Da ecologia à socioambiental

REDE: FÓRUM AMAZÔNIA  SUSTENTÁVEL

Por: José Eli da Veiga

A maioria das pessoas age segundo convicção bem explicitada pelo chefe-de-gabinete do presidente Lula: meio ambiente até pode ser importante, mas não é decisivo.  Nem chega a surpreender, então, que a cúpula palaciana sempre prefira soja se a alternativa for “um cerradinho”.  O que poderia ser melhor que esse pejorativo desprezo pelo bioma cerrado para rebaixar a dimensão ambiental diante da social?  Afinal, a primeira só pode mesmo parecer bem menos decisiva que a segunda sob a ótica política imediatista, embora seja grave equívoco estratégico, decorrente de ignorância histórica.

Não há certeza sobre o que realmente ocorreu há cerca de 50 mil anos, quando a jovem espécie humana deu a volta por cima, após sacudir poeira acumulada nos milhões de anos que a separavam do último ancestral comum de chimpanzés.  Faltam evidências suficientes para que se tome como incontroversa a tese biológica de que a aurora da humanidade moderna foi determinada por uma mudança cerebral provocada por mutação genética.

Todavia, é o inverso que se aplica à constatação de que a partir daí a cultura foi se tornando tão poderosa que virou a mesa: passou a influenciar o rumo da evolução biológica, retardando-a.  Reduziu as diferenças entre genes bem-sucedidos e fracassados, dificultando as mudanças por seleção natural.  E em prazo que na escala evolucionária não passa de um piscar de olhos, os humanos foram paulatinamente ocupando todos os cantos do planeta, alterando a evolução de milhões de outras espécies e demonstrando incomparável capacidade de adaptação.

Não é difícil perceber, então, que a sociedade mantém com o chamado meio ambiente uma relação cujo cerne é justamente esse formidável processo de adaptação à imensa variedade de ecossistemas.  Daí ser inadmissível em termos científicos qualquer raciocínio que não se baseie no entendimento da evolução, seja ela mais social, ou mais ambiental.  Só que tal insuficiência continua bem recorrente, principalmente entre as chamadas ciências humanas, mas também nas naturais.  Ambas mostram certa incapacidade de entender como metabólicas as relações que os humanos estabelecem com a natureza.  Pior, contribuem para aprofundar a falha metabólica resultante da revolução industrial, ao nutrirem a ilusão de que a segunda lei da termodinâmica seja algo de muito específico e pouco significativo.

Não será uma simples troca semântica, “socioambiental” em vez de “ecológica”, que acabará com o reducionismo econômico no ensino/pesquisa

Todas as formas de energia são gradualmente transformadas em calor que acaba ficando tão difuso a ponto de se tornar inútil.  E não há organismo vivo que não esteja sujeito a esse fenômeno, chamado de entropia crescente.  Ela precisa ser compensada pela extração de elementos de baixa entropia disponíveis no meio ambiente.  E um dos maiores sucessos adaptativos da humanidade foi justamente sua capacidade de extrair a baixíssima entropia contida nas energias fósseis, como carvão, petróleo e gás.  Mas que também se revelou a principal causa do aquecimento global, fenômeno que paradoxalmente dificultará a adaptação, tendendo a acelerar o processo de extinção da própria espécie.

Bem antes disso certamente surgirão formas mais diretas de exploração da energia solar, e talvez também a fusão nuclear.  Mas nada poderá contrariar o segundo princípio da termodinâmica, que muito provavelmente exigirá a descoberta de vias de desenvolvimento humano que sejam compatíveis com o decréscimo da produção material, o contrário desse crescimento econômico medido pelo PIB que hoje aparece a muitos como uma espécie de lei natural.  E se a humanidade resistir em abrir mão de vulgaridades que prejudicarão a vida de futuras gerações, estará confirmando sua opção preferencial por uma existência mais excitante, mesmo que bem encurtada.

Só pode ser mera coincidência que comece pela letra “e” esse par de palavras-chave que mais evidencia as atuais limitações das ciências, principalmente as sociais aplicadas: evolução e entropia.  Com grande destaque para aquela pequena parte do conhecimento econômico que pode ser considerado ciência, já que todas as suas dimensões práticas, ou normativas, pertencem de fato à ética.  Mas certamente não é coincidência que duas singelas manifestações da reação a esse retardamento ocorram na USP praticamente em simultâneo.  A revista “Estudos Avançados” 22 (63), que está para ser lançada, trará um interessante dossiê sobre “Evolução Darwiniana e Ciências Sociais”.  Poucas semanas depois da defesa de dissertação sobre a entropia, de autoria do economista e agora mestre em ciência ambiental Andrei Domingues Cechin: “Georgescu-Roegen e o desenvolvimento sustentável”.

São dois modestos e concomitantes sinais de um mesmo movimento de renovação do pensamento científico que ainda não decolou porque esbarra em fortíssima inércia dos compartimentos estanques criados pelas diversas disciplinas em suas respectivas fases de afirmação.  No caso da economia, por exemplo, foi necessário reduzir o sistema econômico exclusivamente às trocas de curto prazo entre os agentes, pois a inclusão do tripé darwiniano (variação, herança e seleção) e da termodinâmica (entropia) engendra necessariamente uma complexidade com a qual é mesmo dificílimo lidar.

Parecia ter sido esse o desafio assumido em 1988 pelo pequeno grupo de pesquisadores que fundou a Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE).  Entretanto, dois decênios de publicação regular de seu periódico “Ecological Economics” evidenciam as imensas dificuldades epistemológicas dessa mudança paradigmática.  Os artigos ali publicados pouco têm a ver com a ruptura que teria sido provocada por uma real incorporação dos conceitos de evolução e entropia.  Ao contrário, fortalecem a abordagem convencional ao adotarem, por exemplo, a suposição de que tudo possa ser precificado.

Claro, não será uma simples troca semântica – socioambiental em vez de ecológica (ou ainda pior “ambiental”) – que poderá garantir a superação do reducionismo econômico na pesquisa e no ensino.  Mas terá a vantagem de retirar a questão dessa espécie de “banho Maria” em que permanece há 20 anos.

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