×

Análise da jararaca-ilhoa é a mais completa já realizada entre as Bothrops e servirá como referência para estudos futuros sobre composição do veneno e conservação de serpentes do gênero

Um grupo de pesquisadores do Instituto Butantan acaba de publicar o primeiro sequenciamento genômico completo em nível cromossômico da jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), serpente endêmica do Brasil. O estudo foi divulgado no periódico Genome Biology and Evolution e revelou informações fundamentais sobre a composição e evolução do veneno, assim como a história demográfica da espécie que é encontrada apenas na Ilha da Queimada Grande, localizada a 35 quilômetros da costa do município de Itanhaém, no litoral sul paulista.

“O objetivo foi gerar uma estrutura bem definida e definitiva do genoma de uma serpente do gênero Bothrops. É um trabalho que abre oportunidades e serve como referência para outros pesquisadores que desejam aprofundar seus estudos sobre a diversidade do veneno e da população de jararacas”, explica o pesquisador científico e diretor do Laboratório de Toxinologia Aplicada (LETA) do Instituto Butantan, Inácio Junqueira de Azevedo. A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e da Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos (NSF, na sigla em inglês).

Também sob a liderança de Inácio, o grupo já havia feito o sequenciamento genômico da jararaca (Bothrops jararaca), que resultou em um artigo publicado na revista PNAS em 2021. O trabalho atual é uma continuação da descrição da diversidade do transcriptoma da glândula de veneno da Bothrops insularis, divulgada em 2002 no periódico Gene – pioneira, a pesquisa revolucionou o estudo de venenos de serpentes no mundo na época.

“No trabalho do transcriptoma, conseguimos identificar os sinais dos genes que estavam ativos na glândula de veneno, produzindo as toxinas. Já o sequenciamento genômico traz informações não apenas dos genes reais que estão em atividade, mas de todos os outros presentes ali”, esclarece o pesquisador. 

Inácio Junqueira de Azevedo é pesquisador científico e diretor do Laboratório de Toxinologia Aplicada do Instituto Butantan (Foto: Renato Rodrigues/Comunicação Instituto Butantan)

Um genoma se refere ao conjunto do material genético (genes, cromossomos e outros elementos do DNA do núcleo da célula) de um organismo e à sequência em que ele aparece. De forma simplificada, é como se fosse um “livro” que contém as instruções essenciais para o desenvolvimento e funcionamento de um ser vivo, além de registrar suas características físicas.

Achados sobre o veneno da espécie

Uma das descobertas mais significativas é que alguns dos genes de toxinas presentes no veneno da jararaca-ilhoa estão evoluindo sob processo de seleção natural. Isso acontece quando modificações naturais de uma dada característica da espécie (neste caso, o veneno) representam uma vantagem capaz de aumentar sua sobrevivência no ambiente onde vive, ao invés de serem fixadas apenas de modo aleatório.

“Observamos essa assinatura nos genes de algumas lectinas e metaloproteases, que são toxinas relevantes na composição do veneno da espécie. Além disso, detectamos mudanças estruturais nesses genes que alteram a proteína derivada”, explica Inácio.

O achado pode ajudar a esclarecer a possibilidade da jararaca-ilhoa ter um veneno mais especializado para a predação de aves. Como na Queimada Grande não há disponibilidade de roedores – principal alimento da jararaca do continente (Bothrops jararaca) –, a espécie endêmica se alimenta de pássaros migratórios que visitam a ilha ao longo do ano. 

“O veneno das duas espécies [B. insularis e B. jararaca] apresenta uma variabilidade sutil. Pode ser que justamente essas pequenas mutações capazes de mudar alguns poucos aminoácidos na proteína da toxina façam com que ela se ligue mais facilmente a um receptor presente nas aves, por exemplo. Porém, esse é um ponto que demanda aprofundamento de estudos bioquímicos”, reforça o pesquisador do LETA.

Evolução e conservação da espécie

Além do sequenciamento genômico do chamado “indivíduo-alvo”, outros sete espécimes de B. insularis tiveram seu genoma mapeado de forma um pouco mais simplificada, a fim de estruturar a variabilidade genética da população. Os dados levantados permitiram que os pesquisadores fizessem inferências sobre quando a espécie se isolou na Ilha da Queimada Grande e o quanto os indivíduos se diversificaram entre si.

“A análise preliminar mostrou que, provavelmente, a jararaca-ilhoa passou por mais de um período de isolamento, tendo se reconectado com o continente em algum momento do passado. A estimativa é que a última separação tenha acontecido, aproximadamente, entre 15 e 10 mil anos atrás”, afirma Inácio.

O conhecimento da diversidade genética presente em uma dada população também é relevante quando se pensa em futuros trabalhos de conservação da espécie, principalmente em situações ex-situ – quando o manejo acontece fora do ambiente natural. De acordo com o pesquisador científico, o atual trabalho fornece a base de referência da variabilidade genética esperada na ilha para monitoramento de plantéis mantidos fora da natureza.  

Como esperado, o trabalho constatou que a jararaca-ilhoa possui baixa variabilidade, mas mantém padrões genéticos e demográficos saudáveis para garantir sua existência na ilha. 
Atualmente, a espécie figura entre as espécies criticamente ameaçadas de extinção, de acordo com a International Union for Conservation of Nature (IUCN) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)

Reportagem: Natasha Pinelli
Fotos: Marília Ruberti e Renato Rodrigues/Comunicação Instituto Butantan

Deixe sua opinião

Autor

ambientedomeio@outlook.com

O “Ambiente do Meio” foi criado em 2007 e a autora teve como objetivo inicial auxiliar jornalistas e leigos nas informações de qualidade sobre o Meio Ambiente resultante de preocupações com as poucas informações jornalísticas de qualidade sobre o tema atreladas a conhecimentos acadêmicos e evidências científicas.

Posts relacionados

Entidade defende estratégia industrial climática de longo prazo para garantir competitividade e reindustrialização verde

Um estudo inédito da Fiesp aponta que o setor industrial brasileiro tem viabilidade técnica para cumprir o orçamento de carbono proposto pelo governo...

Leia tudo

Agrotóxicos: especialistas debatem políticas públicas e vigilância em saúde nos dias 16 e 17 de julho

Nos dias 16 e 17 de julho de 2026, a Faculdade de Saúde Pública da USP sediará o workshop internacional Agrotóxicos e Vigilância em...

Leia tudo

CARTA PAULISTA PELA RECONSTRUÇÃO DA GOVERNANÇA AMBIENTAL

APRESENTAÇÃO O Estado de São Paulo foi protagonista na construção da política ambiental brasileira. Ao longo de décadas consolidou instituições técnicas, fortaleceu a...

Leia tudo

Parque Villa-Lobos: quando um parque urbano passa a ser tratado como um centro de eventos

Concluímos um Laudo Técnico Urbanístico e Ambiental sobre os impactos decorrentes da concessão dos Parques Villa-Lobos e Cândido Portinari, resultado de meses de...

Leia tudo

Mortes por terremotos na Venezuela chegam a 2,6 mil

Subiu para 2,6 mil o número de mortos em decorrência dos dois terremotos de 24 de junho na Venezuela. Os feridos somam 12,7...

Leia tudo

Árvores gigantes de florestas tropicais superam limites físicos para transportar água até o topo

Contrariando um paradigma da botânica, uma pesquisa divulgada hoje na revista Science revelou que as árvores gigantes das florestas tropicais – com altura...

Leia tudo

Descubra mais sobre AMBIENTEDOMEIO ®

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo