A internet e a cultura escrita

 Danilo Albergata/ Revista Com Ciência

Das pequenas tábuas de argila, passando pelo surgimento do papel, ao suporte virtualizado, onde, hoje, nos expressamos, o sistema de símbolos gráficos a que damos o nome de escrita conheceu revoluções que alteraram profundamente a maneira como produzimos e trocamos informações, sentimentos e ideias. Geralmente atrelada aos recursos e condições materiais dos diferentes contextos históricos em que se desenvolveu, a escrita tornou-se protagonista de convulsões sociais, culturais e religiosas numa Europa que ainda não havia compreendido completamente os significados da revolução nas técnicas de impressão iniciada por Gutenberg. Vira e mexe, a essa democratização sem precedentes da escrita no século XV, comparam-se as mudanças que presenciamos atualmente com a explosão da internet. Estamos no calor do momento. A Wikipedia surgiu anteontem, os blogs ontem e o Twitter, agora há pouco.

Apenas os historiadores do futuro terão condições de avaliar, com alguma precisão, o que realmente está nascendo, o que, afinal, está mudando e o que desaparecerá com as constantes revoluções tecnológicas da era digital. Mas, apesar das dificuldades, pensar e indagar o presente nunca deixou de ser fundamental, principalmente se se quiser avaliá-lo criticamente e, mais importante, estabelecer formas de interação positiva com as novidades que se apresentam. Como a cultura escrita está reagindo às diferentes inovações? Como a educação, em parte responsável pelo letramento dos indivíduos, pode enfrentar problemas ou se beneficiar das dádivas digitais? “É um fenômeno extremamente interessante, as novas variantes linguísticas que vêm sendo criadas na web, por força dos novos gêneros que nela vêm surgindo”, afirma Magda Soares, professora e pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Universidade Estadual de Minas Gerais (UFMG). Soares esclarece que fenômenos de comunicação como blogs e Twitter geram novos gêneros de escrita, mas a chamada norma culta ainda tem lugar no ciberespaço, pois “muitas revistas científicas já circulam apenas na web, a maioria dos jornais tem sua versão web, artigos acadêmicos são publicados na web”. Nessas publicações, espera-se a norma culta, “e os leitores desses gêneros de texto são os que controlam a qualidade deles”, completa. Os novos gêneros surgidos na internet, como o e-mail e as salas de bate papo, têm padrões de adequação linguística diferentes da norma culta. O que não quer dizer, segundo Soares, que haverá mutações radicais na linguagem escrita: “As pessoas, em geral, sabem, em parte intuitivamente, em outra parte por efeito da escolarização, que é preciso adequar a variante linguística ao gênero”, explica. E quanto à informação que a escrita carrega? Estaria a informação no ciberespaço perdendo qualidade na medida em que aumentam a velocidade e a quantidade em que circula? Para Raquel Recuero, pesquisadora do Centro de Ciências Humanas e da Educação da Universidade Católica de Pelotas, não necessariamente: “Os ruídos de comunicação sempre existiram”, afirma. “Quanto mais informação, mais ruídos vão existir. São consequências diretas da crescente quantidade de informação. Já havia ruído nos jornais e na literatura, antes da internet surgir”, continua. Recuero reconhece que “a quantidade e a velocidade de circulação faz com que as informações sejam, às vezes, publicadas com menos zelo”, mas chama a atenção para o fato de que há “uma grande interatividade na rede, há possibilidade de todos exercerem sua capacidade crítica, e a abundância de espaços de debate faz com que haja um depuramento da informação”. “Nova sabedoria” Eis um problema espinhoso: de que tipo de crítica, então, estamos falando? Umberto Eco aventa uma “nova sabedoria”, a qual define como “uma ainda desconhecida arte de seleção e eliminação de informação”. Ou seja, uma nova crítica para o novo turbilhão informacional de textos, hipertextos e hiperlinks. A ampla abertura da internet não mais permite a seleção de informações comum no noticiário televisivo ou nos jornais tradicionais. A ênfase se dá no leitor, ou melhor, no “internauta”. É ele quem seleciona. Ou, nas palavras de Recuero, “não é mais a informação que vai até você, é você quem vai até a informação”. Alguém, no entanto, poderia fazer a objeção de que essa liberdade de escolha pode fazer com que enxerguemos cada vez mais apenas aquilo que queremos enxergar; que tomaremos contato apenas com a informação que satisfaz a nossa representação de mundo. Desse ponto de vista, em vez de uma praça pública onde se embatem diferentes pontos de vista e visões de mundo – e, portanto, onde pode-se chegar a algum tipo de consenso, ainda que precário –, a internet poderia jogar a favor do isolamento e do sectarismo. Rebatendo esse tipo de argumentação, Recuero reconhece que o ciberespaço não está livre do “estreitamento do ponto de vista das pessoas”, mas lembra que “isso também acontece ‘offline’ fora da internet”. Nesse contexto, a educação pode ter papel fundamental para a seleção de informação sem que isso signifique isolamento. “O único caminho é educar as pessoas para que selecionem, elas, o conteúdo que trarão a suas telas”, ressalta Soares. Para ela, “os estudiosos da educação ainda estão na fase inicial de identificar benefícios e malefícios do ciberespaço, bons usos e maus usos dele, com a desvantagem de que os jovens vão caminhando muito mais rápido do que eles na familiaridade com essa nova tecnologia.” E completa: “Talvez, quando os jovens de hoje se tornarem estudiosos da educação, no futuro, estarão em condições adequadas para sistematizar e difundir a ‘nova sabedoria’ aventada por Eco”. Não se deve estranhar um certo tom de incógnita e projeção às gerações futuras na análise de um instrumento recém-criado como a internet, cujo enorme potencial transformador ainda não conhecemos com precisão – e o mesmo se pode dizer da realidade que vai resultar disso tudo. Anglofonia Um dos aspectos históricos mais relevantes do fenômeno de globalização em que a internet cumpre papel fundamental e que se reflete diretamente na linguagem, especialmente na escrita, é a anglicização, ou seja, a “invasão” da língua inglesa nas línguas locais, a apropriação de palavras do inglês para exprimir ideias e sensações numa comunicação feita predominantemente em língua local. Fruto da expansão imperialista dos Estados Unidos ao longo do século XX, o inglês já era “língua franca” no Ocidente antes da internet tornar-se acessível ao público. O colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, aliados ao rápido crescimento da teia de computadores a partir de meados dos anos 1990, acentuaram a tendência de tornar o inglês uma língua global. O inglês é tacitamente aceito como língua universal da internet. A maior parte dos conteúdos acessíveis na web é comunicado na língua inglesa. Logo, compreendê-la é fundamental para, por exemplo, saber como indivíduos estrangeiros – não necessariamente aqueles cuja língua materna seja o inglês – estão repercutindo determinado assunto e partilhar do espaço público internacional de debate que a internet proporciona. O processo não é mecânico, tem muito a ver com a condição histórica das relações entre a potência e os países periféricos; porém, pode-se dizer que quanto maior a familiaridade de indivíduos utilizando corrente e fluentemente o inglês, mais acentuado será o processo de incorporação de palavras e expressões anglófonas em sua língua materna. A forte influência do inglês e a crescente incorporação de suas palavras na língua portuguesa está longe de ser algo deplorável, como pensam os mais conservadores. “É preciso lembrar que a influência de uma língua sobre outra sempre ocorreu, ao longo da história”, alerta Soares. “Limitando-nos ao nosso país”, continua, “a língua portuguesa que aqui chegou sofreu a influência das línguas indígenas, depois das línguas africanas, e também das línguas de imigrantes italianos, alemães. Tal como hoje sofremos a influência do inglês, sofremos, antes, grande influência do francês, quando a França era o país com que mantínhamos fortes relações sociais, econômicas, culturais e educacionais”. Mas e quanto aos exageros? “Claro que é preciso estar atento para os exageros”, ressalta Soares, “e é aqui que a educação tem papel importante: desenvolver atitudes ao mesmo tempo receptivas em relação aos empréstimos estrangeiros, quando estes enriquecem a língua, e atitudes críticas, quando estes não se justificam e, ao contrário, empobrecem a língua”, conclui. No entanto, questões assim são bastante subjetivas e estão intimamente ligadas à estética. Por isso, expressões que, hoje, podem perfeitamente ser escritas em português sem perda alguma de sentido, mas que começam a ser anglicizadas, talvez um dia entrem para o rol de expressões belas e justificáveis. Revolução? Por fim, é controverso o status revolucionário da internet com relação à cultura escrita. Raquel Recuero pensa ser difícil comparar as mudanças da era digital com a invenção da imprensa no século XV: “São coisas diferentes”, afirma. Apesar das semelhanças quando o assunto é descentralização e publicização – e o mundo on-line significaria um aprofundamento nesse sentido –, a internet difere da revolução de Gutenberg na estrutura em que a informação circula e é produzida: “Parte-se da difusão criada pelo desenvolvimento da imprensa e joga-se tudo isso em rede, acessível em locais diferentes”, afirma Recuero, chamando a atenção para o fato de que a internet encoraja a produção coletiva, superando limitações geográficas. Por sua vez, Magda Soares vê um caráter verdadeiramente revolucionário da internet apenas com relação às comunicações. Para ela, as mudanças que a era digital gerou com relação à cultura escrita “não superam as duas grandes revoluções no mundo da escrita: a revolução do códex, que criou as páginas e os livros tais como os conhecemos hoje, e assim, nos libertou dos incômodos rolos e criou uma outra e mais rica interação com os textos; e a revolução da imprensa, que democratizou o acesso aos textos, até então privilégio de poucos”

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