O lugar do jornalismo no século XXI

Por Rosemary Bars Mendez – Labjor

Há uma crise no jornalismo? Não. Há uma crise na empresa jornalística e na maneira como ela conduz seus negócios, envolvendo aí o jornalismo como um produto, uma prática comercial que vende a informação em busca de audiência, num verdadeiro processo de manipulação para atrair a atenção do receptor. A atual conjuntura vivenciada pelo setor também está ligada à maneira conservadora de administração, incapaz de acompanhar as transformações sociais por meio das tecnologias que se renovam com intensa velocidade.

O empresário, por tradição familiar, aprendeu a manter o gerenciamento numa linha que se dividia entre jornalismo e publicidade, com lucros significativos para ampliar o seu patrimônio e seus investimentos. Para obter os ganhos considerados necessários, seu principal produto, o jornalismo, aparecia embalado na sua linha editorial, ajustado para atender os interesses do mercado econômico, dos anunciantes e de setores da política. A prática sempre lhe garantiu o retorno esperado, porque a receita cumprida à risca nunca desandou o bolo na participação dos lucros. Nesse processo, a redação sempre foi comandada para atender essas premissas editoriais, contaminada pelos ares emanados das instâncias superiores e respirados por profissionais envolvidos nessa burocracia empresarial que domina as redações.

Mas os tempos mudaram. Os empresários da área não se atentaram aos sinais dados pela tecnologia e se viram, nos anos 1980 e 1990, envoltos em questões que não sabiam como resolver. Tudo começou nos anos 1960, com as pesquisas realizadas nos institutos norte-americanos com objetivos de se obter uma comunicação em rede, inicialmente voltada à segurança nacional, durante o momento histórico da Guerra Fria. Os passos científicos daquela década representaram os primeiros avanços que transformariam o mundo com futuras inovações. A televisão alterava o comportamento das famílias, os jornais modificavam seus textos de opinativos para informativos e o rádio era o acompanhante fiel, principalmente, das donas-de-casa.

Em sete anos, entre 1990 e 1997, a internet era uma realidade nos centros de pesquisas, nas universidades, nas empresas e começava, mesmo que por alto custo, a integrar o cotidiano doméstico. Um cenário muito diferente da revolução de Gutenberg, que no século XV, inventou a prensa e deu vida aos jornais impressos. Mas para torná-lo comum aos cidadãos, foram necessários cerca de 400 anos.

Com a internet e as transformações tecnológicas a partir dela, o sujeito passivo, que lia o jornal em casa ou ficava horas sentado em frente à televisão, mudou sua conduta. Os jornalistas passaram rapidamente da condição de mediar o teor da informação a ser transmitida que dominavam, a competir e conviver com alternativas comunicacionais criadas pelo mundo da web, que possibilitam ao receptor ter ações ativas na transmissão da informação, de contraposições, de opiniões, com comentários e compartilhamentos, reduzindo o domínio empresarial sobre o conteúdo veiculado pela empresa jornalística.

O resultado foi imediato, com a queda das assinaturas dos meios tradicionais (jornais e revistas) e a redução do volume de publicidade como consequência; houve redução no índice de audiência da televisão, pela diversidade de canais disponibilizados pelo mundo digital, muitos gratuitos para o internauta, que tem em mãos um celular ou um tablet com capacidades múltiplas de armazenamento de dados, para obter informações a qualquer hora, sobre qualquer lugar ou fato, sem ter que estar inerte, apenas vendo e ouvindo ou virando páginas e páginas impressas.

O mundo digital mudou o comportamento social, hoje mais dinâmico. O internauta seleciona os canais, os endereços ou as pessoas que segue. Ele escolhe, seleciona informações ligadas ao seu interesse e se manifesta contrário aos jornais que consideram manipular a opinião pública. Essa diversidade de opções dadas pela tecnologia tirou os empresários da mídia da zona de conforto que se encontravam até final do século XX.

O relatório Digital e Mobile de 2015, divulgado pela agência de marketing social We Are Social, mostra que o Brasil é o terceiro país do mundo que passa mais tempo na internet. Entre os 204 milhões de brasileiros, 54% são usuários ativos da internet, que permanecem em média 10 horas por dia conectados, sendo sete horas nas redes sociais, contra cinco horas diárias assistindo televisão.

A era digital permitiu que em 2014 fossem registrados mais de um bilhão de websites, contra os três mil que existiam em 1994. Um salto representativo em apenas 20 anos, o que afetou o cérebro das empresas jornalísticas, por elas não refletirem sobre os possíveis impactos advindos dos processos tecnológicos e da inclusão digital, por quebrar as fronteiras geográficas pela desterritorialização, reduzindo as distâncias entre os povos. Hoje, podemos navegar pelo mundo pesquisando e conhecendo os fatos cotidianos, ler notícias de vários países pelo celular. O único impedimento é cultural, ou seja, dominar a língua estrangeira.

As transformações vivenciadas pela sociedade integram a própria evolução do homem e seu modo de vida, muito bem explicadas pela história, pela sociologia e áreas afins. O certo é que o mundo do século XXI ainda está em constantes modificações pelas inovações sempre anunciadas pela área tecnológica; as empresas jornalísticas buscam uma saída para reinventar-se como negócio. Haverá o momento em que as demissões de profissionais gabaritados terão que ser encerradas e as empresas deverão repensar a estrutura da redação e o modelo de negócio que gerenciam, a fim de recuperar a qualidade jornalística e a credibilidade no trabalho apresentado ao público.

Somente em 2015, foram demitidos 1.400 jornalistas das redações tradicionais, o que representa um impacto na qualidade do conteúdo editorial, com a justificativa de que a economia está em baixa e isso teria afetado a receita das empresas pela redução do número de leitores ou na queda da publicidade. Na realidade, hoje há inúmeras possibilidades para se obter uma informação, além de qualquer um poder emitir opinião, participar da construção do conteúdo a ser difundido. A web permite ao usuário acompanhar o noticiário em vários sites e comparar o que está sendo veiculado pela mídia.

A resposta para esse cenário é a prática do jornalismo em sua essência. É possível afirmar que, historicamente, o jornalismo nunca entrou em crise e continua a ter seus princípios e fundamentos éticos íntegros. Para isso, é necessária uma bússola que oriente a separação da empresa jornalística da função do jornalista, pois são questões distintas, nem sempre perceptíveis pelo público. É possível fazer bom jornalismo independente da linha editorial de uma empresa de comunicação, garantir idoneidade no jornalismo opinativo em blogs, como fazem Paulo Henrique Amorim, Leonardo Sakamoto, Luís Nassif, Fernando Rodrigues, Josias de Souza, Jânio de Freitas, entre tantos outros profissionais não tão renomados no mercado editorial, que não pendem suas posições diante das estruturas empresariais e políticas. Opinião com capacidade de análise e reflexão sobre os fatos cotidianos sem interferência interna da burocracia de uma redação, com profissionais que buscam espaço na web de maneira independente, com seguidores que participam, interagem e compartilham suas ideias.

O jornalismo sempre foi e será a maneira de se obter informações sobre o cotidiano e, assim, garantir conhecimento sobre um fato até então desconhecido, como a transmissão do vírus da gripe H1N1 ou o nascimento de bebês com microcefalia por causa de infecções causadas pelo zika vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo transmissor da dengue e da febre chikungunya. Dessa forma, o jornalismo, desde a sua origem, representa uma forma de se ter uma informação que agrega conhecimento sobre fatos que envolvem a sociedade. É por isso que sempre trabalha com temas atuais, porque são estes que trazem a novidade sobre os acontecimentos diários, sobre descobertas científicas, procedimentos jurídicos ou políticos, sobre a economia e manifestações sociais. Ligado aos interesses da coletividade, o jornalismo observa os fatos mais impactantes para o cidadão, que podem repercutir em sua vida, como a alta dos preços da cesta básica ou da energia elétrica, mas também está atento aos assuntos internacionais, como guerras, conflitos, eleições ou os processos econômicos de outros países, em função da globalização. Assim, as notícias alimentam os veículos de informação, as redes sociais, os blogs jornalísticos pelo valor que o fato tem para a sociedade, pelo impacto, relevância ou por sua representatividade para a humanidade.

A expectativa para o jornalismo neste século também está ligada à mudança do método de produção da notícia, com ações mais colaborativas dos internautas, auxiliando na construção do conteúdo a ser veiculando. Vivencia-se uma nova cultura, a multimidiática, que se integra às ações jornalísticas ao criar espaços para difusão da informação em todas as plataformas, reunidas num portal. Um jornal tradicional hoje está na web e utiliza vídeo, texto, foto e processos de compartilhamento do material publicado; tem espaço no Facebook, tem jornalistas blogueiros, está no Twitter.

O jornalismo é o mesmo: tem metodologia de apuração, de verificação da procedência da informação, avaliação da fonte, processos para checagem dos dados coletados para respeitar os princípios da veracidade, sem contar o comportamento ético que garante ao profissional a credibilidade para o trabalho que desenvolve. Hoje, o repórter tem mobilidade para produzir a informação de qualquer lugar a qualquer hora, postando a informação em tempo real, atualizando-a sempre que houver um fato novo, e o usuário conectado a receberá instantaneamente. Os meios tradicionais, como o rádio, a televisão e o impresso continuarão com seus espaços no mundo editorial, mas todos estarão vinculados ao mundo da web para sobreviverem como empresa e conseguirem atender a diversos perfis de pessoas.

A interatividade permitida aos usuários aproxima o internauta do jornalista, que tem a visibilidade de seus posts e seguidores de suas publicações em blogs, Facebook ou Twitter como referência de sua credibilidade profissional. O monitoramento das visitas realizadas pelos internautas, ao clicarem no link de uma notícia ou curtirem e compartilharem uma foto, garante a audiência necessária para se conseguir a publicidade que sustenta a redação de um portal. Esse movimento, a migração da publicidade dos meios tradicionais para a internet, já é visível. Em 2015, o investimento na publicidade digital teve um crescimento de 15% em relação a 2014, o que representou um volume de R$ 9,5 bilhões, segundo pesquisa divulgada pela Interactive Advertising Bureau (IAB) Brasil. Isso explica porque as empresas jornalísticas estão buscando caminhos multimidiáticos para a divulgação de suas notícias.

Os espaços da internet estão abertos para as produções jornalísticas de qualidade. Há vários sites que se construíram independentes dos braços de empresas tradicionais e conseguem financiamentos de fundações ou do próprio público, que patrocina projetos considerados relevantes pelo sistema crowdfunding, também conhecido como “vaquinha virtual”. Esse trabalho é a alternativa que referencia a capacidade empreendedora de jornalistas com autonomia para atuar no mercado, e a tendência é a sua ampliação, já que o mercado tradicional está cada vez mais enxuto.

Essa é uma nova cultura jornalística, que nasceu no mundo digital e vivencia a realidade virtual. Um exemplo dessa prática é a Pública – Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo (http://apublica.org/), pioneira no Brasil, que aposta no jornalismo sem fins lucrativos; atua com reportagens voltadas para questões que afetam a vida do brasileiro (política, economia, direitos humanos), chamadas de “produção de fôlego”, para sair do agendamento convencional da cobertura diária, com acesso livre para o internauta. A proposta é também investir em jovens jornalistas, por acreditarem na atuação do repórter na sociedade. O financiamento vem da Fundação Ford, Oak Foundatión, Porticus e Open Society Foundations, além do crowdfunding.

Assim como a agência Pública, há alternativas na web criadas por jornalistas que deixaram as redações tradicionais e investem em sites que denominam como independentes e colaborativos. Alguns deles são direcionados para públicos específicos, como o Amazônia Real (http://amazoniareal.com.br/), voltado para questões ambientais, indígenas e reforma agrária; ou o Risca Faca (http://riscafaca.com.br), que apesar do nome ser um pouco estranho, tem por objetivo contar histórias de personagens que consideram interessantes e fugir da cobertura que acompanha as redes sociais. Aos Fatos (http://aosfatos.org/) é produzido por profissionais experientes que construíram a primeira plataforma multimídia brasileira voltada à verificação do discurso público, ou seja, checar se o político está falando a verdade e quais são os interesses envolvidos em sua fala. Por isso, não aceitam financiamento de qualquer origem estatal. Outra referência é O Brio (http://brio.media/), com reportagens que contam histórias de vida de personagens que dialogam com a realidade brasileira e mundial, num contraponto às notícias rápidas do jornalismo diário.

A criação da internet e as dezenas de possibilidades de se produzir uma notícia ou reportagem multimídia no mundo da web mudou o sistema dominado pelas empresas jornalísticas e, aos poucos, elas vão percebendo que há concorrência no espaço virtual com produções de qualidade. As empresas tradicionais podem dominar os grupos de comunicação, num verdadeiro monopólio da informação, mas há novos horizontes para o jornalista, porque há terreno fértil no mundo digital a ser explorado pelo jornalismo ético, com técnicas de apuração refinadas e com boas histórias para serem contadas.

Com as tecnologias, além de potencializar o ritmo e a quantidade de informações disponibilizadas ao público, o jornalismo tem outro horizonte à sua frente, a segmentação. Há uma expansão de títulos que podem ser produzidos para públicos específicos, especializados em determinados temas, como agronegócio, que teve uma participação de 23% no PIB do país em 2015 contra os 21,4% em 2014. É um mercado em expansão, que busca informações jornalísticas sobre a área, como negócios, economia, investimentos ou mesmo sobre a situação do produtor rural brasileiro.

Com a multiplicidade de mídias, permitida pela tecnologia, e com a possibilidade de se produzir revistas ou jornais segmentados, as perspectivas para o jornalismo nas próximas décadas é de pleno desenvolvimento. A receita para um bom jornalismo, Cláudio Abramo já publicou nos anos 1970: “O jornalista deve ter uma formação cultural sólida e tem que saber muito bem algumas coisas. Ele deve saber história, saber como funciona seu país, a máquina do país, as relações na sociedade”, ingredientes essenciais indicados para o velho e para o futuro jornalismo.

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