Os resultados que não interessam ser publicados

Por Maria Teresa Manfredo – SBPC/ LABJOR

As hipóteses de investigação são peças fundamentais do trabalho científico, mas muitos estudos produzidos podem não confirmar dados, trazendo observações que discordam de hipóteses cuidadosamente construídas e ideias muito em voga. Por essas e por outras razões, muitas vezes, experiências não-confirmadoras deixam de ser publicadas, não chegando ao conhecimento da comunidade científica e da sociedade em geral. Acontece que resultados aparentemente insignificantes podem levar a uma mudança de paradigmas. Esses “dados negativos”, longe de ter pouco valor, podem estar carregados de conhecimento de alto nível e são parte integrante do progresso científico.   A não publicação dos resultados negativos (aqueles que não cumprem com as expectativas das hipóteses esperadas) ou erros nos experimentos científicos é um problema clássico na medicina, sobretudo em estudos financiados por empresas privadas. O caso verídico da indústria de tabaco Philip Morris, retratado no filme O informante (de Michel Mann, Estados Unidos, 1999) evidencia as manobras dessa grande corporação americana para impedir que venham a público conclusões de estudos sobre os malefícios do cigarro. Retrata, assim, relações de poder e de problemas enfrentados na área de saúde, mercado e mídia.

No Brasil, em abril de 2012, o Conselho Federal de Medicina e a Associação de Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) assinaram um protocolo que regulamenta a relação entre os médicos e a indústria, no que diz respeito a brindes, incentivos, passagens para congressos e visitas de representantes. A iniciativa não recebeu apoio unânime das entidades médicas, o que demonstra o quanto o assunto é polêmico.

Indústria farmacêutica e pesquisa clínica

Outro lado da relação entre médicos e indústria farmacêutica diz respeito à capacidade de influenciar prescrições e o impacto das divulgações efetuadas pelos representantes comerciais desse ramo, o que leva a avaliações e críticas em todo o mundo.

A indústria farmacêutica é uma das maiores financiadora de estudos clínicos e é inegável que parte dos avanços obtidos nos tratamentos, não apenas do câncer mas de outras doenças, advém dessas pesquisas. No entanto, ela é duramente criticada pelo hábito de evitar que experimentos com resultados negativos sejam publicados. Para a médica oncologista formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luciana Clark, “essa atitude, repreensível sob todos os pontos de vista, particularmente do ético e científico, tem um impacto nefasto, na medida em que privam pacientes e a comunidade médica de saber o que não funciona e estimula que experimentos semelhantes sejam replicados desnecessariamente em outros países”.

Em geral, ao invés de publicar resultados negativos, muitos estudos de medicina preferem publicar experimentos de baixo impacto, tal como nova droga versus placebo ou versus drogas antigas com conhecida baixa atividade. Assim, cria-se uma falsa impressão de sucesso, de resultados positivos nessa área científica. Clark destaca, ainda, que a ocorrência de fraudes nesse setor é uma realidade incontestável. “Mesmo em periódicos conceituados no meio acadêmico e submetidos a rigoroso processo de revisão por pares, casos como o de 2006, quando o pesquisador sueco Jon Sudb falsificou dados sobre 900 pacientes em uma pesquisa sobre detecção precoce de câncer oral, ainda acontecem.”, cita Clark.

 “Felizmente, as autoridades conseguiram suspender em tempo um estudo desse ‘pesquisador’, que envolveria 300 pacientes e pelo qual ele receberia US$ 312 mil por ano, como financiamento”, afirma a médica, que também é mestre em divulgação científica, pelo Labjor/Unicamp.

 Ruben Sciuto, que possui doutorado em medicina, é professor de bioestatística e consultor da Sociedade Uruguaia de Patologia Clínica, destaca a importância dos resultados negativos na pesquisa clínica. Para ele, seria importante, sobretudo, refletir sobre o porquê desse resultado. “É importante localizar as principais fontes de erros, se a questão se deu por equívocos em algum dos estágios da própria investigação ou se, de fato, o fármaco é ineficaz”, explica Sciuto.

Clark ressalta que estudos financiados pela indústria (e mesmo por outras fontes) podem apresentar resultados enviesados, por vários motivos, dentre eles, a seleção dos resultados a serem apresentados, escolha de grupos de tratamento sem equivalência, estudos com falhas metodológicas, publicações repetidas de estudos com resultados positivos, relato incompleto dos dados ou, mais comumente, a não publicação dos estudos com resultados desfavoráveis.

Encontrar um resultado negativo e publicá-lo, quando se trata de um estudo financiado pela indústria farmacêutica, vai contra o marketing do próprio patrocinador. Além disso, discutir a causa dos erros que desembocam num resultado negativo pode ensinar os concorrentes a não cometer os mesmos erros em futuras pesquisas. “Em outras palavras, ninguém quer oferecer aos seus concorrentes a receita para atingir o sucesso”, ressalta Sciuto. Para ele, encarar a pesquisa clínica como uma questão de concorrência mercadológica bloqueia a discussão sobre os resultados negativos, e quem perde com isso é toda a sociedade.

 “Muitos erros seriam evitados desde o começo do estudo com uma boa análise e crítica do protocolo de investigação por parte de profissionais idôneos (equipe multidisciplinar), empregando um julgamento clínico e estatístico sem visar ao aspecto econômico. Contudo, é mais lucrativo publicar um resultado positivo de uma droga de baixo impacto frente a um resultado negativo de uma droga com boas propriedades farmacológicas e terapêuticas.”, ressalta o uruguaio.

Todos os resultados são bons resultados

Muitos pesquisadores têm se preocupado com o “viés de publicação do positivo” há décadas. Em 2008, por exemplo, um grupo publicou no New England Journal of Medicine um estudo mostrando que 94% das pesquisas publicadas sobre antidepressivos eram compostas pelos chamados resultados positivos. Tais estudos foram utilizados pela  Food and Drug Administration (FDA) para tomar decisões sobre a circulação ou não desses medicamentos. Mas os pesquisadores descobriram que, quando se incluiu estudos não publicados sobre os mesmos antidepressivos, apenas cerca de metade (51%) foram, de fato, positivos. Assim, casos que não considerem os resultados negativos, muitas vezes induzem à conclusão de que um remédio pode funcionar melhor do que ele realmente funciona no organismo humano.

Partindo da ideia de que a comunidade científica só pode aprender com os resultados negativos se os dados forem publicados, existem alguns periódicos científicos que investem na publicação do que não deu certo na área da medicina, como o Journal of Negative Results in Biomedicine. Lançado em 2002, esse periódico tem como premissa a concepção de que o “fracasso” é tão importante na ciência como em outros aspectos da vida, e que o progresso científico não depende apenas das realizações de indivíduos isolados, mas requer colaboração, trabalho em equipe e comunicação aberta com todos os resultados, positivos e negativos.

O All Results Journals também segue essa linha. Além disso, a Cochran’s library, já cataloga estudos não publicados. A consagrada revista científica Nature também publicou em fevereiro de 2011 uma carta que versava sobre a invisibiliadde de tais resultados, com o título ” Negative results need airing too “.

Uma maior publicação de resultados negativos também pode contribuir para uma apreciação mais realista da natureza científica. O público em geral e até mesmo os cientistas, por vezes, parecem não considerar que as investigações científicas raramente resultam em descobertas perfeitas de “verdades” sobre o mundo. Pelo contrário, o trabalho científico frequentemente é baseado em métodos com limitações reais, modelos imperfeitos e hipóteses com base em premissas incertas.

Além disso, não podemos esquecer que a tentação de distorcer ou camuflar dados aumenta num ambiente de pesquisa como o dos dias atuais: cada vez mais competitivo, onde a publicação de conclusões específicas e pontuais tem mais visibilidade, em que o progresso das carreiras depende da frequência e da qualidade de citações. Isso contribui para uma situação em que os dados que confirmam uma hipótese podem ser percebidos como algo mais positivo e receberem mais citações do que os dados que geram mais dúvidas e questionamentos.

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