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Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, em conferência da imprensa sobre sua visita ao Haiti, em Porto Príncipe, em 16 de junho de 2026.

Ilustres membros da imprensa,

Obrigado por terem vindo.

Vim ao Haiti com uma mensagem simples: vocês não estão sozinhos.

As Nações Unidas estão ao seu lado.

E o mundo não tem o direito de desviar o olhar.

Daqui a alguns instantes, estarei deixando o seu país.

Mas o que vi aqui nunca sairá da minha memória:

  • Vi uma crise de magnitude extraordinária, cuja causa principal é a falta de segurança.
  • Gangues estão aterrorizando o país.
  • Famílias inteiras estão sendo desalojadas.
  • Crianças estão sendo privadas de proteção, educação e de um futuro.

Para muitas pessoas haitianas, cada dia é uma luta pela sobrevivência.

Mas também – e acima de tudo – vi um povo que se mantém de cabeça erguida.

Esta manhã, em um abrigo para pessoas deslocadas, encontrei famílias que perderam tudo e, mesmo assim, continuam firmes, juntas, com uma coragem e uma dignidade que inspiram admiração.

Sua resiliência me comoveu profundamente. E nos obriga a agir.

Essas famílias não pediram minha compaixão.

Elas estão esperando por ações concretas.

Os números falam por si próprios. Mas por trás de cada número há uma vida.

O Haiti está enfrentando a crise humanitária mais grave – e que se deteriora mais rapidamente – do Hemisfério Ocidental.

6,4 milhões de pessoas – mais da metade de todos os haitianos – precisam de assistência hoje, em comparação com 5,5 milhões há dois anos.

Quase 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas internamente devido à violência.

E quase 6 milhões de pessoas enfrentam grave insegurança alimentar.

São as mulheres e as crianças que pagam o preço mais alto.

No primeiro trimestre deste ano, em média, mais de 20 mulheres e meninas foram agredidas – todos os dias.

Em um ano, o número de crianças recrutadas por gangues triplicou.

Atualmente, quase metade de todos os membros de gangues são crianças.

As infâncias estão sendo roubadas – pela violência, pela exploração, pela fome.

Essa é a verdadeira natureza desses grupos, que prosperam explorando os mais vulneráveis.

Isso é absolutamente intolerável. Isso precisa acabar.

Gostaria de aproveitar esta oportunidade para prestar homenagem aos nossos colegas e parceiros humanitários – a grande maioria dos quais são haitianos – que se recusam a desistir, apesar dos perigos.

No ano passado, eles prestaram assistência vital a quase 3 milhões de pessoas.

Mas apenas um quarto do nosso plano de resposta – US$ 880 milhões para ajudar 4,2 milhões de pessoas – foi financiado.

Vou dizer isso claramente aos doadores: o Haiti não está pedindo caridade.

O Haiti está pedindo que o mundo cumpra sua palavra.

E o Haiti não pode esperar.

Senhoras e senhores,

Essa crise é também, em sua essência, uma crise de segurança.

Desde o início do ano, a violência das gangues já deixou mais de 2.300 mortos e mais de 1.100 feridos.

Ela está paralisando o Estado, a economia, a educação e a prestação de ajuda humanitária.

No entanto, a maior vergonha não é a violência das gangues.

A maior vergonha é a indiferença – a indiferença de um mundo que vem desviando o olhar há tempo demais.

Porque existe uma relação direta entre a ausência da comunidade internacional e a falta de segurança para o povo haitiano.

Mas a situação pode ser revertida.

Bairros do centro de Porto Príncipe foram retomados.

O Conselho de Ministros está se reunindo novamente no Palácio Nacional, após mais de três anos.

Isso não é meramente simbólico: é um sinal do retorno gradual do Estado.

Hoje, na base de Vertières, também me encontrei com as mulheres e os homens da Força de Repressão às Gangues.

Sua mobilização oferece uma oportunidade real de conter a violência e restaurar a autoridade do Estado.

Não temos o direito de desperdiçar essa oportunidade.

A Força não é uma operação das Nações Unidas, mas recebe todo o nosso apoio logístico e operacional por meio de nosso escritório de apoio no Haiti.

Agradeço aos governos do Haiti e da República Dominicana por sua cooperação crucial.

Gostaria também de prestar homenagem aos policiais e soldados haitianos que estão mantendo a linha de frente, dia após dia, muitas vezes arriscando suas vidas.

Essas forças devem receber o treinamento, o equipamento e a coordenação necessários para cumprir sua missão – respeitando rigorosamente os direitos humanos.

Pois os direitos humanos e a luta contra a impunidade não são um obstáculo à segurança.

Eles são um pré-requisito para a segurança e a base para a confiança da população.

E, para garantir que esses avanços sejam sustentados, as gangues devem ser desarmadas e desmanteladas, e seus membros reintegrados – em um processo liderado pelo Haiti.

Um sistema de justiça que funcione é essencial.

E os fluxos de armas ilícitas que alimentam essa violência devem ser interrompidos.

Porque essas armas não são fabricadas no Haiti.

Mas a segurança por si só não será suficiente.

Ela deve ser acompanhada de avanços políticos.

Tive conversas francas com o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, bem como com representantes de vários setores da sociedade haitiana..

Minha mensagem foi clara: o povo haitiano já esperou tempo demais.

A oportunidade que temos hoje pode não se repetir – e conto com os líderes do Haiti para aproveitá-la.

É necessário acelerar o processo político e reconstruir a confiança.

Cabe aos haitianos, e somente a eles, traçar o rumo.

E esse processo deve produzir resultados: uma transição inclusiva e eleições confiáveis – o único caminho legítimo para restaurar a ordem constitucional e as instituições democráticas.

As Nações Unidas continuam plenamente empenhadas.

Sob a liderança do meu Representante Especial, Sr. Carlos Ruiz Massieu, e por meio do BINUH, continuaremos a facilitar o diálogo e a apoiar soluções haitianas.

A transição está avançando.

Há um impulso positivo.

Meu apelo à comunidade internacional é, portanto, simples: cumpram suas responsabilidades, de uma vez por todas.

  1. Primeiro: fortaleçam o apoio à segurança – por meio da mobilização rápida e completa da Força – ajustando os recursos de acordo com o progresso alcançado.
  2. Segundo: apoiem a transição política e a recuperação do país – educação, saúde e emprego – para oferecer aos jovens haitianos uma alternativa às gangues e um futuro digno.
  3. Terceiro: financiem a ajuda humanitária de forma previsível e condizente com as necessidades.

E, acima de tudo: ouçam o povo haitiano.

Senhoras e senhores,

Estou deixando o Haiti com uma mensagem de esperança.

Pela primeira vez em anos, podemos ver a luz no fim do túnel.

Porque o Haiti é mais do que suas dificuldades:

  • É uma juventude imensa e criativa.
  • Uma diáspora engajada.
  • Uma cultura que brilha muito além de suas fronteiras.

O Haiti tem tudo o que precisa para se recuperar.

Há mais de dois séculos, em Vertières, um povo conseguiu o que o mundo considerava impossível: quebrou suas correntes e se libertou.

Estou convencido de que esse mesmo povo será capaz de se libertar do domínio das gangues e recuperar sua segurança, suas instituições e seu futuro.

Nosso papel não é agir no lugar de vocês.

Nosso lugar é ao lado de vocês.

E estaremos lá – até o fim.

Obrigado.

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Autor

ambientedomeio@outlook.com

O “Ambiente do Meio” foi criado em 2007 e a autora teve como objetivo inicial auxiliar jornalistas e leigos nas informações de qualidade sobre o Meio Ambiente resultante de preocupações com as poucas informações jornalísticas de qualidade sobre o tema atreladas a conhecimentos acadêmicos e evidências científicas.

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