MP do Trilhão volta para a Câmara e pode perder força, mas ainda favorece petroleiras
Por: 350.org e WWF
Senado aprova subsídio multibilionários a petroleiras no dia do aniversário do Acordo de Paris, mas com destaque que reduz farra do petróleo de 2040 para 2022
A famigerada MP do Trilhão pode se transformar na “MP das dezenas de bilhões” graças a um destaque aprovado pelos senadores nesta terça-feira (12). Ele reduz de 2040 para 2022 o prazo dos subsídios bilionários propostos pelos congressistas e fará o texto voltar para a Câmara dos Deputados. A previsão é que o destaque seja votado ainda nesta quarta-feira (13).
Se rejeitarem o destaque, os deputados terão aprovado um texto inconstitucional, já que a Lei de Diretrizes Orçamentárias não permite renúncias fiscais fixadas em lei por mais de cinco anos. Se o aprovarem, reduzirão o prazo da farra das petroleiras, mas ainda assim concederão subsídios imorais à atividade, num momento em que o Brasil sofre com a crise fiscal e os gastos públicos são congelados. Em ambos os casos, o país e o planeta perdem.
A MP 795 (rebatizada de PLV 36 após sua passagem pela Câmara) foi votada pelos senadores a toque de caixa, no mesmo dia em que o acordo do clima de Paris completou dois anos de idade e o Banco Mundial anunciou que pararia de financiar a exploração de óleo e gás a partir de 2019. Para dar uma ideia, entre 2015 e 2016 o Bird concedeu R$ 6 bilhões em financiamentos ao setor petroleiro em todo o mundo. Se a MP 795 for aprovada, somente em 2018 a renúncia fiscal para o setor será de R$ 16,4 bilhões.
A medida concede descontos de imposto de renda e contribuição social sobre o lucro líquido (CSLL) para a indústria do petróleo, além de zerar todos os tributos à importação de equipamentos para o setor. Seu objetivo é fazer um “saldão” do óleo do pré-sal. Se aprovada com o prazo até 2040, ela pode ajudar a lançar na atmosfera 75 bilhões de toneladas de CO2 apenas do pré-sal – praticamente explodindo a chance da humanidade de cumprir as metas do tratado do clima, que visa estabilizar o aquecimento global bem abaixo de 2oC.
As estimativas mais conservadoras falam em benefícios de cerca de R$ 300 bilhões somente com os blocos do pré-sal ofertados nos últimos leilões. Mas, como a medida não afeta somente os campos do pré-sal, esse montante pode ultrapassar a cifra de R$ 1 trilhão.
“Ambos os textos assaltam o caixa do país e são uma tragédia para o clima. A diferença entre eles é só o tempo pelo qual autorizam que os crimes sejam cometidos”, disse Marcio Astrini, coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace.
Na última quinta-feira (7), mais de 150 organizações da sociedade civil contrárias à medida protocolaram uma carta endereçada ao presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), pedindo o arquivamento da MP. Também foi ajuizada na Justiça Federal do DF uma Ação Popular requerendo a nulidade do trâmite da MP, sob o argumento de que as efetivas perdas decorrentes da renúncia fiscal não foram consideradas na estimativa de receita do Projeto de Lei Orçamentária, violando o princípio constitucional da legalidade e a Lei de Responsabilidade Fiscal.
“As pessoas que deveriam proteger os brasileiros estão, ao mesmo tempo, mexendo na Previdência Social e permitindo o incentivo à indústria fóssil”, disse Nicole Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina e autora da ação popular. “Mas se o governo não está fazendo a sua parte, temos outros meios de parar isso: mobilização popular e ações na Justiça”, afirmou.
De acordo com o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, o governo brasileiro joga contra os interesses do país e o tão desejado equilíbrio fiscal. “O Acordo de Paris faz dois anos e líderes mundiais se reúnem na capital francesa para acelerar a agenda global de Clima. Enquanto isso, o presidente Temer e sua base seguem na contramão da história. Além das petroleiras, a quem mais interessa esta Medida Provisória, às vésperas de um ano eleitoral?”
O coordenador de mudanças climáticas do WWF-Brasil, André Nahur, lembrou o impacto que a MP 795 pode trazer para o clima do planeta no futuro imediato e de médio prazo. “Um aumento de 1,5°C no mundo irá causar danos irreversíveis para o bem-estar da sociedade brasileira e para setores importantes da economia nacional. Subsidiar a exploração do pré-sal é uma ação que, além de trazer perdas para a União, continuará gerando prejuízos sociais e econômicos por muitas décadas”.
- Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
- Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
- Compartilhar no LinkedIn(abre em nova janela) LinkedIn
- Compartilhar no X(abre em nova janela) X
- Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
- Compartilhar no Threads(abre em nova janela) Threads
- Mais
Relacionado
Autor
ambientedomeio@outlook.com
Posts relacionados
Estudo define indicadores para orientar a restauração de campos úmidos no Cerrado
Os campos úmidos do Cerrado estão desaparecendo rapidamente e sua recuperação esbarra em um erro prático e histórico: a tentativa de aplicar...
Leia tudo
Dia Nacional do Ciclista – 19 de agosto
O ciclista e o veículo bicicleta no processo da construção de cidades mais humanas O Dia Nacional do Ciclista é uma data...
Leia tudo
Ondas de calor ainda são negligenciadas no Brasil, diz pesquisadora
As ondas de calor ainda são um desastre “completamente negligenciado” no Brasil e podem se tornar mais frequentes e intensas com a...
Leia tudo
Cidades resilientes ou apenas edifícios sustentáveis?
O desafio de transformar a sustentabilidade em política urbana A Sustentabilidade deixou de ser um diferencial para se tornar um requisito da...
Leia tudo
Conexão entre fragmentos florestais importa mais que tamanho na restauração da Mata Atlântica
A dispersão de sementes por meio do vento, da água ou de animais é um processo crucial para a renovação de florestas...
Leia tudo
Sete dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil são proibidos na UE
Dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil, sete são proibidos na União Europeia (UE), o que não impede que esses produtos sejam...
Leia tudo