Por: Carlos Bocuhy, presidente do PROAM -Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental
Arábia Saudita, Rússia, China, África do Sul e Indonésia são os maiores extratores de combustíveis fósseis do G20. No encontro dos ministros de energia do G20, ocorrido em Goa, esses países se recusaram a assinar compromisso para uma efetiva eliminação dos combustíveis fósseis.
Isso sinaliza que a reunião de cúpula do G20, que ocorrerá em setembro, caminhará no mesmo sentido, o que também se reproduzirá na cúpula climática global que acontecerá no final do ano em Dubai, nos Emirados Árabes.
O ministro de Energia da Índia, Raj Kumar Singh, em conversa com jornalistas depois da conferência, disse que “alguns países queriam usar a captura de carbono em vez de reduzir gradualmente os combustíveis fósseis”.
Alden Meyer, do think tank ambiental E3G afirmou:
” O mundo precisava ouvir um chamado à ação da reunião de ministros de energia do G20, mas o que obtivemos foi um chá muito fraco”. Meyer defende a necessidade de uma transição justa, rápida e equitativa para longe dos combustíveis fósseis.” ‘
O governo da Índia, que preside o G20 em 2023, divulgou um comunicado a respeito do encontro em Goa, afimando que outros países “têm opiniões diferentes sobre o assunto e que as tecnologias de redução e remoção abordarão essas preocupações”.
Isso significa dizer que os esforços climáticos desses países estarão centrados em tecnologias inexistentes ou ainda são insuficientes. Ou seja, algo como “vamos continuar a extrair e poluir até que a ciência possa nos possibilitar uma saída”.
A ciência tem sido clara ao afirmar, por meio do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC) que o horizonte para implementar ações é restrito, considerando a necessidade de manter o mundo na segurança de 1,5 º Celsius até 2.100. A segurança a qual se refere a ciência comporta toda a sorte de eventos extremos que já temos hoje, portanto o objetivo deve ser evitar situações mais catastróficas.
Como resultado do fracasso nas negociações, a diplomacia indiana teve que achar meios de comunicar o fato, o que resultou em texto que, grosso modo, de forma otimista, noticia a decisão de “triplicar a capacidade de tecnologia limpa” em vez de “triplicar a energia renovável com redução gradual dos combustíveis fósseis”.
A indecisão ocorrida em Goa reforça a grande lacuna semeada pelos principais poluidores na COP27 do Egito, onde a proposta ideal de “eliminação dos combustíveis fósseis” foi substituída por mera “redução dos combustíveis fósseis”.
Os resultados insuficientes de Goa não só impossibilitaram uma declaração conjunta do G20 sobre ações mais efetivas para combater o aquecimento global. Colocam na mesa de discussão uma premissa falsa, em função de impossibilidade tecnológica de equacionar o grave problema do aquecimento global, procrastinando mais uma vez a tomada efetiva de medidas para fazer cessar a poluição.
A negação dos efeitos climáticos dramáticos que ocorrem hoje no Hemisfério Norte, com exposição de milhões de pessoas ao calor extremo e incêndios devastadores, em contraposição à posição laissez-faire dos maiores contribuintes para que estes fenômenos venham a piorar é, sem dúvida, inaceitável.
