Financiamento coletivo na ciência promove interação com a sociedade

Por Fernanda Grael  – Labjor

Uma das maiores barreiras de um pesquisador na hora de colocar um projeto na prática é a burocracia e a falta de financiamento. Os editais governamentais disponíveis normalmente são muito restritos e específicos, e projetos que fogem do tradicional comumente são rejeitados. As plataformas de crowdfunding, ou financiamento coletivo, são uma oportunidade de mudar esse cenário, ajudar pesquisadores, e, ainda, promover a comunicação de tópicos científicos para a sociedade.

A ideia é não apenas divulgar a ciência, como também torná-la participativa, de modo que qualquer um possa contribuir com um projeto e até receber recompensas por isso. É o que diz a pesquisadora da Unesp Samantha Sasha de Andrade, que atualmente realiza um estudo sobre o tema. “A importância do crowdfunding está na possibilidade de participação da sociedade. A quebra das barreiras geográficas e a utilização do meio digital para a transformação de ideias em algo real, sem mediação, é o que beneficia a ciência. Em outras palavras, poder contribuir para um projeto em outro estado, mesmo com uma pequena quantia, e receber como recompensa resultados de pesquisa, talvez mude a concepção que se tem de ciência hoje no país”.

O sistema de recompensas é, segundo Andrade, um dos fatores que levam as pessoas a contribuírem. Porém, as contribuições na área científica ainda não são tão numerosas como as de outras campanhas. “O site Catarse fez uma pesquisa com seus usuários e uma das questões foi ‘qual área você tem interesse em contribuir’. O resultado mostrou que 64% têm interesse em apoiar projetos de educação, mas apenas 48% projetos de ciência. Isso, para mim, mostra que as pessoas desconhecem os benefícios e o reflexo que a ciência tem na sua vida”, complementa a pesquisadora.

No Catarse, de 81 campanhas na área de ciência e tecnologia, apenas 26 obtiveram sucesso. Por isso, ainda há um longo caminho a trilhar para despertar maior interesse nas pessoas sobre a área, para que elas percebam a importância de investir.

A primeira vez da ciência no Catarse

Em 2013, foi financiado o primeiro projeto de ciência do Catarse, o “Genoma do mexilhão dourado”. O objetivo da criadora da “vaquinha virtual”, uma bióloga da UFRJ, era sequenciar o material genético de uma espécie de mexilhão que chegou ao Brasil em navios chineses, extremamente invasiva e danosa para o bioma brasileiro. Por meio do sequenciamento, a ideia era descobrir como combatê-la e impedir que se espalhasse ainda mais.

A meta de R$ 40 mil da campanha, cujas recompensas incluíam até ter seu próprio nome dado a um gene, foi até ultrapassada (R$ 40.736). Além de incluir as pessoas diretamente na pesquisa, teve como mérito promover a educação científica.

Em setembro de 2015 foram nomeados os primeiros genes do mexilhão, e a pesquisa continua – atualmente é financiada pelo governo federal e por mais 361 pessoas, e pode ser acompanhada pelo site Improviso Científico.

Vaquinha virtual para outros projetos científicos

Foi inspirado no projeto do mexilhão dourado que o biólogo e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Marcos Vital, juntamente com a bióloga Gracielle Higino e a equipe do Laboratório de Ecologia Quantitativa da universidade, pensaram no projeto “Ciência livre: ecologia e bioestática para todos”.

O objetivo era conseguir recursos para elaborar e divulgar gratuitamente material didático sobre a bioestática, matéria que, pela complexidade, gera dificuldade para alunos de universidades. Os autores também pretendiam criar e manter um blog sobre divulgação científica e ecologia, que pudesse ser lido por qualquer pessoa, com ou sem formação científica. “Queremos ajudar estudantes e pesquisadores de todo o país, formar bons cientistas e tornar a divulgação parte da rotina no nosso laboratório. Esperamos que o blog seja um meio de aproximar as pessoas da universidade e da ciência de modo geral, e que as ajude a exercer o pensamento crítico”, diz Higino.

Como o projeto é muito amplo, ele dificilmente se encaixaria nos editais tradicionais, por isso foi criada uma campanha na plataforma Kickante. A campanha terminou em novembro e arrecadou cerca de R$ 10 mil reais. A meta inicial eram R$ 13 mil, mas como a campanha era flexível (e não na modalidade “tudo-ou-nada”), eles receberam o valor arrecadado.

“O crowdfunding permitiu algo que não aconteceria com um edital de pesquisa tradicional: envolver as pessoas no projeto desde o início. Todo o processo de criação da campanha e de comunicação (página no Facebook, blogs etc) envolveu os alunos do laboratório de maneira muito intensa, o que é fantástico para a formação deles. E, de um ponto de vista mais amplo, pudemos já envolver as pessoas que serão nosso alvo na produção de material didático desde essa etapa do financiamento”, diz Vital. O projeto pode ser acompanhado pelo Facebook.

Outra campanha no Kickante que chamou atenção recentemente foi a da neurocientista Susana Herculano-Houzel, dona de um currículo de destaque – ela assinou, recentemente, artigo publicado na revista Science. Mesmo com seu grande reconhecimento, Herculano-Houzel teve que parar suas atividades no Laboratório de Neuroanatomia Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), devido à falta de financiamento do governo. Isso fez com que ela criasse a campanha “Contribua com a pesquisa científica no Brasil”. Bem-sucedida, arrecadou mais de R$ 100 mil. Com o valor, pretende retomar os trabalhos e também realizar palestras gratuitas em universidades de vários estados.

Perspectivas futuras

Para Samantha Andrade, dois aspectos deixam a desejar no crowdfunding: a desconfiança do brasileiro nos métodos de pagamento digital e a falta de regulamentação. “O crowdfunding não possui regulação no Brasil, o que significa dizer que tanto o doador quanto quem busca o financiamento não possuem suporte legal (e fiscal) sobre as transações. Isso, aliado à desconfiança da sociedade em utilizar o meio digital para pagamentos, dificulta o processo de difusão dessa forma de financiamento”, ressalta.

A pesquisadora explica que, nos Estados Unidos, a plataforma Experiment, exclusiva para projetos científicos, conta com o apoio de 71 universidades e facilita o trabalho do pesquisador. “A estrutura do site permite que o pesquisador disponibilize um projeto – com metodologia, orçamento, objetivos e justificativas – como o que fazemos para Fapesp ou CNPq, por exemplo. Lá é ainda mais difícil obter financiamento para pesquisas por agências financiadoras, e o crowdfunding surgiu como uma grande oportunidade”.

O modelo de crowdfunding, em geral, é novo, e ainda existe muito a ser descoberto e explorado. Além de ser uma forma de participação direta da sociedade na ciência, é uma saída para muitos obstáculos com os quais os pesquisadores se deparam ao longo de suas pesquisas: burocracia e restrição de editais, tudo isso somado ainda a uma crise financeira no país.

Marcos Vital acrescenta que qualquer nova possibilidade de arrecadação de verba para pesquisa científica é positiva, e pode ser somada aos meios tradicionais já existentes. “O financiamento coletivo voltado para a ciência ainda é novidade aqui no Brasil, mas acredito que, com o avanço na divulgação e educação científica, mais pessoas se interessarão e entenderão como a ciência é importante, e, com isso, o crowdfunding pode crescer ainda mais nessa área”, finaliza a bióloga Gracielle Higino.

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