Um mês após tragédia em Mariana, causas e impactos ainda são investigados
Maiana Diniz – Repórter da Agência Brasil
Um mês após o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, em Mariana (MG), as causas e os impactos do derramamento de pelo menos 34 milhões de metros cúbicos de lama no meio ambiente, segundo o Ibama, ainda estão sendo levantadas.
“Saber o tamanho do estrago vai demorar, porque o estrago ainda não parou”, avalia Nilo D´ávila, coordenador de campanhas do Greenpeace. “Tem partes do rio que parecem estar asfaltadas. Não se vê água, se vê alguma água empoçando e buscando novos caminhos”, disse o especialista.
A onda de lama, formada após o desastre em 5 de novembro, destruiu vilarejos da cidade histórica de Mariana e só no distrito de Bento Rodrigues deixou mais de 600 desabrigados. De acordo com o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, já foram confirmadas 12 mortes, três corpos aguardam identificação e sete pessoas ainda estão desaparecidas na região.
As cerca de 200 famílias que tiveram as casas destruídas pela lama de rejeitos foram acomodadas pela mineradora Samarco, responsável pela tragédia, em hotéis e casas provisórias. Essas pessoas ainda não têm previsão de quando vão receber uma nova residência. Quatro dias após o rompimento da barragem, o Ministério Público enviou documento à Samarco pedindo ações imediatas de garantia dos direitos das vítimas, entre elas o pagamento de um salário mínimo por família atingida, mais um adicional de 20% para cada um dos dependentes e cesta básica.
Na última segunda-feira (30), a Samarco, empresa controlada pela brasileira Vale e pela australiana BHP Biliton, começou a entregar o cartão de auxílio financeiro às famílias mais atingidas, e segundo a empresa, os recursos estarão acessíveis a partir de hoje (5).
A medida tem o objetivo de oferecer a essas pessoas uma alternativa para pagamentos de despesas pessoais “como contas de cartão de crédito e prestações de eletrodomésticos, por exemplo”, disse o ex-morador de Bento Rodrigues Antonio Pereira, representante dos moradores da região em comissão criada para negociar com a mineradora.
Segundo Pereira, os moradores avaliaram que o valor proposto é insuficiente e pediram reajuste em encontro com o presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, na terça-feira (1). “Pedimos o reajuste do valor do benefício para R$ 1,5 mil reais mensais por famílias, mais 30% por dependente, além de uma verba de reestruturação no valor de R$ 10 mil reais”. A Samarco ficou de responder à solicitação na próxima quinta feira (10), informou o motorista Antonio Pereira.
Qualidade da água
Depois de destruir o Rio do Carmo, próximo a Mariana, a lama chegou ao Rio Doce e ainda causa transtorno na captação de água em muitas cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo. A cidade mineira de Governador Valadares, por exemplo, voltou a captar água no Rio Doce para abastecer a população de 280 mil habitantes uma semana após a chegada da lama, mas o Ministério Público de Minas Gerais informou na sexta-feira (4) que as amostras de água colhidas no dia 20 de novembro e analisadas pela central de apoio técnico do MP na região revelam que “os elementos alumínio, manganês, turbidez e cor aparente apresentaram concentrações superiores aos limites estabelecidos na Portaria do Ministério da Saúde”.
Em Colatina, no Espírito Santo, o Ministério Público federal e estadual do Espírito Santo (MP-ES), além do Ministério Público do Trabalho (MPT-ES) ajuizaram Ação Civil Pública na última segunda-feira (30) pedindo a suspensão imediata da captação de água do Rio Doce na cidade. De acordo com o MP, laudos de testes da água na região registram quantidades de arsênio, mercúrio, zinco, cádmio, manganês e chumbo na água superiores às estabelecida pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), em desacordo com os padrões de segurança e potabilidade. Nos dois casos, os MPs pediram providências das prefeituras e dos serviços de abastecimento sobre o problema e aguardam retorno.
A lama também provocou a morte de mais de 11 toneladas de peixes, prejudicando pescadores de Minas Gerais e do Espírito Santo que atuavam nos rios da Bacia do Rio Doce e no mar, próximo ao município de Linhares (ES). Segundo o Ibama, das mais de 80 espécies de peixes apontadas como nativas da bacia antes da tragédia, 11 são classificadas como ameaçadas de extinção e 12 são endêmicas do Rio Doce, ou seja, só existiam na região e podem desaparecer.
Para atender às comunidades que viviam dos rios atingidos, o Ministério Público do Trabalho em Minas Gerais (MPT-MG) assinou na sexta-feira (4) um termo de ajustamento de conduta (TAC) com a Samarco para assegurar proteção imediata a 11 mil ribeirinhos atingidos, cujo sustento dependia do rio. O acordo definiu que a Samarco também vai pagar a cada trabalhador um salário mínimo, com acréscimo de 20% por dependente, mais o valor correspondente a uma cesta básica do Dieese. A previsão é que os ribeirinhos comecem a receber a partir do dia 11 de dezembro, com pagamento retroativo até 5 de novembro.
O acordo também assegura proteção a empregados da Samarco até 1º de março de 2016 e tem abrangência em Minas Gerais e no Espirito Santo. Serão contemplados 2.686 empregados diretos da Samarco e 2.400 terceirizados nos dois estados. O Termo prevê ainda manutenção dos empregos até 1º de março de 2016, o pagamento de salários de empregados diretos e indiretos até essa data. Demissões posteriores ao prazo de duração do TAC deverão ser negociadas com sindicatos. Em janeiro, a empresa vai reabrir negociações coletivas com os sindicatos.
- Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
- Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
- Compartilhar no LinkedIn(abre em nova janela) LinkedIn
- Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
- Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
- Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
- Compartilhar no Threads(abre em nova janela) Threads
Relacionado
Autor
ambientedomeio@outlook.com
Posts relacionados
Programa Corredores Verdes da Comlurb encerrou, em dois fins de semana, 48 pedidos de manejos de árvores realizados via Canal 1746
O Programa acontece todos os fins de semana nos principais corredores da cidade A Comlurb lançou, neste mês, o Programa Corredores Verde, um...
Leia tudo
Pesquisadores do Instituto Butantan realizam primeiro sequenciamento do genoma de uma serpente insular endêmica do Brasil
Análise da jararaca-ilhoa é a mais completa já realizada entre as Bothrops e servirá como referência para estudos futuros sobre composição do veneno...
Leia tudo
Caverna no Paraná revela influência da Antártida e do El Niño em chuvas extremas no Sul do Brasil
Uma caverna no interior do Paraná guarda um “arquivo climático” que permitiu a pesquisadores brasileiros reconstruir a história das chuvas extremas na região...
Leia tudo
Governo do Brasil ingressa em programa internacional para reduzir emissões de metano no setor de petróleo e gás
Articulada pelo MMA, copresidente da Coalizão Clima e Ar Limpo, a adesão reforçará as ações em andamento no setor para o enfrentamento de...
Leia tudo
FLACSO e PNUD formalizam aliança estratégica para promover a pesquisa aplicada e o desenvolvimento sustentável na região
A Secretaria-Geral da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) e o Escritório Regional para a América Latina e o Caribe do Programa das...
Leia tudo