Conservação de Tartarugas Marinhas em Cananéia

PROJETO VISA VALORIZAÇÃO DO CONHECIMENTO ECOLÓGICO DA COMUNIDADE PESQUEIRA ARTESANAL DE CANANÉIA

Projeto e redação – Natália Cristina Fidelis Bahia e Ana Cristina Vigliar Bondioli, biólogas, pesquisadoras do Projeto Tartarugas vinculado ao Instituto de Pesquisas Cananéia.  

pesca3Dependentes de recursos aquáticos nas suas atividades de pesca e extrativismo, as comunidades caiçaras passaram a explorar ambientes marinhos, estuarinos e de água doce de forma peculiar, adquirindo um detalhado conhecimento sobre a dinâmica do ecossistema no qual estão inseridos. Esse conhecimento local é um conjunto cumulativo de saberes e crenças (tais como, relação dos seres vivos entre si e com o meio ambiente, práticas pesqueiras, entre outros) transmitidas culturalmente (de forma oral) nas comunidades de pescadores artesanais com a função de assegurar a reprodução do seu modo de vida.

Entender estas formas distintas de conhecer, explicar e atuar no mundo; por isso, não menos válidas, significa muitas vezes ter orientação e sustento do funcionamento de sistemas de manejos comunitários, mais sustentáveis e de maior sucesso em suas aplicações. Um exemplo é o estudo, iniciado em 2006, por pesquisadores o Instituto de Pesquisas de Cananéia (IPeC) na região de Cananéia descrito a seguir. 

A interação do cerco-fixo com as tartarugas marinhas na visão caiçara – A região de Cananéia, localizada no litoral sul do estado de São Paulo, devido à presença de diferentes ecossistemas, abriga uma grande riqueza de espécies animais e vegetais; além de constituir um importante viveiro natural para os diferentes organismos aquáticos, dentre eles, as tartarugas marinhas.

As tartarugas marinhas, por muito tempo, tanto forneceram sustento nutricional e econômico para muitas comunidades costeiras; como enriqueceram as crenças religiosas de antigas civilizações; ações que causaram grandes diminuições nas populações destes animais ao longo do tempo. Atualmente, os principais fatores que afetam a sobrevivência desses animais são o aumento da pressão das artes de pesca e as alterações do meio ambiente.

No Brasil, a partir da década de 1980, com o aumento da preocupação da conservação da natureza, foram criadas leis que proíbem tanto a pesca, utilização e o comércio desses animais bem como a coleta de seus ovos. Mesmo com este esforço, todas as espécies encontradas na costa brasileira ainda estão catalogadas pela União Internacional para Conservação da Natureza como ameaçadas de extinção.

A riqueza de recursos presentes na região de Cananéia proporciona uma importante atividade econômica para a região, principalmente para os pescadores artesanais locais. O cerco-fixo (Figura 01) foi implantado na região durante a década de 1940 e hoje é a principal arte de pesca utilizada no estuário. Esta armadilha caracteriza-se por ser fixa, um tipo de “curral”, construída dentro do estuário, que além dos peixes, é comum a captura de tartarugas marinhas juvenis.

a) Foto do cerco-fixo visto de cima; b) Pescadores retirando o peixe do cerco-fixo.
Figura 01: a) Foto do cerco-fixo visto de cima; b) Pescadores retirando o peixe do cerco-fixo.

O estudo realizado na região demonstrou que, sob o ponto de vista de muitos pescadores, as tartarugas marinhas, assim como os peixes, nadam a favor da maré, encontram a espia do cerco-fixo (que funciona como uma barreira), acabam entrando na armadilha e não conseguem sair dela, ficando presas.

Eles acreditam que elas se aproximam das armadilhas para se alimentar das algas incrustadas nas taquaras mais antigas, tanto que em armadilhas mais novas, dizem que as tartarugas marinhas não são capturadas ou são capturadas em menor freqüência. Outros mencionam que elas margeiam os cercos-fixos por acompanhar os cardumes de peixes de pequeno porte para se alimentar.

Para a maioria dos pescadores, as tartarugas marinhas não prejudicam a atividade pesqueira, pois não se alimentam de peixes de alto valor comercial e dificilmente estragam as armadilhas.

Em relação às condições dos animais capturados, os cerqueiros contam que as tartarugas marinhas não se machucam ao serem presas no cerco-fixo:

“Elas não se machucam, ficam rodando, mergulhando, boiando dentro dele até que a gente tire elas na despesca” (relato de um dos pescadores entrevistados).

 

 

 

 

Informações como estas nos mostram que os pescadores ao explorar o ambiente, adquirem conhecimentos bastante refinados a respeito de sua relação com os seres vivos e com o ambiente em que vivem. Este conhecimento é uma ferramenta de extrema importância para a tomada de decisões, principalmente no que se refere às questões ambientais e à construção de sistemas de manejo da natureza condizente com a realidade das comunidades; representando uma potencial parceria nos estudos para a conservação de diversas espécies. Exemplos preciosos são encontrados na fala dos próprios pescadores:

 “Ela é um vivente que não pode ser maltratado como a gente. Tem que respeitar a vivência dela”.

Texto enviado por Bárbara de Aquino

 

 

 

Tartarugas sendo retiradas de cercos-fixos com auxilio da rede de despesca.
Figura 02: Tartarugas sendo retiradas de cercos-fixos com auxílio da rede de despesca.

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