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O desafio de transformar a sustentabilidade em política urbana

A Sustentabilidade deixou de ser um diferencial para se tornar um requisito da construção civil em um mundo onde as Certificações ambientais, edifícios de baixo consumo energético e soluções tecnológicas vêm sendo cada vez mais incorporados aos novos empreendimentos há um avanço é positivo, mas insuficiente.

A pergunta que precisa orientar o planejamento urbano no século XXI é outra: uma cidade pode ser considerada sustentável quando seu processo de transformação reduz continuamente sua infraestrutura verde, amplia a impermeabilização do solo, aumenta as emissões de carbono e intensifica os riscos climáticos?

A resposta exige olhar além dos edifícios individualmente considerados

O desafio contemporâneo não é apenas construir edifícios verdes, mas assegurar que o próprio processo de transformação urbana seja ambientalmente sustentável.

Nos últimos anos, São Paulo experimentou uma intensa renovação imobiliária impulsionada pela ampliação dos eixos de transformação urbana, pelo aumento do potencial construtivo e pela crescente verticalização. Esse movimento trouxe dinamismo econômico, mas também produziu impactos ambientais que raramente são avaliados de forma integrada.

O primeiro deles é a crescente demolição do patrimônio edificado existente e cada demolição gera milhares de toneladas de resíduos da construção civil, desperdiça energia incorporada nas edificações existentes e produz novas emissões de gases de efeito estufa associadas à fabricação de cimento, aço, vidro e demais materiais empregados na reconstrução.

O segundo impacto é a supressão da vegetação urbana

Os dados disponíveis revelam uma forte concentração das retiradas de árvores justamente nos bairros submetidos às maiores pressões de transformação urbana. Entre janeiro de 2019 e outubro de 2022, Pinheiros registrou 4.333 autorizações de retirada de árvores, seguido pela Sé (3.684), Vila Mariana (2.827), Santo Amaro (2.606), Ipiranga (2.589) e Butantã (2.466). Esses distritos coincidem, em grande medida, com áreas de intensa verticalização e renovação imobiliária.

É importante observar que o número absoluto de árvores retiradas, isoladamente, não mede a perda proporcional de cobertura vegetal de cada bairro. Entretanto, quando esses dados são analisados em conjunto com o avanço das demolições, da verticalização e da impermeabilização do solo, revelam um padrão consistente de transformação territorial que merece atenção, essa dinâmica produz efeitos que vão muito além da paisagem urbana.

A perda de árvores reduz a capacidade de infiltração das águas pluviais, aumenta o escoamento superficial, intensifica as ilhas de calor, diminui a biodiversidade urbana e reduz importantes serviços ecossistêmicos, como a regulação microclimática, a melhoria da qualidade do ar e o sequestro de carbono; ao mesmo tempo, a substituição de lotes arborizados por grandes empreendimentos tende a ampliar as áreas impermeabilizadas, alterar os padrões de ventilação, aumentar o sombreamento sobre edificações vizinhas e pressionar a infraestrutura urbana existente.

O problema não está na verticalização em si, mas na ausência de uma avaliação integrada de seus efeitos cumulativos, hoje cada empreendimento é analisado praticamente de forma isolada e de acordo com licenciamento ambiental e urbanístico raramente considera-se a soma dos impactos produzidos por centenas de intervenções simultâneas em um mesmo território.

Essa fragmentação do processo de Licenciamento Ambiental impede responder perguntas fundamentais:

  • Qual será a perda total de cobertura arbórea de um distrito ao longo de dez anos?
  • Quanto aumentará a impermeabilização do solo?
  • Qual será o impacto acumulado sobre a drenagem urbana?
  • Quanto carbono será emitido pelas demolições e reconstruções?
  • Como evoluirão as ilhas de calor?
  • Qual será a capacidade futura da infraestrutura urbana?

Sem responder a essas questões, corre-se o risco de transformar a sustentabilidade em um discurso desconectado da realidade territorial.

É justamente por isso que diversos países passaram a incorporar instrumentos como a Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), voltada à análise de políticas públicas, planos urbanos e programas de desenvolvimento antes que centenas de projetos individuais sejam aprovados; com esta abordagem será possível avaliar impactos cumulativos, estabelecer limites ambientais para o crescimento urbano, proteger a infraestrutura verde, orientar a adaptação às mudanças climáticas e construir cidades mais resilientes.

Essa mudança de escala é particularmente relevante no contexto da Climate Week, quando governos, empresas e especialistas discutem caminhos para cidades de baixo carbono e mais resilientes.

Condomínio poucos metros do Parque do Carmo na Zona Leste Foto: Ana Lima

A principal mensagem desses debates é clara: não basta reduzir o impacto ambiental dos edifícios. É preciso reduzir o impacto ambiental das cidades.

Uma cidade resiliente não é aquela que apenas constrói edifícios certificados e sim a que preserva sua arborização, reduz demolições desnecessárias, reutiliza estruturas existentes, diminui a geração de resíduos da construção civil, protege o solo, conserva sua biodiversidade, amplia a infraestrutura verde e azul e planeja seu crescimento considerando os riscos climáticos.

Os indicadores de sustentabilidade urbana precisam refletir essa visão integrada e não basta contabilizar quantas árvores foram plantadas ou quantos edifícios receberam certificações ambientais, é necessário medir também quantas árvores foram perdidas, quanto carbono foi emitido pelas demolições, quanto solo foi impermeabilizado, quanto calor urbano foi produzido e qual a capacidade de suporte ambiental dos territórios.

O futuro das cidades dependerá menos da sustentabilidade isolada dos empreendimentos e muito mais da sustentabilidade do processo de transformação urbana onde o maior desafio do planejamento urbano nas próximas décadas é substituir a lógica do empreendimento sustentável pela lógica da cidade sustentável; porque diante da emergência climática, não basta construir edifícios verdes é preciso garantir que a própria cidade continue viva, resiliente e capaz de sustentar a vida de suas futuras gerações.

Por: Ivan Carlos Maglio * Engenheiro civil e doutor em Saúde Pública pela USP. Foi secretário-executivo do Conselho Estadual do Meio Ambiente, coordenador de Planejamento Ambiental da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e diretor da Cetesb. Edição e foto de Ana Lima.

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O “Ambiente do Meio” foi criado em 2007 e a autora teve como objetivo inicial auxiliar jornalistas e leigos nas informações de qualidade sobre o Meio Ambiente resultante de preocupações com as poucas informações jornalísticas de qualidade sobre o tema atreladas a conhecimentos acadêmicos e evidências científicas.

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