Discurso Especial do Secretário-Geral da ONU sobre a Resposta Global às Crises Climática e Energética
Discurso Especial do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, na Semana da Ação Climática de Londres, em 23 de junho de 2026.
Caros amigos,
Muito obrigado pela calorosa recepção e, Michael Bloomberg, obrigado pelas suas palavras amáveis, e pela sua liderança duradoura e extraordinária na ação climática.
Você está ajudando a transformar a ambição em progresso real para as pessoas e para o planeta.
Muito obrigado pela sua voz forte.
Estou grato pelo compromisso e pela defesa de tantas diferentes lideranças aqui presentes hoje, começando pelo prefeito de Londres.
Caros amigos,
Crises trazem clareza.
E aqui em Londres, a cidade de Dickens, está claro que o nosso mundo enfrenta um “Conto de Duas Crises”.
Uma crise climática, que nos empurra cada vez mais para temperaturas mais elevadas e mais perto de pontos de ruptura catastróficos.
E uma crise energética, que expõe a insensatez de um mundo dependente de combustíveis fósseis.
À primeira aparência, estas crises podem parecer distintas.
Mas compartilham a mesma origem destrutiva:
Os combustíveis fósseis.
E exigem a mesma resposta:
Uma transição rápida e justa para energias limpas – e um reforço da adaptação, da resiliência e da justiça climática para as pessoas que já enfrentam os impactos da mudança climática.
Caros amigos,
Crise número 1: o caos climático está acelerando diante dos nossos olhos.
Acabamos de viver os onze anos mais quentes já registrados.
E hoje esta cidade, e muito além dela, está vivendo o dia mais quente do ano, com temperaturas ainda mais elevadas por vir.
Londres não está apenas chamando a atenção, está fervendo
Em todo o mundo, os desastres climáticos estão tornando-se mais frequentes, mais destrutivos e mais caros.
E a Organização Meteorológica Mundial alertou que ainda não vimos nada.
O El Niño não está apenas batendo à porta. Corre o risco de demolir a casa abaixo.
Aumentando o calor. Perturbando os sistemas alimentares e hídricos. E atingindo mais duramente as pessoas mais vulneráveis.
Há dez anos, os líderes mundiais fizeram em Paris o acordo de limitar o aumento da temperatura global a 1,5 grau Celsius.
Agora, os cientistas afirmam que as temperaturas médias anuais irão ultrapassar esse limite nos próximos anos.
A tarefa que temos pela frente é limitar rigorosamente esse excedente, reduzir a sua duração e retornar as temperaturas abaixo de 1,5 grau Celsius o mais rapidamente possível.
Cada fração de grau conta.
Cada momento conta.
Porque quanto maior e mais prolongado for esse excedente, maior será o risco de ultrapassar pontos de ruptura planetários que desencadeiam mudanças irreversíveis.
Hoje, o Conselho Científico Consultivo das Nações Unidas divulga um relatório sobre o que isso significaria exatamente:
- Sistemas de recifes de coral empurrados para o colapso.
- A perda acelerada das geleiras na Groenlândia e na Antártida Ocidental – provocando a subida do nível do mar que transformaria as zonas costeiras, deslocaria milhões de pessoas e ameaçaria a existência de alguns países insulares.
- O enfraquecimento dos principais sistemas de circulação oceânica que regulam o clima e a precipitação.
- E partes da floresta amazônica poderiam se transformar em condições semelhantes às da savana.
Caros amigos,
Os pontos de ruptura da Terra são como objetos no espelho retrovisor de um automóvel:
Estão muito mais próximos do que parecem.
Ao mesmo tempo, enfrentamos uma segunda crise.
O conflito no Oriente Médio desencadeou a mãe de todos os choques energéticos.
A Agência Internacional de Energia indica que a sua escala rivaliza com os choques do petróleo da década de 1970 e com a turbulência que se seguiu à invasão russa da Ucrânia. Somados!
Para muitos países em desenvolvimento, isto não é apenas uma crise energética.
É um choque da dívida. Um choque alimentar. Um choque de desenvolvimento.
E acrescentaria que qualquer acordo de paz é bem‑vindo e traria o tão necessário alívio, mas – não haja dúvidas – os impactos serão provavelmente duradouros.
Caros amigos,
Estas crises gêmeas voltaram a expor os limites de um modelo de desenvolvimento ultrapassado:
- Um modelo movido por combustíveis fósseis – em que um único conflito pode perturbar o abastecimento energético global e um único ponto crítico pode fazer disparar os preços.
- Um modelo que trata a natureza como ilimitada – para ser consumida sem consequências.
- Um modelo que criou enorme riqueza mas também aprofundou as desigualdades e alimentou a insegurança.
- Um modelo em que aqueles que menos contribuíram para estas crises pagam o preço mais elevado.
A lição é clara: este modelo não tem futuro.
A comunidade internacional reconheceu os seus limites quando adotou a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
O mundo não pode voltar atrás.
Não podemos insistir num sistema baseado em combustíveis fósseis que está impulsionando tanto a crise climática como a crise energética.
O que precisamos, com urgência, é da vontade de implementar plenamente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS):
- Alinhar prosperidade com resiliência.
- Crescimento com sustentabilidade.
- E oportunidade com justiça.
A boa notícia é que – ao contrário de todas as crises energéticas do passado – temos agora uma saída clara.
Uma saída limpa.
As energias renováveis são a fonte mais barata, mais rápida e mais escalável de nova eletricidade na maior parte do mundo:
- Desde 2010, o custo da energia solar caiu quase 90%, o da eólica terrestre mais de 70% e o armazenamento em baterias 95%.
- No ano passado, a energia eólica e solar ultrapassaram todo o crescimento da procura de nova eletricidade a nível mundial.
- A energia solar registou o maior aumento anual de sempre de qualquer fonte de eletricidade.
- Mais de 90% da nova capacidade renovável instalada em todo o mundo já é mais barata do que as alternativas de combustíveis fósseis de menor custo.
- Segundo a Agência Internacional de Energias Renováveis, a capacidade renovável existente poupou à economia mundial 480 bilhões de dólares em custos evitados com combustíveis fósseis só em 2025.
- E as energias renováveis evitaram emissões de dióxido de carbono anuais superiores às dos EUA, da UE e do Japão, em conjunto.
Ao mesmo tempo, o investimento em energias limpas começou a atrair quase o dobro do investimento em combustíveis fósseis.
Grande parte deste dinamismo vem de países importadores de combustíveis fósseis determinados a libertar-se de mercados energéticos instáveis e imprevisíveis.
Eles compreendem uma verdade essencial:
Cada unidade de energia que um país produz para si próprio é uma unidade a menos que tem de comprar num mercado que não controla… por uma rota que não pode proteger… a um preço definido por acontecimentos que não escolheu.
Não há embargos sobre a luz solar nem bloqueios ao vento.
Caros amigos,
Já temos um veredito:
A independência energética não pode ser construída sobre a dependência de combustíveis fósseis.
As energias renováveis são a pedra angular de uma verdadeira segurança energética.
A eletrificação dos transportes, dos edifícios e da indústria é uma das formas mais rápidas de reduzir emissões e quebrar a dependência de combustíveis fósseis importados.
Quanto mais as economias funcionarem com eletricidade limpa, mais seguras, resilientes e competitivas se tornarão.
Então, como fazemos uma ruptura limpa?
Permitam-me apontar sete passos.
Primeiro, devemos agir com maior urgência para limitar rigorosamente a magnitude e a duração de qualquer excedente do limite de 1,5 grau.
A ciência traçou um roteiro claro:
As emissões devem atingir o pico imediatamente… cair acentuadamente nesta década… e alcançar a neutralidade carbônica global até 2050.
No entanto, o mundo continua perigosamente fora de rumo.
Os mais recentes planos climáticos nacionais reduziriam as emissões globais em apenas 10% até 2035.
A ciência nos diz que as emissões têm de cair 60% no mesmo período para manter o objetivo de 1,5 ao alcance.
O G20 – responsável por cerca de 80% das emissões globais – tem de liderar.
O princípio das Responsabilidades Comuns mas Diferenciadas aplica-se, mas todos os grandes emissores devem fazer muito mais.
E todos os países devem ir além dos compromissos assumidos.
Acelerando a transição dos combustíveis fósseis para as energias limpas – como os governos se comprometeram na Conferência das Nações Unidas sobre o Clima de 2023 (COP28):
Parando o desmatamento e restaurando a natureza.
E reduzindo rapidamente as emissões de dióxido de carbono provenientes da produção e consumo de carvão, petróleo e gás.
O CO₂ continua a ser o principal motor do aquecimento a longo prazo.
Mas chegou também o momento de dar prioridade à redução do metano.
O metano é responsável por cerca de um terço do aquecimento global.
É cerca de oitenta vezes mais potente do que o dióxido de carbono.
Mas, ao contrário do CO₂, o metano decompõe-se na atmosfera ao fim de uma ou duas décadas.
Isso significa que reduções ambiciosas podem produzir um alívio visível das temperaturas no prazo de uma geração.
É por isso que hoje lanço um Apelo Global à Ação sobre o Metano.
Este incide sobre três setores:
- O setor dos resíduos – incluindo medidas decisivas para reduzir o desperdício de alimentos, pôr fim aos lixões a céu aberto e capturar emissões de aterros e de águas residuais.
- O setor da agricultura – reduzindo as emissões com soluções comprovadas para reforçar a segurança alimentar e proteger os meios de subsistência dos agricultores.
- E com um foco especial no setor que está na raiz das duas crises que o nosso mundo enfrenta… e onde se podem alcançar ganhos mais imediatos – carvão, petróleo e gás.
Apelo à indústria dos combustíveis fósseis para que assuma responsabilidades e faça o que há muito já deveria ter sido feito.
A Agência Internacional de Energia concluiu que cerca de 70% das emissões de metano do petróleo e do gás podem ser eliminadas com tecnologia existente – grande parte dela com baixo ou nenhum custo líquido.
No entanto, só em 2025, cerca de 167 bilhões de metros cúbicos de gás foram queimados na atmosfera – tanto quanto a África consome em um ano.
O Sistema de Alerta e Resposta ao Metano do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUMA) emitiu mais de 5.000 alertas em 33 países.
Ainda assim, a taxa de resposta global situa-se em apenas 12%.
É por isso que a ação voluntária já não é suficiente.
O mundo eliminou a gasolina com chumbo.
Eliminamos as substâncias que destroem a camada de ozono.
A poluição por metano tem de ser a próxima.
Apelo tanto aos governos produtores como consumidores para que estabeleçam uma nova norma global para o setor do petróleo e do gás: emissões de metano próximas de zero ao longo de toda a cadeia de valor.
Segundo, devemos enfrentar a atual crise energética sem aprofundar a dependência dos combustíveis que a alimentam.
Em todo o mundo, vozes influentes continuam a insistir em mais minas de carvão, mais campos petrolíferos, mais expansão do gás.
Isto num momento em que o mundo nem sequer conseguirá utilizar todos os combustíveis fósseis já disponíveis – quanto mais apostar em novos abastecimentos e infraestruturas que correm o risco de se tornarem obsoletas muito antes do fim da sua vida econômica.
E sejamos claros: não serão apenas ativos encalhados – serão economias inteiras.
O motor de crescimento de hoje e de amanhã funciona com energia limpa.
Compreendo o impulso, especialmente em períodos de turbulência, de nos agarrarmos ao que nos é familiar.
A promessa de “negócios como de costume” pode soar reconfortante para alguns.
Mas significa pagar mais por menos segurança.
Significa ceder a outros as indústrias e os empregos do século 21 – enquanto o risco aumenta internamente.
Isto não é liderança. É recuo.
E devemos ser igualmente claros sobre quem suporta o custo:
Os trabalhadores.
As famílias que sentem a pressão com contas mais elevadas, maior incerteza, a sensação de que o sistema não está funcionando para elas – enquanto os gigantes dos combustíveis fósseis continuam a obter lucros extraordinários.
As oito maiores empresas de combustíveis fósseis registaram ganhos adicionais de 6,5 bilhões de dólares apenas no primeiro trimestre deste ano – e isso inclui apenas um mês da crise no Oriente Médio, à medida que os preços do petróleo continuavam a subir e os lucros a aumentar.
São ganhos extraordinários nascidos da dor – da instabilidade, das dificuldades e da dependência.
Apelo aos governos para que apliquem taxações.
E apelo para que utilizem essas receitas onde elas devem estar: apoiar famílias e comunidades vulneráveis e acelerar a transição para energia limpa e acessível.
Mas remover subsídios e incentivos prejudiciais não é suficiente. Devemos também eliminar os obstáculos estruturais que travam os projetos de energia limpa.
Demasiadas vezes, estes limitam-se a esperar – por vezes durante anos – para se ligarem à rede.
As infraestruturas de transporte são insuficientes.
Os sistemas de distribuição estão desatualizados.
O armazenamento está atrasado.
Os sistemas digitais ainda não são suficientemente inteligentes nem flexíveis.
E as interligações regionais e inter-regionais continuam demasiado limitadas.
Se levarmos a transição a sério, devemos tratar as redes como infraestruturas estratégicas.
A era da eletrificação exigirá uma expansão massiva das redes, do armazenamento e da flexibilidade dos sistemas.
E precisamos de regras adequadas ao século 21.
Os governos devem criar condições para o investimento – com planejamento modernizado, processos de licenciamento mais rápidos e reformas regulamentares.
Terceiro, à medida que a demanda por energia continua a crescer, devemos enfrentar uma das suas fontes de crescimento mais rápido: os centros de dados da IA.
A inteligência artificial pode acelerar soluções climáticas.
Pode ajudar a curar doenças, transformar a educação e permitir à humanidade enfrentar desafios antes considerados fora do nosso alcance.
Devemos aproveitar esse potencial.
Mas a IA também exige grandes quantidades de terra, água e energia.
Os centros de dados que a suportam já consomem mais eletricidade do que a maioria dos países.
Até 2030, poderão consumir mais energia do que todos os países exceto cinco – e utilizar água suficiente para satisfazer as necessidades básicas de todos os 1,3 bilhão de habitantes da África subsaariana durante um ano inteiro.
Também ocupam grandes extensões de terra – frequentemente em locais que pouco se beneficiam disso.
Apesar destas preocupações evidentes, as comunidades são muitas vezes deixadas desinformadas sobre o impacto ambiental das infraestruturas que surgem à sua volta.
Por isso, hoje proponho a Iniciativa de Transparência Ambiental da IA.
Apelo a todas as grandes empresas de IA para que meçam e divulguem publicamente o impacto ambiental completo dos seus sistemas – pegadas de carbono, água e uso do solo – e que se comprometam a abastecer todos os centros de dados com energias renováveis até 2030.
Chega de custos ocultos.
Chega de transferir o peso para quem menos pode suportá-lo.
É tempo de transparência.
Se a IA deve ajudar a construir um futuro melhor, tem de ser honesta quanto ao custo que tem hoje.
Quarto, devemos assegurar uma transição justa.
A história ensina uma dura lição:
A maior ameaça não é a transição em si – mas a incapacidade de gerenciá-la
É esse o risco que enfrentamos atualmente.
A transição energética não está avançando de forma coerente.
O investimento em combustíveis fósseis continua, mesmo com o crescimento da energia limpa.
Os países estão seguindo direções divergentes.
Os produtores perguntam: o que acontecerá com nossas receitas, nossos empregos, nossas economias?
Os consumidores perguntam: a energia continuará acessível e confiável?
Os países em desenvolvimento perguntam: conseguiremos competir – ou ficaremos para trás?
E os trabalhadores, as comunidades e os jovens perguntam: o que significa esta transição para o nosso futuro?
Neste momento, estas questões não estão sendo respondidas de forma articulada.
Precisamos de um esforço comum, prático e centrado na implementação.
Um espaço que reúna produtores e consumidores, países desenvolvidos e em desenvolvimento, finanças, indústria, trabalhadores e sociedade civil.
Um espaço centrado nas questões reais que determinarão se esta transição terá sucesso ou fracassará:
- Como eliminar progressivamente a dependência dos combustíveis fósseis enquanto expandimos rapidamente a energia limpa?
- Como gerir os riscos econômicos para os países que dependem das receitas dos combustíveis fósseis?
- Como apoiar os trabalhadores e as comunidades numa transição justa?
- E como mobilizar investimento com a velocidade e a escala necessárias?
Convocarei líderes em setembro para ajudar a impulsionar este trabalho antes da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP31) na Turquia.
Porque a transição em si já não está em questão.
Será gerenciada ou caótica? Justa ou desigual? Uma fonte de estabilidade ou de maior divisão?
Estas escolhas continuam nas nossas mãos.
A transição é inevitável.
E quero ressaltar que as energias limpas não podem ser construídas com base em práticas prejudiciais.
Uma transição justa significa que os países e as comunidades cujas terras contêm os minerais críticos para o futuro da energia limpa devem se beneficiar plenamente dela.
Chega de extração sem desenvolvimento.
Quinto – e de forma fundamental – devemos fazer muito mais para proteger as pessoas e as comunidades dos impactos imediatos do caos climático.
Porque, mesmo à velocidade máxima, não conseguimos ultrapassar a mudança climática.
Os seus impactos já estão aqui – acumulando-se e multiplicando-se:
- Uma seca pode rapidamente transformar-se numa crise alimentar.
- Uma tempestade pode transformar-se numa crise de dívida.
- Uma onda de calor pode tornar-se uma emergência de saúde pública.
A adaptação é essencial.
Salva vidas, protege lares e comunidades, ajuda as economias a absorver choques e mantém as sociedades coesas.
No entanto, durante demasiado tempo, a adaptação foi vista como caridade.
Isso está errado.
Os impactos climáticos já estão remodelando o desenvolvimento, a estabilidade e a segurança.
Estão pressionando os sistemas alimentares e hídricos, perturbando cadeias de abastecimento, pressionando as finanças públicas e agravando a fragilidade.
Devemos responder em conformidade:
- A adaptação deve ser integrada no planejamento nacional e na tomada de decisões – desde estratégias de desenvolvimento até à regulamentação.
- Precisamos de sistemas de seguros e de compartilhamento de riscos mais eficazes.
- Precisamos de mecanismos de contingência que atuem antes de os choques se transformarem em catástrofes humanitárias e econômicas.
- Precisamos de melhor preparação antes de desastres e de implementar plenamente a nossa Iniciativa de Alertas Precoces para Todas as Pessoas.
- E os países desenvolvidos têm de cumprir o seu compromisso de longa data de duplicar o financiamento para adaptação – com uma trajetória clara para triplicá-lo.
Isso nos leva ao sexto ponto – tudo isto exige financiamento com a escala, a velocidade e a equidade que ambas as crises requerem.
Hoje, o sistema financeiro global está prejudicando os países que mais precisam de apoio.
Supervaloriza o risco – e subvaloriza a oportunidade.
Muitos países em desenvolvimento enfrentam custos de financiamento para energia limpa e resiliência duas a três vezes superiores aos das economias mais ricas.
Países ricos em potencial de energias renováveis estão sendo excluídos da revolução da energia limpa.
Basta olhar para o vasto continente africano.
A África concentra 60% dos melhores recursos solares do mundo, 30% dos minerais críticos e um quinto da humanidade.
No entanto, recebe apenas 2% do investimento global em energias limpas.
Ao mesmo tempo, mais de 600 milhões de africanas e africanos continuam sem acesso à eletricidade.
Isto é injusto e uma oportunidade perdida para a África e para o mundo.
Os países desenvolvidos devem cumprir as suas promessas, incluindo o apoio ao Fundo para Responder a Perdas e Danos e ao Fundo Verde para o Clima.
Os 300 bilhões de dólares prometidos aos países em desenvolvimento devem ser mobilizados – com medidas concretas para atingir 1,3 trilhão de dólares por ano até 2035.
Num mundo em que a ajuda internacional está em retração, devemos também mobilizar o papel catalisador dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento e do sistema mais amplo de financiamento do desenvolvimento para apoiar infraestruturas de longo prazo, como redes elétricas, transportes públicos de massa e sistemas de água.
Reformas recentes e decisões políticas aumentaram a capacidade de financiamento dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento em 600 bilhões a 800 bilhões de dólares.
Devem utilizá-la de forma ambiciosa para financiar as infraestruturas do futuro e a adaptação climática.
Devem também adaptar os seus instrumentos à dimensão e ao horizonte temporal do desafio, incluindo financiamento a 50 anos quando necessário.
E devemos ir mais longe.
A capacidade de financiamento dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento deve ser reforçada pelos seus acionistas, incluindo através de recapitalizações ousadas e de novas reformas.
Num contexto de margem orçamental limitada, cada centavo público deve ser mais eficaz e utilizado de forma mais criativa para mobilizar capital privado.
Isso implica reforçar garantias, financiamento em moeda local, financiamento misto e outros instrumentos de compartilhamento de risco para reduzir o custo do capital e atrair investimento privado – sobretudo nos países em desenvolvimento onde os riscos são percebidos como elevados.
Implica recorrer a fontes adicionais de financiamento – desde contribuições de solidariedade sobre setores com elevadas emissões, a trocas dívida‑clima, a receitas dos mercados de carbono e à mobilização da filantropia.
E implica assegurar que todas as instituições financeiras – públicas e privadas – alinhem a sua atividade com o Acordo de Paris e com a realidade de um mundo em aquecimento.
No final, o teste é simples:
Devemos canalizar capital para os países em desenvolvimento com a velocidade, escala e acessibilidade que o momento exige, para responder à crise climática, impulsionar um crescimento mais forte e resiliente e avançar nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Sétimo, e último, devemos proteger a ciência – e a própria verdade.
A ciência deu à humanidade a capacidade de compreender os riscos antes de a catástrofe ocorrer.
No entanto, a desinformação está propagando-se – deliberadamente – para atrasar a ação climática, consolidar interesses estabelecidos e corroer a confiança.
- Devemos agir para proteger a independência científica;
- Reforçar a confiança na evidência e nas instituições;
- Proteger os defensores dos direitos humanos e os jornalistas que informam sobre o clima e o ambiente;
- E assegurar que todos tenham acesso a informação confiável, credível e baseada na ciência.
As Nações Unidas lançaram a Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudança do Clima precisamente para esse fim.
Os fatos importam. A ciência importa. A integridade da informação importa.
Caros amigos,
Permitam-me concluir onde comecei – com Dickens.
Para a agenda climática, esta é verdadeiramente a melhor das épocas e a pior das épocas.
A pior – porque os impactos climáticos estão intensificando-se, os pontos de ruptura aproximam-se e a crise energética expôs os profundos riscos da dependência dos combustíveis fósseis.
Mas também a melhor – porque a revolução das energias renováveis já está bem encaminhada.
Uma revolução de energias limpas, de eletrificação, de custos em queda, de ambição crescente – e de enormes oportunidades.
Uma revolução que pode libertar os países da volatilidade dos mercados de combustíveis fósseis, ampliar o acesso à energia, reforçar a segurança, criar empregos, melhorar a qualidade do ar, restaurar ecossistemas e aproximar-nos de um futuro mais seguro.
Temos uma enorme oportunidade – e responsabilidade – de transformar este “Conto de Duas Crises” numa única história de determinação, de equidade e de progresso partilhado.
Podemos finalmente virar a página dos combustíveis fósseis – e escrever um futuro alimentado por energias renováveis e fundamentado na justiça climática.
Este é o nosso momento de escolha. O nosso momento de verdade. O nosso momento de oportunidade.
Vamos aproveitá-lo.
Muito obrigado.
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