Holocausto Brasileiro: Os saltos do canguru nos canaviais alagoanos

Por: Ana Marina Martins de Lima/Ambientedomeio

Demorei dois meses para realizar a leitura deste trabalho pois li com os “olhos do coração”.

Arquivo pessoal de Ana Marina Martins de Lima
Arquivo pessoal de Ana Marina Martins de Lima

Quando abri o arquivo para a leitura me debulhei em lágrimas logo no início tenho aqui uma empatia; minha mãe trabalhou nos canaviais alagoanos no local descrito a partir de 12 anos de idade e aos 14 quando minha vó faleceu tirava dos canaviais o sustento para cuidar dos irmãos pequenos. Faleceu em São Paulo aos 54 após um transplante renal, teve uma vida de pouca saúde com sintomas descritos no trabalho a seguir.

Os trabalhos acadêmicos são ricas fontes de informação para uma justiça humana, para proteção do meio ambiente e para atingir-se uma meta de uma economia sustentável e ter-se governos politicamente corretos.

Sobre a tese:

Trata-se da tese de doutorando de Lúcio Vasconcellos de Verçoza apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos, como parte dos requisitos exigidos para obtenção do título de doutor em Sociologia sob orientação da: Profa. Dra. Maria Aparecida de Moraes Silva com financiamento da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais) e FAPESP ( Fundação de Amparo a pesquisa do Estado de São Paulo)  intitulada: Os saltos do “canguru” nos canaviais alagoanos: Um estudo sobre trabalho e saúde; que resultou de uma coletânea de informações sobre o mundo de trabalhadores do campo que dão sustentação a agroindústria canavieira alagoana e os reflexos do trabalho na saúde dos trabalhadores.

Segundo o autor o objetivo principal foi contribuir para as reflexões acerca do nexo causal entre o adoecimento e o trabalho do corte da cana onde foram encontradas doenças de ordem física e psíquica.

O estudo foi realizado tendo como instrumento a pesquisas de campo e entrevistas com cortadores de cana, ex-moradores de engenho, trabalhadores desempregados por causa do adoecimento, cabos (fiscais), gerente de usina, médicos, dentre outros informantes-chave; além disso, foram efetivados: teste ergométrico, monitoramento da frequência cardíaca durante o trabalho, aplicação de Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares e avaliação física – procedimentos realizados com a colaboração de médicos e educadores físicos –. As entrevistas foram norteadas pela metodologia da história oral.

O estudo foi realizado no município alagoano de Teotônio Vilela, lugar de concentração de um grande número de trabalhadores empregados em diversas usinas do sul de Alagoas.

Segundo o autor: “os dados encontrados nos direcionam para a existência de relação direta entre o trabalho nos canaviais e o esgotamento prematuro das energias físicas e espirituais dos trabalhadores”

Foi relatado que durante o trabalho foram encontrados es trabalhadores que conviviam com dores, câimbras, cicatrizes no corpo e na alma; as tarefas são realizadas sob o Sol quente, muitas vezes em meio a fuligem proveniente da queima em um ritmo constante de agachamentos, cortes e carregamento das canas.

Iniciando o assunto:

De acordo com dados apresentados pelo autor: “O Brasil é o principal produtor internacional dessa matéria-prima e o estado de Alagoas é o sexto maior produtor nacional, e primeiro da região Nordeste, mas essa grandiosa imagem numérica, por si só, não revela como são produzidos os canaviais, não revela como são produzidas as pessoas que trabalham nos canaviais, não ajuda a compreender o porquê de tantas delas adoecerem e se acidentarem no trabalho.

Em 2012, 59% dos acidentes de trabalho registrados em Alagoas foram na agroindústria canavieira (3.334 acidentes), e desses, 65% foram com trabalhadores do cultivo ou colheita de cana – 2.190 acidentes. É válido mencionar que subnotificação de acidentes de trabalho ocorre com frequência nesse setor agroindustrial, portanto, o número de acidentes pode ser ainda maior do que os que foram registrados.

Nos canaviais brasileiros, até a década de 1960 e 1970 predominava o pagamento por feixe de cana. Nesse modelo, deveriam ser amarradas de 18 a 20 canas para formar um Com o avanço tecnológico, as máquinas carregadeiras foram incorporadas para acelerar o transporte das canas para as usinas e o pagamento por feixe perdeu o posto de predominante. Atualmente, o pagamento é por metro (ou braça) /tonelada. Apesar das particularidades de cada forma, ambas são salários por produção, pois, o salário está condicionado à quantidade de cana cortada. ”

Relato de alguns trabalhadores

corte-de-cana“Muitas vezes o meu pai até chorava quando se lembrava da época que morava na fazenda. E é muito diferente morar na cidade, quem mora na cidade é a mesma coisa de um passarinho dentro de uma gaiola, porque não tem para onde correr, é viver do jeito que Deus quer. Tudo que a gente come e que a gente bebe na cidade é comprado, se não tiver o dinheiro ele nem come e nem bebe. Já na fazenda era muito diferente, a gente não pagava a luz nas fazendas que tinham luz, nós apenas pagávamos o imposto do INSS, mas na rua você compra uma caixa de fósforos e nela já vem uns 15% de tributos. Hoje até para pisar no chão tem que pagar, se cuspir no chão tem que pagar. Hoje em dia se uma pessoa dissesse que me daria uma casa para morar em uma fazenda com tantas tarefas de terra para morar e plantar, eu daria graças a Deus! É por isso que hoje em dia a fome é de todo lado, por que muita gente não tem condições de trabalhar, muita gente tem a família grande e os pais já estão de idade e não tem condições de trabalhar. As empresas só ficham [assinam carteira de trabalho] a parti dos 18 anos e só ficam até os 40 anos, se passar dos quarenta não ficha. Então esse pai de família com mais de quarenta anos vai passar fome, porque vai ficar desempregado e a família vai passar fome”.

“Umas duas horas da tarde deu uma cãibra na coxa. Cãibra foi essa que eu caí no chão e comecei a gritar… quando o vizinho de eito chegou lá eu já estava todo entrevado. Apesar disso ter acontecido, ainda foram esperar os trabalhadores acabar, para poder a gente vir embora. Até por baixo da língua dava cãibra. Se eu fizesse qualquer movimento brusco que usasse algum nervo, dava cãibra. Costela, barriga… por todo canto, onde tem músculo, a cãibra pegou. Vomitei verde, bem verde mesmo: aquela água verde… Estado, digamos assim:de morte mesmo! Que chega a um ponto que a pessoa não sente nada. É tanta dor no corpo, que mais nada que aconteça a pessoa sente. […] Calado, justamente para não fazer força. Para não fazer nenhum movimento brusco. […] O desengano veio e a primeira coisa que eu pensei foi: se eu morrer eu não vou ver minha mãe de novo. Foi quando no meio de tanta dor veio o choro. Foi bem difícil mesmo. O desengano chega num momento, e é difícil de sair. O choro foi só lágrima. Porque nem força dava, quando bateu aquele tranco na garganta… [..] Uma teoria que o povo usa aqui… me enrolaram de borracha, que dizem que borracha acalma a cãibra. E de certa forma acalmou um pouco. Era borracha de câmara de ar. Amarraram nos meus braços, nas pernas, barriga, pescoço. É um negócio que não é de se acreditar muito, mas de certa forma acalmou um pouco.

Pesquisador: Já ouviu falar de algum cortador de cana que morreu por excesso de trabalho? E: Eu vi, a uns quatro anos atrás, que morreram duas pessoas, dois sertanejos em uma usina. E foi através do trabalho. P: Usina daqui de Alagoas? E: Sim, daqui de Alagoas. ”

“Pesquisador (P): O senhor já viu alguém desmaiar, ou ir para o hospital e morrer?

Entrevistado (E): Oxe, já vi muito! P: Já viu falecer também? Em decorrência do esforço? E: Dos tempos em que eu trabalhei só vi um. P: Faleceu? E: Faleceu, ele… P: Caiu no corte? E: Deu um negócio lá no serviço e levaram ele para o hospital. Quando ele lá, morreu P: Foi aonde isso? E: Isso aí foi na usina Seresta. P: Em que ano? Há quanto tempo atrás, mais ou menos? E: Tá com a faixa de uns dezoito anos. Por aí assim. Só foi quando eu vi. Agora, gente desmaiar assim, já vi um bocado. P: Como é que chama quando desmaia? E: Aí quando desmaia diz: “chega que o ‘canguru’ pegou ali o rapaz”. Já deu em mim esse tal de “canguru”. P: Já deu “canguru”? E: É um tipo de fraqueza que dá na gente, e chega cãibra por todos os cantos. As usinas não fornecem ao cara um “suquinho”, é (…) potente, assim de limão. Um negócio assim e outro. Eles não querem saber de nada, eles só querem a safra dele terminada. P: Quando deu o “canguru”, o senhor fez o quê? E: Fica lá no chão caído e pronto. P: Não foi para o posto não? E: Não. Eu não fui para o posto, não. Porque às vezes fica em um canto meio longe da usina, aí às vezes o rádio não chega, não tem ninguém ali para avisar. P: Nem mandaram ambulância? E: É. Aí o “canguru’ ali, ele dá e depois vai saindo de novo. P: Aí o senhor se recuperou lá mesmo? E: É, me recuperei no serviço mesmo. P: Mas voltou a trabalhar depois do “canguru”, no mesmo dia? E: Não. Voltei mais não. Porque não aguentava mais não. Passei dois dias sem trabalhar.”

O termo “canguru” dos trabalhadores canavieiros não significa o animal australiano, porém, uma sequela do excesso de trabalho.

Relato de um profissional médico:

 “Quando o trabalhador é submetido a uma carga de trabalho e seu físico não está acostumado, e se ele estiver debilitado ou se for portador de uma doença preexistente, uma cardiopatia, ele pode ter morte súbita se submetido a trabalho excessivo com sudorese. A transpiração excessiva provoca perda de eletrólitos, de sais do organismo. Se você pegar a camisa de um trabalhador ela chega a estar branca por causa da perda de sais. A cãibra é o primeiro sintoma de quando você tem distúrbios hidroeletrolítico. A cãibra é o acúmulo de ácido lático na musculatura. Ele fica todo contorcido, parece um possuído. Para você ter uma ideia, é quase como uma convulsão. E dói, dói muito aquilo. Um jogador de futebol, um atleta preparado quando tem cãibra ele é substituído. Imagine um trabalhador rural que se submete a uma rotina dura de trabalho. O tratamento correto é a hidratação com soro fisiológico. Existem usinas agora que fornecem um pó para misturar na comida para algumas perdas de vitaminas e proteínas. Eu nunca presenciei uma morte súbita por decorrência de distúrbio hidroeletrolítico, de cãibra. Geralmente, a pessoa chega morta no pronto socorro”.

A forma de trabalho:

“O processo de trabalho no corte de cana consiste, desde a década de 1970, perdurando até hoje, no fato de o trabalhador cortar toda a cana de um retângulo, com 8,5 metros de largura, contendo cinco ruas de cana (linhas em que é plantada a cana, com 1,5 metros de distância entre elas), por um comprimento que varia de trabalhador para trabalhador. Esse pequeno retângulo, contido no retângulo maior, que é o talhão, é chamado de eito pelos trabalhadores. O comprimento do eito varia, pois depende do ritmo de trabalho e da resistência física de cada trabalhador. Portanto, trata-se de um retângulo de cana com área variável, porque o comprimento é verificado, ao final do dia, quando o trabalho é concluído. É o comprimento do eito que será o ganho diário de cada trabalhador. Portanto, o que este receberá pelo dia de trabalho é-o comprimento do eito, medido em metros multiplicado pelo valor do metro. ”

jovem-canavieiroHoje é realizado o corte de cana em sete ruas, as vantagens do ponto de vista do usineiro se multiplicam. Em primeiro lugar, devido à forma como é recolhida e transportada para o caminhão, a cana é recebida sem impurezas, permitindo economia com a lavagem, além de maior rendimento industrial. O espaçamento entre as “bandeiras” é menor do que no método da cana amontoada e, portanto, em menos metros lineares de cana se colhe a mesma quantidade com consumo de combustível menor. A redução calculada no trânsito de máquinas é de 28,6%; com isto, os gastos com combustível podem ser reduzidos em 40%, além das evidentes vantagens quanto à compactação do solo”.

Para reflexão:

“As degradantes condições de vida e de labor dos trabalhadores da moderna lavoura canavieira, especialmente daqueles do corte manual da cana, muitas vezes suscitam o entendimento do cortador de cana de hoje como sinônimo de escravo. Caso essa forma de interpretação esteja correta, o trabalho degradante nos canaviais seria uma espécie de aberração, uma herança arcaica que estaria em descompasso com os parâmetros do trabalho assalariado. No limite dessa leitura, o usineiro contemporâneo seria senhor de escravos, e não um burguês.

“ Os trabalhadores do corte da cana, em Alagoas, recebem remuneração pela venda da sua força de trabalho, sendo esta a única mercadoria que esse trabalhador tem para vender e sobreviver, diferentemente do escravo que é a personificação de uma mercadoria. ”

“Pesquisador: Qual o sonho que o senhor gostaria de realizar?

Entrevistado: Rapaz, eu não tenho mais nenhum. Não tenho mais nada para realizar, é só esperar a hora de morrer mesmo”.

idade-dos-trabalhadores

Quais evidências podem ser utilizadas pelos nossos tomadores de decisões frente a esta situação?

O trabalho em canaviais deve ser considerado escravo, tendo-se em vista os resultados apresentados pelas entrevistas relatadas na tese, segundo o Brasil deve ter em sua bandeira uma ação mais humana para com sua população, isto sem dúvida seria um ganho maior à nível internacional do que qualquer lucro apresentado pela indústria do agronegócio.

O país deve ter crescimento econômico de maneira não exploratória de seu próprio povo.

O trabalho realizado somente manualmente é um trabalho que traz lucro para a empresa, mas a perca das vidas não são contabilizadas na matemática da economia não evoluída, não é considerado o benefício do uso das novas tecnologias pelos empreendedores, neste caso talvez fosse necessária uma medida judicial obrigando aos usineiros o uso de mecanismos que visem a proteção da vida do trabalhador e a proteção do meio ambiente, além de comunidades vizinhas.

De acordo com nossa Constituição a saúde é um direito, mas o que vemos neste caso é a total ausência de amparo nas estâncias da Saúde e do Trabalho.

Não deve ser esquecido os riscos evidenciados da fumaça inalada pelos trabalhadores e do contato direto com agrotóxico (exposição dérmica e inalatória).

Além dos exames médicos realizados, existem exames laboratoriais com custos menores que podem evidenciar as sequelas do trabalho como por exemplo verificação dos parâmetros de uréia e creatinina para verificar a função renal, parâmetros de enzimas hepáticas, verificação de eletrólitos e hemogramas.

Por fim: o ser humano é fortemente influenciável pelo mercado de propagandas: em contraste com as temáticas sociais da novela atual do horário “nobre” da Rede Globo o patrocinador é “agro” e as pessoas não estão atentas para o fato de que em feiras das periferias de São Paulo, por exemplo as laranjas dentre outros produtos apresentam um “pó branco”´ resíduo de agrotóxico, qual será o total de agrotóxico presente e quais podem ser encontrados em produtos derivados da cana-de açúcar?

Leia a tese:  Os saltos do “canguru” nos canaviais alagoanos: Um estudo sobre trabalho e saúde

Um comentário em “Holocausto Brasileiro: Os saltos do canguru nos canaviais alagoanos

  1. Marina, teu relato tão pungente, agregado a informações técnicas preciosas também me fez chorar. Obrigada por relatar mais esta omissão de nossos gestores. Quem (dos nossos políticos mimados de mordomias !) vai levantar essa bandeira e resolver esse problema de uma vez por todas?? Ivani Lucia Leme

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