições técnicas, fortaleceu a...

Leia tudo

Parque Villa-Lobos: quando um parque urbano passa a ser tratado como um centro de eventos

Concluímos um Laudo Técnico Urbanístico e Ambiental sobre os impactos decorrentes da concessão dos Parques Villa-Lobos e Cândido Portinari, resultado de meses de...

Leia tudo

Mortes por terremotos na Venezuela chegam a 2,6 mil

Subiu para 2,6 mil o número de mortos em decorrência dos dois terremotos de 24 de junho na Venezuela. Os feridos somam 12,7...

Leia tudo

Árvores gigantes de florestas tropicais superam limites físicos para transportar água até o topo

Contrariando um paradigma da botânica, uma pesquisa divulgada hoje na revista Science revelou que as árvores gigantes das florestas tropicais – com altura...

Leia tudo

Descubra mais sobre AMBIENTEDOMEIO ®

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo