Brasil: evidência da presença de agrotóxicos em animais e implicações para saúde humana e ambiental

Por: Ana Marina Martins de Lima

Patricia Medici
Foto: Patricia Medici/ IPÊ/ INCAB

O relatório técnicos intitulado : IMPACTO DE AGROTÓXICOS E METAIS PESADOS NA ANTA BRASILEIRA (Tapirus terrestris) NO ESTADO DO MATO GROSSO DO SUL, BRASIL, E IMPLICAÇÕES PARA SAÚDE HUMANA E AMBIENTAL., resultante de um trabalho coordenado pelos pesquisadores:  Fernandes-Santos, R.C ; Medici, E.P.; Testa-José, C e Canena, A.C ; pesquisadores que atuam na  INICIATIVA NACIONAL PARA A CONSERVAÇÃO DA ANTA BRASILEIRA (INCAB) e INSTITUTO DE PESQUISAS ECOLÓGICAS (IPÊ) evidenciaram questões levantadas em eventos como fóruns, audiências públicas e seminários realizados nos anos de 2016 e 2017 de que havia uma ausência de monitoramento dos impactos dos agrotóxicos em animais e que estes poderiam estar sendo vitimas do aumento do uso de agroquímicos nas diversas formas de aplicações; sendo destacado a aplicação aérea dos produtos.

O trabalho foi realizado com instrumentação adequada e é inquestionável no quesito técnico podendo este modelo ser utilizado por peritos ambientais para pesquisar o impacto  das aplicações e uso destes produtos em toda a Biodiversidade do país.

Do ponto de vista da epidemiologia seja ela direcionada a saúde humana ou a animais a evidência de aumento do uso de produtos é uma preocupação dos profissionais ligados a estas áreas e a necessidade e um investimento na criação de novos laboratórios de eco toxicologia e toxicológicos bem como a revisão na atuação dos laboratórios já existentes.

Longe de ser uma atitude de “ativismo cego” a necessidade de monitoramento nestas áreas colaboram com o país sobre o aspecto econômico do ponto de vista da Segurança Alimentar e Preservação do Meio Ambiente compactuada na Convenção de Stocolmo; Convenção de Roterdã sobre o Procedimento de Consentimento Prévio Informado para o Comércio Internacional de Certas Substâncias Químicas e Agrotóxicos Perigosos e Convenção sobre Diversidade Biológica e colabora com o cumprimento do Código Sanitário Internacional uma vez que sintomas de intoxicações em animais podem ocultar outras doenças a exemplo da Febre Amarela e Raiva em animais silvestres.

O relatório ainda aponta para necessidade de melhoria quanto os aspectos técnicos da pulverização aérea  e monitoramento destas ações.

Formas de aplicação de agrotóxicos - INCAB - IPÊ
GRÁFICO 4 – Grupos de substâncias tóxicas mencionadas pelas fontes encontradas nas pesquisas online (N=95), realizadas entre 2015 e 2017. – INCAB/IPÊ

Para realização do relatório aqui apresentado foram realizadas as seguintes etapas:

  • Revisão bibliográfica
  • Levantamento de Inserções de Mídia Online e Registros da Polícia Militar Ambiental (PMA) e Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul
  • Levantamento de Dados Registrados junto ao Centro Integrado de Vigilância Toxicológica (CIVITOX), MS
  • Detecção de Resíduos de Agrotóxicos e Metais Pesados em Amostras Biológicas de Antas
  • Entrevistas com Membros de Comunidades Rurais e Urbanas

O resultado deste trabalho direcionam as ações de política pública para as seguintes medidas de mitigação:

  1. Aprimoramento do sistema de fiscalização pelos órgãos responsáveis;
  2. Promoção de inovações e mudanças necessárias para a produção sustentável de alimentos;
  3. Assessoria técnica e incentivo ao conhecimento sobre o uso e impacto de agrotóxicos pelos trabalhadores rurais e pela população em geral;
  4. Desenvolvimento de laboratórios bem estruturados e equipes científicas qualificadas para a atuação na detecção de resíduos de substâncias tóxicas a custos acessíveis;
  5. Incentivo para a obtenção de dados toxicológicos, eco toxicológicos e epidemiológicos gerados sob condições locais e reais de uso;
  6. Desenvolvimento de pesquisas capazes de evidenciar os efeitos crônicos do uso dos agrotóxicos.
INCAB- IPÊ (6)
Foto: INCAB/ IPÊ

Trechos do Relatório:

Detecção de Resíduos de Agrotóxicos e Metais Pesados em Amostras Biológicas de Antas

A área de estudo na qual foram conduzidos os estudos de detecção de resíduos de agrotóxicos e metais pesados em amostras biológicas de antas capturadas está ilustrada na FIGURA 4. As capturas foram realizadas utilizando armadilhas de caixa posicionadas estrategicamente em áreas de fragmentos florestais (Cerradão) localizadas às margens da rodovia federal BR-267 (ilustrada no mapa), entre os municípios de Nova Alvorada do Sul e Nova Andradina, MS. Para a avaliação toxicológica, foram coletadas amostras de sangue total dos indivíduos capturados por meio da venopunção de ramos das veias cefálica e/ou safena. As amostras foram mantidas refrigeradas em tubos com anticoagulante EDTA (ácido etilenodiamino tetra-acético) e foram encaminhadas para análise no Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX) de Botucatu, SP, laboratório de referência nacional para pesquisas de toxicologia, em até 30 dias após a coleta.

area de estudo - INCAB/IPÊ
Figura 4 – INCAB/IPÊ

Carcaças de antas atropeladas registradas pela equipe da INCAB-IPÊ foram submetidas a coletas de amostras biológicas para estudos de genética e saúde, incluindo estudos toxicológicos. Foram definidas cinco (5) diferentes categorias para classificação da idade da carcaça¹. Carcaças velhas, secas ou em processo avançado de decomposição foram amostradas para tecido (fragmento de 1cm² de pele) para extração de DNA e análises de genética populacional, e fragmentos de coxim, probóscide, unha e osso foram coletados para estudos de toxicologia. Carcaças encontradas frescas (com no máximo 48 horas desde o atropelamento) foram submetidas a procedimentos de necropsia, no intuito de coletar amostras biológicas para diversos estudos de saúde. Neste caso, para a avaliação toxicológica, foram coletadas amostras de coxim, probóscide, conteúdo estomacal, fragmento de fígado, sangue intracardíaco, osso e unha. As amostras foram mantidas refrigeradas (sangue total) ou congeladas (demais tipos de amostras) até o envio para análise laboratorial pelo Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX) de Botucatu, São Paulo. Os estudos de toxicologia foram focados na investigação de presença de agrotóxicos provindos de culturas agrícolas, particularmente cana-de-açúcar, milho e soja, no organismo das antas. Foram amostradas carcaças de antas atropeladas em seis (6) rodovias federais e estaduais do Mato Grosso do Sul (QUADRO 3).

quadro 3 - INCAB/IPÊ

Detecção de Resíduos de Agrotóxicos e Metais Pesados em Amostras Biológicas de Antas

Entre setembro de 2015 e maio de 2017, um total de 116 diferentes indivíduos foram amostrados, incluindo: 29 antas capturadas vivas em armadilhas; 25 necropsias realizadas em carcaças frescas de antas atropeladas em rodovias (até 48 horas após o óbito); 62 carcaças de antas atropeladas, porém encontradas em estado de decomposição considerado inviável para realização de procedimento necroscópico. Do total de 87 carcaças amostradas, 24 foram classificadas como frescas, 13 em decomposição inicial, 33 em decomposição avançada, 15 foram consideradas velhas e 2 muito velhas. Dos 116 indivíduos amostrados, 55 eram machos, 40 eram fêmeas e 21 não puderam ter o sexo determinado em decorrência do avançado estado de decomposição das carcaças. A amostragem incluiu 86 antas adultas, 18 sub-adultas, 7 juvenis, 1 filhote e 4 indivíduos de faixa etária não determinada.

A localização geográfica dos pontos de amostragem, incluindo antas capturadas e atropeladas está distribuída por sete (7) municípios do Estado do Mato Grosso do Sul: Nova Alvorada do Sul (N=56), Nova Andradina (N=11), Campo Grande (N=15), Ribas do Rio Pardo (N=13), Três Lagoas (N=12), Aquidauana (N=5) e Bataguassú (N=4).

Um total de 242 amostras biológicas foi incluído no estudo, entre elas: COXIM (N=85), PROBÓSCIDE (N=17), CONTEÚDO ESTOMACAL (N=27), FÍGADO (N=26), SANGUE TOTAL (N=42), OSSO (N=22) e UNHA (N=23) (QUADRO 5).

quadro 5 - INCAB/ IPÊ

Seguindo as recomendações fornecidas pelos técnicos do Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX) de Botucatu, São Paulo, o tempo de armazenamento variou entre 22 a 522 dias, e diferentes tipos de amostras foram testadas para diferentes substâncias tóxicas. Foi avaliada a presença de resíduos das seguintes substâncias²: ORGANOFOSFORADOS, ORGANOCLORADOS, PIRETRÓIDES, CARBAMATOS e METAIS PESADOS (QUADRO 5).

O QUADRO 6 detalha as substâncias tóxicas detectadas, respectivos princípios ativos, classificação toxicológica, classificação de potencial de periculosidade ambiental, em que tipo de amostras foram testadas e em que concentração média foram encontradas.

quadro 6 cont - INCAB/IPÊ

quadeo 6 - INCAB/IPÊ

Os exames de toxicologia detectaram a presença de resíduos de 13 diferentes substâncias tóxicas, incluindo ORGANOFOSFORADOS (diazinon, mevinfos, malationa, diclorvos, dimethoate), PIRETRÓIDES (deltametrina, permetrine), CARBAMATOS (aldicarb, carbaril) e/ou METAIS PESADOS (CHUMBO, COBRE, MANGANÊS, CÁDMIO)2, em 41% das amostras avaliadas (100/242). Todas as substâncias encontradas nas amostras apresentam elevada toxicidade (classificação toxicológica I ou II) e são consideradas perigosas ao meio ambiente. Desta forma, os resultados obtidos sugerem um evidente risco à saúde das antas, bem como do homem e de outras espécies que utilizam este ambiente antropizado.

Entre os principais achados, vale chamar a atenção para a alta prevalência e concentração detectadas do agrotóxico ALDICARB (ou aldicarbe) em amostras de conteúdo estomacal de antas (FIGURA 23). Segundo informações obtidas em 11 de junho de 2018, por meio da central de atendimento ao público da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o agrotóxico ALDICARB não possui uso autorizado no Brasil, para nenhuma finalidade ou modalidade de emprego, em nenhum estado da federação, tendo em vista que o registro de seus produtos formulados foram todos cancelados. Sua monografia (A07) ainda se encontra disponível no site da ANVISA apenas para controle dos resíduos em alimentos, dada sua elevada toxicidade (CLASSE I – Extremamente Tóxico).

FIG 23 - INCAB/IPÊ

A conexão entre a saúde humana e animal esta destacada no seguinte trecho do relatório:

“Foram detectadas 13 diferentes substâncias tóxicas em amostras biológicas de antas capturadas e atropeladas em rodovias, sendo uma delas de uso proibido em todo o território nacional. Este achado enfatiza a necessidade de medidas mais efetivas na fiscalização do uso e comércio de agrotóxicos pelos órgãos competentes. Além disso, a detecção de substâncias tóxicas em diferentes tipos de amostras biológicas (coxim, probóscide, conteúdo estomacal, fígado, sangue, osso e unha) demonstra que as antas estão expostas aos agrotóxicos e metais pesados por diferentes vias (contato direto, inalação, ingestão) e que, inclusive, ocorre bioacumulação de metais pesados nos organismos das antas. Nesse estudo, a anta pode ser considerada como espécie sentinela, que são aquelas que por refletirem as perturbações do meio ambiente podem servir de indicadores da saúde do ecossistema e gerar informações sobre potenciais riscos (GLICKMAN et al., 1991; RABINOWITZ et al., 2005). Dessa forma, resultados obtidos por meio da amostragem de antas podem demonstrar potenciais riscos da contaminação ambiental também para a saúde humana e de outras espécies na região.”

NOTA: A captura de antas na natureza é realizada pela equipe da INCAB-IPÊ desde 1996 (de 1996 a 2007 na Mata Atlântica; desde 2008 no Pantanal; e desde 2015 no Cerrado) como ferramenta para estudos de ecologia espacial, genética, saúde, dentre outros. A equipe técnica inclui veterinários experientes e qualificados para tais procedimentos, e todos os protocolos adotados são previamente avaliados por especialistas e aprovados pelos órgãos governamentais competentes, que fornecem licenças específicas as quais são renovadas anualmente.

Sobre o Instituto: 

A fundação oficial foi em 1992, mas o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas começou sua história muito antes dessa data.

Em 1978, aos 30 anos, Claudio Padua deixou para trás a carreira de diretor administrativo no Rio de Janeiro para se dedicar exclusivamente à Biologia. A mudança radical de vida incluiu sua esposa, Suzana Pádua, e seus três filhos. A família mudou-se para o Pontal do Paranapanema (extremo oeste de São Paulo) para que Claudio pudesse realizar as pesquisas com o mico-leão-preto, um dos primatas mais raros e ameaçados de extinção no mundo.

Com o decorrer das pesquisas, foi constatado que, para a conservação efetiva da espécie, seria necessário o apoio dos moradores do entorno da floresta, habitada pelo mico-leão- preto. Começava aí o trabalho de educação ambiental do IPÊ, liderado por Suzana que, ao envolver as comunidades da região, iniciou o processo de conscientização sobre a importância da proteção da natureza. Aos poucos, as pessoas foram compreendendo que a conservação do mico ajudaria não só a conservar da Mata Atlântica, já bastante ameaçada, mas também suas próprias vidas.

Outros pesquisadores e estagiários, que naquela época já acreditavam ser impossível separar conservação de educação ambiental e envolvimento comunitário, uniram-se a Claudio e Suzana para criar o IPÊ, que inicialmente teve sua sede em Piracicaba (SP).

Hoje, o IPÊ é considerado uma das maiores ONGs ambientais do Brasil, possui título de OSCIP e tem sede em Nazaré Paulista (SP). O Instituto, que começou com o Projeto Mico-Leão-Preto, agora conta com mais de 80 profissionais trabalhando em mais de 30 projetos por ano, em locais como o Pontal do Paranapanema e Nazaré Paulista (SP), Baixo Rio Negro (AM), Pantanal e Cerrado (MS).

Uma das preocupações do IPÊ desde a sua criação é a transferência do conhecimento adquirido em suas pesquisas de campo. Para isso, em 1996, o Instituto criou o CBBC – Centro Brasileiro de Biologia da Conservação, para cursos de curta duração, que evoluiu, em 2006, para a ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, oferecendo Mestrado Profissional e MBA.

Mais informações:  http://www.ipe.org.br/

Leia o relatório na íntegra: IMPACTO DE AGROTÓXICOS E METAIS PESADOS NA ANTA BRASILEIRA (Tapirus terrestris) NO ESTADO DO MATO GROSSO DO SUL, BRASIL, E IMPLICAÇÕES PARA SAÚDE HUMANA E AMBIENTAL

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