Por: Ivan Carlos Maglio/Engenheiro civil
Um território estratégico entre o clima e a biodiversidade.
A criação do Parque Nacional Marinho do Albardão, articulado à Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão, no litoral sul do Rio Grande do Sul, recoloca o Brasil em uma agenda que parecia esquecida: a de planejar o território a partir de seus limites ecológicos.
Não se trata apenas de ampliar áreas protegidas. Trata-se de reconhecer que há territórios cuja função estratégica ultrapassa o interesse imediato de exploração econômica. O Albardão é um desses casos. Ali, no encontro de correntes oceânicas tropicais e subantárticas, forma-se um dos ambientes mais produtivos do Atlântico Sul — um verdadeiro berçário marinho, essencial para a reprodução de espécies, a manutenção da biodiversidade e a sustentabilidade da pesca.
A escala da iniciativa é reveladora. O parque, com cerca de 1 milhão de hectares, somado à APA e à sua zona de amortecimento, estrutura um sistema de mais de 1,6 milhão de hectares protegidos. Não é uma unidade isolada, mas uma estratégia territorial em escala oceânica — algo ainda raro no país.
Mais do que conservação: infraestrutura ecológica
A importância do Albardão não se limita à proteção de espécies emblemáticas como baleias, golfinhos e tartarugas. Sua função é estrutural: trata-se de uma área-chave para a dinâmica ecológica do oceano.
Ecossistemas como esse operam como reguladores naturais — sustentam cadeias alimentares, recuperam estoques pesqueiros e contribuem para a estabilidade climática. Em um contexto de mudanças climáticas e colapso da biodiversidade, essas áreas deixam de ser “reservas” e passam a ser infraestruturas ecológicas críticas.
Essa mudança de perspectiva é fundamental. Durante décadas, a conservação foi tratada como uma política setorial, frequentemente em conflito com a economia. O Albardão aponta outra direção: a de que conservar é garantir as condições de funcionamento do próprio sistema econômico no longo prazo.
Parque e APA: um modelo de governança territorial
O desenho institucional adotado é particularmente relevante. Ao combinar um Parque Nacional — de proteção integral — com uma APA — de uso sustentável —, cria-se um arranjo que vai além da lógica tradicional de preservação.
O parque protege o núcleo ecológico mais sensível. A APA, por sua vez, regula o uso do território, permitindo atividades como a pesca artesanal e disciplinando pressões externas. Essa combinação é uma das formas mais sofisticadas de gestão ambiental disponíveis, alinhada ao conceito internacional de paisagens protegidas.
Na prática, isso significa reconhecer que a conservação não se faz isolando espaços, mas organizando o território como um todo. É exatamente essa dimensão que falta em grande parte das políticas urbanas e ambientais no Brasil.
O teste virá agora
A criação do Albardão é um avanço — mas não é uma garantia.
Como em outros territórios estratégicos, a região já é alvo de disputas: pesca industrial, projetos de energia e pressões econômicas diversas. O risco não está apenas na ocupação direta, mas na fragmentação da governança e na flexibilização progressiva das regras.
O histórico brasileiro é conhecido. Criam-se unidades de conservação com forte simbolismo, mas frágeis na implementação. Planos de manejo demoram, conselhos gestores são esvaziados, e a pressão econômica acaba prevalecendo.
Se isso ocorrer no Albardão, perder-se-á mais do que uma área protegida. Perder-se-á a oportunidade de consolidar um novo padrão de relação entre território, economia e natureza.
Um sinal possível e necessário
Em um momento em que o Brasil volta a estruturar sua política climática, o Albardão surge como um sinal importante. Ele demonstra que é possível integrar conservação, uso sustentável e planejamento territorial em uma mesma estratégia.
Mais do que cumprir metas internacionais, como o compromisso de proteger 30% do território até 2030, iniciativas como essa apontam para algo mais profundo: a necessidade de reorganizar o desenvolvimento a partir dos limites ecológicos.
O desafio agora é garantir que esse modelo se sustente. Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas a proteção de um trecho do litoral gaúcho — mas a capacidade do país de aprender a planejar seu território em um tempo de crise climática.