Fratelli tutti e os artífices de um novo mundo

Por Francisco Borba Ribeiro Neto*

Quem é o protagonista da construção do bem comum e da justiça social? Essa pergunta percorre a história humana. Para muitos, numa grande consonância com o Cristianismo, seria o virtuoso, entendido como aquele que procura a justiça e o comportamento reto.

Para outros, seriam os líderes “esclarecidos”, cuja sabedoria estaria acima daquela dos demais. O marxismo colocou não algumas pessoas, mas uma classe social, o proletariado, como a única capaz de uma revolução utópica. Muitos pensadores prómercado imaginaram que o próprio funcionamento da sociedade capitalista, democrática e liberal, resolveria os problemas sociais. O cientificismo colocou suas esperanças na ciência e na técnica. No século XX, pulularam líderes políticos autocráticos que se anunciavam como “salvadores do povo” ou “salvadores da pátria”.

Esse elenco de personagens não é meramente ilustrativo. Corresponde às tentações e desvios ideológicos com os quais lidamos todos os dias, quando nos deparamos com questões políticas. Na prática, nenhum deles consegue, por si só, construir o bem comum.

Foto: Vatican News

O Papa Francisco, na encíclica Fratelli tutti (FT), apresenta um outro protagonista: a pessoa solidária, aquela que vive um verdadeiro amor fraterno por todos. Essa é o artífice de um mundo novo, capaz de construir uma realidade mais justa e mais humana para todos.

Partindo do exemplo do Bom Samaritano (Capítulo II), a encíclica é construída a partir da relação entre essa pessoa solidária e o “forasteiro”– aquele que não tem um lugar próprio no mundo, por ser estrangeiro ou por ser, em seu próprio território, um “descartado”, em função da pobreza, de questões de saúde ou da velhice.

Esses excluídos são as grandes vítimas da injustiça e do desamor na sociedade Para  eles, particularmente, deve se voltar uma política baseada na “caridade social e política” (Capítulos III, IV e V).

O diálogo verdadeiro, que não é relativista, mas procura a verdade contida na posição de cada um, leva à cultura do encontro – em cujo contexto se compreende a necessidade do perdão e da reconciliação, que não esquecem ou deixam impune a injustiça sofrida, mas criam uma verdadeira superação que torna possível construir juntos (Capítulos VI e VII).

Francisco tem uma percepção aguda tanto dos dramas sociais quanto político-culturais de seu tempo. Identifica, justamente, os “sonhos despedaçados” e a falta de “um projeto para todos” (FT 11-17), consequências tanto do fracasso das utopias quanto da desilusão com as promessas da economia globalizada. Nesse sentido, procura, com a Fratelli tutti, assim como já havia feito com a Laudato si’, recuperar a esperança e o ímpeto de construção de um mundo melhor, que se encontram, às vezes sufocados ou esquecidos, no coração de todo ser humano.

Fratelli tutti contrapõe o amor, que gera fraternidade e solidariedade, com o individualismo, gerador de exclusão, sofrimento e solidão. Mas será a fraternidade uma possibilidade real ou apenas uma ilusão bondosa? Esse é o grande desafio que a realidade apresenta à mensagem do Papa e à experiência concreta de todos nós, cristãos e pessoas de boa vontade.

A ele, Francisco responde afirmando que “a partir do ‘amor social’, é possível avançar para uma civilização do amor a que todos podemos nos sentir chamados. Com o seu dinamismo universal, a caridade pode construir um mundo novo, porque não é um sentimento estéril, mas o modo melhor de alcançar vias eficazes de desenvolvimento para todos” (FT 183).

*Francisco Borba Ribeiro Neto, sociólogo e biólogo, é coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP

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