Avaliação Físico- Química e Microbiológica da água procedente de soluções alternativas de abastecimento na Região metropolitana da Baixada Santista, Estado de São Paulo

Enviado por Mario Tavares

Este artigo foi apresentado no XIX Encontro Nacional e V Congresso Latino Americano de Analistas de Alimentos escrito por: Tavares M, Vieira AH, Alonso ACB, Mello ARP, Sousa CV, Gonzalez E, Gonçalves FG, Paschoal RC, Barsotti RCF, Pereira TC – todos da equipe do Instituto Adolfo Lutz (Centro de Laboratório Regional de Santos) e realizado com apoio da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Processo nº 2013/24.628-9).

Figura 1. Percentual de amostras reprovadas e ensaios com maiores percentuais de resultados insatisfatórios em relação à totalidade de amostras analisadas (67)
Figura 1. Percentual de amostras reprovadas e ensaios com maiores percentuais de resultados

Introdução

O ser humano necessita de água potável que não coloque sua saúde em risco, porém nem sempre a aparência cristalina da água coletada nas mesmas é de boa qualidade, visto que pode estar poluída ou contaminada por agentes patogênicos vivos, em consequência das atividades antrópicas ou de processos naturais (7).

Apesar disso, observam-se deficiências nos dados disponíveis quanto a cadastro de bicas e de poços destinados ou utilizados para abastecimento público, como por exemplo na Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS), Estado de São Paulo (4). Esta é composta por nove municípios (Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Praia Grande, Peruíbe, Santos e São Vicente), com uma população fixa de quase 1.800.000 habitantes, que chega até a triplicar na temporada de verão.

Deve ser ressaltado ainda que, em princípio, as soluções alternativas coletivas, sem rede de distribuição, representam as situações mais vulneráveis, devendo ser cadastradas pela Vigilância Sanitária (VISA) e a qualidade de sua água monitorada com frequência. No entanto, esse monitoramento só tem sido feito na RBMS quanto à água de abastecimento público fornecida pela concessionária, dentro do Programa de Vigilância da Qualidade da Água para o Consumo Humano – PROÁGUA (8), pelo qual a VISA dos municípios faz a coleta de amostras de água tratada ou não durante todo o ano e as encaminha para análise na rede de laboratórios do Instituto Adolfo Lutz (I.A.L.).

Outro ponto importante é a originalidade do tema na citada região, uma vez que na literatura consultada há apenas dois trabalhos publicados, um dos quais tendo como coautores parte desta equipe. No entanto, ambos se restringem aos municípios de Santos e São Vicente, não abrangendo, portanto, os outros sete, além da amostragem ter sido só de água de bicas (5, 10).

Diversos trabalhos têm sido publicados no Brasil e no exterior revelando a contaminação da água de poços, bicas e nascentes. Em Portugal, por exemplo, o nível de poluentes com valores acima do permitido legalmente atingiu a 21% de 1518 amostras de água subterrânea analisadas entre os anos de 2010 e 2012 (9).

Dados oficiais publicados em 2005 sobre a qualidade química natural dos poços localizadas na RMBS, apresenta o ferro total como o parâmetro mais restritivo, com média muito superior ao limite máximo legal, porém podendo ser corrigido pela técnica de aeração; a seguir, vem o cloreto acima do padrão, principalmente em Santos e Cubatão, indicando contaminação pela cunha salina (6).

Os episódios de eventos extremos causados por tempestades de verão no ano de 2013 na RMBS alertaram para a importância da manutenção da qualidade e disponibilidade de água bruta oriunda de sistemas naturais. Esses locais registraram substancial aumento de demanda de água pelas populações, dada a falha ou ausência temporária de distribuição de água pelo sistema público de abastecimento público causado por eventos meteorológicos de baixa previsibilidade (7). Já em 2014 houve em todo o Brasil a crise hídrica, perdurando em 2015, ocasionando maior procura por água oriunda de bicas, nascentes e poços, cuja qualidade é discutível.

Considerando o exposto, este trabalho objetivou avaliar a qualidade microbiológica e físico-química de amostras de água coletadas em bicas, nascentes e poços localizados na Região Metropolitana da Baixada Santista, Estado de São Paulo, com base na Portaria número 2914/2011 do Ministério da Saúde, que dispõe sobre a potabilidade da água para consumo humano (2).

Material e Métodos

Foram coletadas pelos próprios autores 67 amostras, sendo 41 de água de bicas, 13 de nascentes e 13 de poços, entre novembro de 2014 e janeiro de 2015, localizados em áreas públicas e particulares autorizadas nos nove municípios da RMBS. Contaram com o apoio da Vigilância Sanitária local em Bertioga, Cubatão e Mongaguá, da Guarda Ambiental municipal em Guarujá, da Polícia Ambiental Militar em Itanhaém e Peruíbe e da Defesa Civil em Santos.

As amostras foram mantidas sob refrigeração e acondicionadas em caixas de isopor até a chegada no laboratório. Foram analisadas quanto à presença de coliformes totais e termo tolerantes (Escherichia coli), por meio da técnica do substrato definido (Colilert), descrita na metodologia da American Public Health Association (1), além dos seguintes parâmetros físico-químicos: cloreto, cloro residual livre (nas águas tratadas), cor aparente, dureza, ferro, nitrato, nitrito, odor, pH, sólidos totais dissolvidos, sulfato e turbidez, segundo as técnicas descritas em “Métodos físico-químicos para análise de alimentos” (3).

Relativamente aos coliformes, a equipe decidiu quantificar em unidades formadoras de colônias (UFC) por 100mL as amostras em que ocorreu sua presença, embora a legislação considere insatisfatória só por esse aspecto, visto que a contagem ilustraria melhor o nível de contaminação das mesmas.

Resultados e Discussão

Do total de 67 amostras analisadas, 57 (85%) foram reprovadas com base na Portaria 2914/2011 do Ministério da Saúde (Brasil, 2013), sendo que os ensaios com maior percentual de resultados insatisfatórios em relação ao total de amostras analisadas foram E. coli, 39 (58%); cor aparente, 16 (24%) e nitrato, 14 (21%), conforme a Figura 1.

Coliformes totais não são patogênicos, porém indicam possível presença de dejetos animais e humanos na água, a ser confirmada pela pesquisa de E. coli. A presença desta ocorreu tanto em águas de bicas como em nascentes e poços de todos os municípios monitorados.

A contagem de unidades formadoras de colônias para E. coli revelou quatro amostras com valores muito altos, superiores a 200,5UFC/100mL, todas referentes a água de bicas, sendo duas localizadas em Peruíbe e duas em Santos. As duas primeiras também apresentaram resultados insatisfatórios para cor aparente e as outras duas para nitrato, enfatizando a impropriedade das amostras para o consumo.

A cor é considerada um parâmetro estético, mas valores elevados (superiores a 15 unidades Hazen) são inadequados sanitariamente. Foram encontrados alguns deles muito acima do limite legal (15 Unidades Hazen), sendo os dois maiores (120,2 e 163,4) verificados em amostras de água de poços particulares situados em Itanhaém.

O nitrato acima de 10mg/L pressupõe que as águas se encontravam contaminadas por despejos de esgotos, dejetos de animais ou humanos, podendo causar risco à saúde. Os valores mais elevados foram observados em água de poço localizado em Itanhaém (50,3mg/L) e de bica em morro de Santos (46,8mg/L). Alías, a maior incidência de resultados insatisfatórios para nitrato ocorreu nas amostras de água coletadas em bicas dos morros santistas.

Cabe ressaltar que várias bicas de Santos e São Vicente exibiram suas águas com qualidade insatisfatória como em levantamento realizado no ano de 2008 (10), uma das quais a Biquinha Padre Anchieta, conhecido ponto turístico situado no segundo município. No atual estudo apresentou teor de nitrato acima do limite legal, conteve E. coli (69,7UFC/100mL) e nível de cloro residual livre dez vezes abaixo do recomendado pela legislação que é de 2,0mg/L para água clorada (2). Na avaliação anterior, revelou pH abaixo do valor mínimo recomendado (6,0) e nitrato acima do máximo fixado legalmente, tendo então agora piorado a sua qualidade.

Por fim, das 13 amostras de água de poço, sete revelaram teor de ferro acima do limite máximo estabelecido (0,30mg/L). Essa constatação discorda do relatado em 2005 para a qualidade de poços situados na RMBS de que o ferro foi o parâmetro mais insatisfatório, seguido do cloreto, o qual foi satisfatório nas 67 amostras analisadas (6).

Conclusões

O elevado número de amostras com resultados insatisfatórios, principalmente com relação à presença de Escherichia coli, revela que os usuários da maioria das soluções alternativas de abastecimento estão ingerindo água possivelmente contaminada, ocasionando riscos à sua saúde.

Já a presença de nitrato em concentrações superiores aos limites legais em percentual significativo de amostras coletadas especialmente em bicas localizadas nos morros de Santos indica que a população local vem consumindo água contaminada por despejos de esgotos e dejetos de animais ou humanos, colocando também em risco a sua saúde.

Com base no exposto, faz-se necessária uma maior atuação da Vigilância Sanitária dos municípios ora monitorados, incluindo amostras de água de soluções alternativas no Programa PROÁGUA da região, bem como esclarecendo os moradores sobre a qualidade dessas águas, se possível com o apoio dos meios de comunicação.

Referências

1-American Public Health Association – APHA. Standard methods for examination of water and wastewater. 21th ed, Baltimore: United Book Press, 2005.

2- Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria MS nº 2914, de 12 de dezembro de 2011. Dispõe sobre de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. [acesso em 13 mai 2013]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt2914_12_12_2011.html.

3-Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Métodos físico-químicos para análise de alimentos. 4a. ed. Brasília, Ministério da Saúde, ANVISA, 2005. p. 345-404.

4- Comitê da Bacia Hidrográfica da Baixada Santista (CBH-BS). Plano de Bacia Hidrográfica 2008-2011 – Relatório Síntese fevereiro/2009. CBH-BS, 42p.

5-Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental – CETESB. Levantamento sanitário das bicas localizadas em Santos. São Paulo, CETESB, 1978. 121 p. (Relatório técnico, SENG/GAS/047/78).

6- Governo do Estado de São Paulo. Conselho Estadual de Recursos Hídricos. Mapa de Águas Subterrâneas do Estado de São Paulo – Escala de 1:1.000.000. São Paulo: DAEE-IG-IPT-CPRM, 2005. p. 65. (Nota Explicativa).

7-.Instituto Maramar. Programa Olhos d´ Água, Relatório Técnico. [acesso em 31 out 2013]. Disponível em: http://www.maramar.org.br/aguas.

8- São Paulo. Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo. Resolução SS-45, de 31 de janeiro de 1992. Institui o Programa de Vigilância da Qualidade da Água para o Consumo Humano – PROÁGUA e aprova diretrizes para a sua implantação no âmbito da Secretaria da Saúde. Diário Oficial, São Paulo, 01 de fevereiro de 1992, Seção I, p. 27.

9- Schreck, I. 21% da água de furos e poços privados está contaminada. [acesso em: 03 out. 2013].

Disponível em:

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=3331227

10-Tavares, D.S. et al. Qualidade das águas de bicas localizadas nos municípios de Santos e São Vicente, Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Inst. Adolfo Lutz, 68(2): 237-44, 2009.

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