Por Ana Marina Martins de Lima com informações do PNUD
O relatório, intitulado ” A Próxima Grande Divergência: Por que a IA Pode Ampliar a Desigualdade entre Países”, destaca que, embora a IA abra novas e importantes vias para o desenvolvimento, os países iniciam essa transição partindo de posições extremamente desiguais para capturar benefícios e gerenciar riscos. Sem ações políticas robustas, essas disparidades podem aumentar, revertendo a longa tendência de redução das desigualdades no desenvolvimento.

O desenvolvimento da economia; ampliação dos sistemas de governança; gerenciamento das vulnerabilidades ambientais e serviços de governo aos cidadãos só serão eficazes forem administrados de forma correta e ética pelos gestores responsáveis.
De acordo com o relatório:
O uso da inteligência artificial (IA) descontrolada pode aumentar a desigualdade entre os países, ampliando as disparidades no desempenho econômico, nas capacidades das pessoas e nos sistemas de governança, visto que o ponto de partida é muito diferente.
Por exemplo na região da Ásia e do Pacífico, lar de mais de 55% da população mundial que está no centro da transição para a IA e onde se concentra mais da metade dos usuários globais , desde a ascensão da China a quase 70% das patentes globais de IA até mais de 3.100 novas empresas de IA financiadas em seis economias : a IA pode impulsionar o crescimento anual do PIB na região em cerca de 2 pontos percentuais e aumentar a produtividade em até 5% em setores como saúde e finanças; somente as economias da ASEAN podem registrar um aumento de quase US$ 1 trilhão no PIB na próxima década e ao mesmo tempo, milhões de empregos, especialmente aqueles ocupados por mulheres e jovens, ficam significativamente expostos à automação, caso os princípios fundamentais da governança ética e inclusiva da IA não sejam considerados.
Durante grande parte do último meio século, muitos países de baixa renda reduziram gradualmente a disparidade em relação aos países de alta renda por meio de avanços tecnológicos, comerciais e de desenvolvimento. Essa “era da convergência” trouxe melhorias significativas na saúde, na educação e na renda. O relatório alerta que, sem escolhas políticas deliberadas e inclusivas, a IA pode agora causar a erosão desses ganhos de convergência.
“A IA está avançando rapidamente, e muitos países ainda estão na linha de partida. A experiência da Ásia e do Pacífico destaca a rapidez com que podem surgir lacunas entre aqueles que moldam a IA e aqueles que são moldados por ela.” Kanni Wignaraja, Subsecretário-Geral da ONU e Diretor Regional do PNUD para a Ásia e o Pacífico.
O nível de prontidão digital varia significativamente em toda a região. Países como Singapura, Coreia do Sul e China estão investindo consideravelmente em infraestrutura e capacitação em IA, enquanto outros ainda trabalham para fortalecer o acesso e a alfabetização digital básicos. O desenvolvimento dessas capacidades digitais será fundamental para garantir que todos os países possam se beneficiar das oportunidades que a IA oferece.
A infraestrutura, as competências, o poder computacional e a capacidade de governança limitados restringem os benefícios potenciais da IA, ao mesmo tempo que amplificam os riscos, incluindo o deslocamento de empregos, a exclusão de dados e impactos indiretos, como o aumento da procura global de energia e água devido aos sistemas que dependem intensivamente de IA.
Mulheres e jovens enfrentam vulnerabilidades específicas. Os empregos ocupados por mulheres são quase duas vezes mais expostos à automação, e o emprego juvenil já está em declínio em funções com alta exposição à IA, especialmente para aqueles com idades entre 22 e 25 anos, ameaçando as perspectivas de início de carreira.
No Sul da Ásia, as mulheres têm até 40% menos probabilidade do que os homens de possuir um smartphone. Comunidades rurais e indígenas muitas vezes permanecem invisíveis nos conjuntos de dados que treinam os sistemas e foi detectado um risco de viés algorítmico e exclusão de serviços essenciais. Analisando as oportunidades, percebe-se que a IA estar transformando a governança e os serviços públicos em toda a região. A plataforma Traffy Fondue, em Bangkok, processou quase 600 mil denúncias de cidadãos, permitindo que as agências municipais respondam com mais eficiência aos problemas do dia a dia. O serviço Moments of Life, em Singapura, reduziu a burocracia para novos pais de cerca de 120 minutos para 15 minutos. Em Pequim, gêmeos digitais, uma representação virtual que serve como contraparte digital em tempo real de um objeto ou sistema físico, estão auxiliando no planejamento urbano e no gerenciamento de enchentes.
Apenas um número limitado de países possui regulamentações abrangentes sobre IA e, até 2027, mais de 40% das violações de dados globais relacionadas à IA podem decorrer do uso indevido de IA generativa, o que reforça a necessidade de estruturas de governança robustas. Esta é uma área crucial para muitos países da região e de outros lugares que precisam se atualizar.
“A principal questão na era da IA é a capacidade. Os países que investirem em habilidades, poder computacional e sistemas de governança sólidos se beneficiarão, enquanto outros correm o risco de ficar muito para trás.” Philip Schellekens, economista-chefe do PNUD para a Ásia e o Pacífico.